Aos 10 anos, garoto se apaixona por futebol antigo e cria próprio álbum da Copa de 1958
13 de maio de 2020
Categoria: 4-3-3

Arquivo pessoal

Com a globalização do futebol e o avanço da tecnologia, é cada vez mais comum vermos crianças torcendo para potências do futebol europeu. Esse movimento, inclusive, preocupa os apaixonados pelo futebol. Há um temor grande de que os times brasileiros sejam esquecidos e, mais do que isso, equipes históricas caiam no esquecimento. Para a sorte desse grupo de pessoas, porém, há quem reme contra essa corrente.

Na modesta Manhuaçu, a 290 quilômetros de Belo Horizonte, um garoto de 10 anos tem um verdadeiro acervo de paixão ao futebol. Atleticano de coração, Raul Brandão acompanha os jogos de sua equipe, mas tem maior interesse por algo bem específico: as edições antigas da Copas do Mundo. E aqui não estamos falando de algumas pesquisas na internet ou reprises eventuais. É amor mesmo.

Depois de assistir alguns DVDs dos mundiais passados e ler uma revista com os 100 maiores jogadores da história, o pequeno Raul resolveu materializar a admiração pelos atletas que marcaram época com suas seleções. Para isso, começou a produzir um álbum da Copa de 1958 por conta própria, usando recorte e colagem. Para ele, o passo a passo é simples.

“Você quer fazer um time da Seleção de 1962, aí você olha vê um jogo que o Brasil fez naquela Copa. Aparece na tela os jogadores. Você pega lá o Gylmar, por exemplo. Vai no Google Imagens, pega uma foto dele, imprime e recorta. Antes de tudo isso, você pega duas folhas. Aí na primeira você cola o Gylmar, coloca o nome e começa a montar a Seleção”, resumiu.

Gylmar foi só o primeiro dos nomes colados na página do Brasil (Arquivo pessoal)

E a confecção do álbum é só uma parte do dia de Raul, completamente voltado ao amor pelo esporte bretão. De forma artesanal, Raul também fez centenas de “bonecos” de papel de jogadores, com uniforme, número e nome nas costas – que acabam utilizados em jogos imaginários, narrados com muita vontade pelo menino.

Tudo isso serve para ilustrar cada uma das conversas que ele tem sobre o tema. Não há espaço para a atual Champions League, Messi ou Cristiano Ronaldo. O futebol antigo é o assunto dominante para o garoto.

“Ele passa literalmente o dia inteiro falando de Didi, Kocsis, Fontaine, Puskás, Di Stéfano, Luigi Riva, Cruyff, Maradona, Eusébio, Yashin, Pelé, Garrincha, Zagallo, Leônidas e outros do Atlético, como Oldair, Cincunegui, Mário de Castro, Said, Ubaldo Miranda, Guará, Jairo, Zé do Monte, Cerezo, Éder, Dario, Luizinho e Reinaldo, que é o favorito dele. Basicamente todos os jogadores da história do Atlético ele conhece. Também é completamente viciado no Brasil de 70. Ele tem um certo “receio” de citar jogadores do Cruzeiro, por ser rival, mas também se interessa por Tostão, Dirceu Lopes, Raul”, conta seu irmão mais velho, Pablo Heringer Brandão, outro apaixonado por futebol – mas nem de longe o maior do quesito na família.

Centenas de bonecos são utilizados para Raul em seus jogos imaginários (Arquivo pessoal)

Paixão o fez até mudar o “pé bom”

Apesar de citar Pelé como seu jogador preferido de todos os tempos, Raul também ama o principal “concorrente” do rei. Em meio às tantas pesquisas que fez sobre futebol antigo, o garoto passou a admirar Diego Maradona. Com o sonho de jogar futebol profissionalmente, usou o argentino como inspiração para “mudar o pé bom” e intensificar os treinos com a perna esquerda.

“Quero muito. Desde criança meus irmãos e meu pai sempre me ajudaram a jogar. Esse é meu sonho desde pequenininho. Todo jogador tem que aprender a chutar com as duas pernas. Eu gosto muito do Maradona e foi por causa dele que quis chutar com a perna esquerda“, contou.

Justiça aos subestimados

Apesar do amplo reconhecimento que dá aos nomes mais badalados da história, como a dupla Pelé e Maradona, Raul também conheceu outros atletas importantes em meio a suas pesquisas. Quando perguntado sobre jogadores que poderiam ter mais reconhecimento, ele respondeu sem pensar duas vezes.

“O que eu acho (subestimado) é o Leônidas da Silva, que criou a bicicleta. Acho que deviam falar muito mais dele, porque ele que criou o gol mais bonito do mundo. Outro que podia ser mais falado é o Kocsis, jogador da Hungria. É o “Cabeça de Ouro” da Hungria. Ele é tipo o Puskás, aliás, se não tivesse o Puskás, ele ia ser o melhor jogador do país“, resumiu o garoto.

Álbum de 1958 está quase completo (Arquivo pessoal)

O sonho de sair da imaginação

Acostumado a materializar suas paixões no papel, Raul agora sonha em transformar tanta imaginação em realidade: quer conhecer a Arena Independência e o Maracanã, além de, quem sabe, conversar com um dos tantos jogadores que já eternizou em suas confecções – ou até mesmo os ídolos recentes do seu clube do coração.

“Ele nunca teve essa oportunidade de ter contato com algum jogador. Tivemos uma vez uma chance, mas ele tinha apenas 2 anos. Estávamos em BH e vimos o Dadá Maravilha em uma calçada, mas acabamos não falando nada com ele, só gritando e acenando. Os jogadores mais recentes que ele gosta de citar são os da década de 80. De lá pra cá, raríssimas exceções. Ele cita bastante Ronaldinho, Bernard, Victor e Tardelli, que ele também ama“, finaliza o irmão Pablo.

A paixão continua

Mesmo tão novo, Raul já é um enorme exemplo do que é o amor pelo futebol. Um sentimento capaz de transformar algumas folhas de papel em verdadeiros tesouros. O pequeno mineiro nos prova que a história e a paixão pelo esporte bretão resistirão de um jeito ou de outro.

Texto com colaboração de Leonardo Tudela.

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Postado por Andrew Sousa Formado em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus 23 anos.