Anjo da gávea, Rei da Espanha – Sávio
20 de fevereiro de 2016

 

Ídolo no Flamengo, Sávio foi de fato um dos maiores nomes do futebol brasileiro na transição dos anos 90 para o século XXI. Fez parte de times lembrados até hoje e ganhou títulos que todo jogador sonha em ganhar. Com uma carreira com tanta riqueza de detalhes, Sávio se mostrou também um ex-jogador um tanto quanto atípico, interagindo com o mundo empresarial de uma forma bastante direta. Além disso, conversamos sobre outros diversos temas relacionados a carreira do mesmo e o indagamos acerca de alguns assuntos que vem tomando a manchete esportiva!

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

1 – Você desde cedo foi reconhecido pela mídia como uma grande promessa. Que futuramente veio a se tornar uma realidade. Aqui no Brasil, seu ápice foi quando formou o famoso “ataque do século” com Romário e Edmundo. Esperava-se muito de vocês três, por que acha que o trio não vingou como poderia? 

Foi uma expectativa muito grande com o trio, mas não tínhamos entrosamento, união e um time muito qualificado.

2 – Houve um alarde muito grande na época, que indicava que você e Romário tinham algum tipo de divergência, talvez a disputa por protagonismo ou a tão desejada camisa 11. Depois de tanto tempo, qual é a sua análise desta época turbulenta com o baixinho? A relação de vocês hoje em dia é amigável?

Não tive nenhum problema com o Romário, não éramos amigos, porém sempre nos respeitamos muito dentro e fora de campo, hoje temos mais contato. Foi uma das duplas com maior média de gols da história do Flamengo, 109 jogos e 139 Gols.

3 – Você é um dos jogadores brasileiros que mais vestiu a camisa merengue. As lesões realmente atrapalharam seu desempenho a meu ver, como você analisa sua passagem pelo clube de Madrid? E aproveitando, qual rivalidade é mais intensa, Real x Barcelona ou Flamengo x Vasco?

 Tive o prazer em defender o clube por cinco temporadas,com muitos títulos. Algumas lesões me atrapalharam até pelo meu estilo de jogo, mas tive sempre o carinho e reconhecimento do Bernabeu, e isso diz bastante coisa. São duas grandes rivalidades, mas realmente Real Madrid x Barcelona é diferente.

Sávio foi multicampeão em Madrid.

4 – A seleção brasileira por vezes é cruel com alguns craques e algumas convocações controversas costumam ganhar as capas dos jornais. Você se considera um jogador injustiçado na amarelinha? Acha que poderia ter condições de ter disputado alguma copa do mundo? 

Não costumo me arrepender ou fazer críticas, joguei por 3 anos na seleção e fui artilheiro da olímpica, campeão do pré-olímpico fazendo o gol do título e medalhista na olimpíada de Atlanta. Em duas copas especialmente, 1998 e 2002, esperei uma convocação que não veio, estava jogando muito bem pelo Real Madrid, mas não tiro e nem acrescento nada na minha carreira.

5- Como foi vencer um título de copa do rei pelo Zaragoza? Sabemos que é bastante raro um time fora do hall dos médios/grandes vencer algum torneio doméstico na Espanha e você conseguiu tal façanha, qual foi a proporção dessa conquista para o Clube na época? Você chegou a ser chamado de “O galáctico do Zaragoza”, ganhar esse título em cima do Real Madrid teve um gosto especial?

Cheguei ao Zaragoza com 29 anos,cercado de expectativas positivas e ao mesmo tempo de desconfianças.Muitos perguntavam porque eu escolhi o Zaragoza depois de ganhar tudo com o Real Madrid. Foi especial, 3 anos maravilhosos, dois títulos, a copa do Rei contra o Real Madrid e a Supercopa da Espanha contra o Valência em pleno Mestalla, título inédito.Fizemos história e isso é o que fica. Me despedi do clube dando a volta olímpica com todos torcedores de pé. Foi único.

6 – Quando voltou pro Flamengo em 2006 ainda tinha 32 anos, poderia ser um dos pilares daquele time rubro negro. A que se deve o fato de ter sido tão curto o período que ficou na gávea? 

Muitos não queriam minha volta. Eu abri mão de um ano de contrato que ainda tinha com o Zaragoza porque queria voltar. Assinei com o Flamengo ganhando menos da metade e recebi um mês de salário em 6 meses. Não tinha estrutura, companheirismo e por isso decidi voltar para Europa.

7 – Já no fim da sua carreira, se aventurou no Chipre. Nós aqui do Brasil, pouco conhecemos sobre o esporte cipriota e sua cultura, qual é sua impressão final do país e do futebol praticado por lá?

Foi  muito legal. Classificamos o Anorthosis pela primeira vez para a Liga dos Campeões da Europa. Primeira vez na história do Chipre. Fui muito bem e não classificamos por muito pouco. Foi uma experiência positiva.

8 – Após encerrar sua carreira, você se mostrou um empresário bastante eficiente. Na sua opinião, dá pra viver o resto da vida bem só com o dinheiro que se ganha como um jogador classe A, ou é necessário se planejar desde meados da carreira pra garantir uma vida confortável assim que pendurar as chuteiras?  Existe algum paralelo entre a antiga vida de jogador e a atual vida de empresário? 

Planejamento é fundamental em todos os setores da vida. Na minha concepção é impossível ter uma vida confortável e saudável economicamente depois da carreira, sem planejamento. Desde o início da carreira sempre tive essa preocupação, busquei e busco sempre aprender, me atualizar, me informar, dentro e fora do futebol. O único paralelo é olhar pra trás e dar valor a tudo que consegui, todos os detalhes, pois realmente não foi nada fácil.

9 – Hoje em dia, tem frequentado a bancada do canal Esporte Interativo comentando os jogos da UCL, como vem sendo a experiência de comentarista? É fácil analisar o jogo estando fora do gramado?

Uma experiência importante, estou gostando e falando de uma competição que joguei 6 vezes. É mais fácil estar dentro de campo, mas procuro ser coerente, verdadeiro e o mais objetivo possível.

Para Sávio, jogar é mais fácil que comentar.

10 – Nos anos em que você jogou pelo Flamengo, o clube carioca tinha uma gestão bastante desordenada. Hoje em dia, vemos um Flamengo bastante transparente e quitando suas dívidas que antes eram empurradas com a barriga. Você acredita na proposta dessa nova gestão que comanda o clube da gávea? O que você teria a destacar sobre essa atual administração da instituição Flamengo?

O Flamengo precisava de uma gestão mais profissional. Cresci no clube e era rotina receber salários de 3 em 3 meses, gestão amadora sempre.Não era fácil e por isso fico contente com essa mudança, não existe mais espaço para amadorismo no nosso futebol, mas infelizmente ainda vemos bastante em clubes, atletas, federações etc.

11 – Já teve vontade de ser treinador? Acha que se encaixaria em algum cargo esportivo num clube de ponta do futebol brasileiro? É uma meta pro seu futuro? 

Nenhuma possibilidade em ser treinador, profissão difícil e ingrata no Brasil. Em relação à gestão, me preparei e me preparo a cada dia pra isso.Tenho 3 empresas,de investimentos imobiliários, investimentos financeiros e de gestão de carreira, além do trabalho de comentarista no Esporte Interativo, que me toma bastante tempo. Não tenho agenda hoje para outros projetos que requerem exclusividade.

12 – Qual foi o melhor jogador que já enfrentou na carreira? E o melhor que já jogou ao seu lado? 

Os melhores que enfrentei foram Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo, já o  melhor que joguei ao lado, Romário e Zidane.

Sávio e Romário, o torcedor deve sentir falta…

13 – Nos diga sua opinião sobre a Primeira Liga (ou Sul-Minas-Rio). Acha que pode ser o embrião de uma nova era no futebol brasileiro? 

Acho interessante e tem tudo pra dar certo. Não sou contra os estaduais, somente acho que precisaria de uma mudança, menos clubes e uma competição mais curta. Só espero que não acabem com os pontos corridos, seria um retrocesso no nosso futebol.

14 – Você chegou a ter uma breve passagem pela Desportiva, do seu estado natal, o Espírito Santo, muita gente se pergunta o porque do estado que se localiza na região mais desenvolvida do Brasil ser tão pouco expressivo futebolisticamente falando, como você vê esse panorama? 

Falta de profissionalismo, comprometimento, estrutura, apoio, entre outros. Nos acostumamos a torcer para clubes de Rio, São Paulo e Minas, mas ainda tenho esperança e torço pra que tenhamos um futebol forte.

15 – Para terminar, existe alguma coisa que gostaria de ter falado sobre? Deixe suas considerações finais. 

Meu agradecimento a todos que me ajudaram no futebol, principalmente quando comecei na Desportiva Ferroviária e na base do Flamengo. Pessoas que não aparecem mas são muito importantes. No mais é agradecer a Deus por tudo e principalmente por ter me presenteado com o mais importante. Minha Família.

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Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.