“Accrington Stanley? Who are they?”
14 de junho de 2022
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

 

No carismático comercial de leite que esteve no ar de 1989 até 1995, Carl Rice adverte seu amigo que nas palavras do lendário Ian Rush, se ele não beber leite frequentemente, não conseguirá jogar nem no Accrington Stanley.

Alfinetada originalmente reservada para o Tottenham, a campanha publicitária caiu nas graças do povo e sobrou para então desconhecido time que se erguia nas cinzas do Accrington, time fundador da Football League, virar chacota em todo o país.

(Luke Pearson/ASFC Twitter)

Confirmado para sua quinta temporada seguida na League One é possível dizer que o Accrington já faz parte do clubinho da terceira. Situação desconfortável para uns e um sonho para outros, a terceira divisão é a mais perigosa das 3 geridas pela EFL. 

Na temporada 22/23. Peterborough United, Derby County e Barnsley se juntam ao Accrington . E como se manter tanto tempo na mesma divisão mesmo tendo um orçamento menor que alguns times da League Two?

O principal dono dessa façanha é um inglês baixinho, com rosto simpático e redondo. Cresceu ao redor de Lancashire e sempre viu o clube como algo valioso para a comunidade. Seu nome é Andy Holt. Empresário e hoje acionista majoritário. Assumiu o controle do time em 2016, época que o time terminava o ano com 300 mil libras de dívidas e diversos problemas estruturais.

O gramado era sempre motivo de críticas, o estádio tinha problemas como falta de água – Se o sistema de irrigação do campo estivesse ligado, os banheiros não teriam água disponível – O jogo de volta dos playoffs da League Two contra o AFC Wimbledon – em 2016 – teve que ser paralisado por 10 minutos quando um dos refletores do estádio apagou.

Outro problema que afetava principalmente os jogadores era a precariedade do vestiário, não haviam chuveiros para os jogadores após os jogos. Mesmo o nordeste inglês sendo uma região com temperaturas baixíssimas.

Andy Holt o homem que salvou o menor clube dos 92 da pirâmide do futebol inglês. Figura que está sempre engajada na causa de uma melhor gestão do futebol Inglês. Ativo no Twitter, Andy está sempre debatendo o estado do futebol no país. (Ian Hodgson)

Com a venda dos naming rights do estádio, e investimento da própria comunidade aos poucos o Accrington foi concertando seus problemas estruturais e percebendo uma maior presença de seus torcedores em dias de jogos. A prova da confiança dos torcedores, foi a doação de um telão para o estádio em 2017. 

De um clube que fechava o ano com dívidas e sempre recorrendo à empréstimos usando futuras premiações como garantia, para terminar o ano com dinheiro no caixa e reforma no estádio. O Accy mostra que apesar de pouco orçamento, o trabalho sério rende frutos.

 

Wham Stadium em processo de modernização. Novos camarotes estão sendo construídos ao lado do Coley’s. Pub que aluga seu salão para reuniões de negócios, eventos e até vira cenário de um programa da TV local. (Julian Wilkinson)

Buscando diversificar suas receitas e aproveitar da melhor maneira a estrutura do estádio que passa por reformas, o passado de dívidas e empréstimos já é página virada na história dos Reds.  

Se fora de campo o trabalho é bem feito, do vestiário para o gramado também. Os responsáveis são a comissão técnica capitaneada por John Coleman. Um accringtoniano. O treinador com o terceiro maior tempo comandando o mesmo clube na Inglaterra. – ficando atrás apenas de Sir Alex Ferguson e Arsène Wenger – Sua primeira passagem pelo Accrington durou 12 temporadas. De 1999 até 2012 ele conseguiu 3 acessos, e deixou o time no quarto nível do futebol inglês. Saiu para treinar o Rochdale e o Southport, se aventurou também na Irlanda quando assumiu o Sligo Rovers. – passagens de apenas uma temporada, sem muito sucesso – Mas o seu destino é o clube do comercial de leite. Coleman voltou em 2014 e na temporada 17-18 conseguiu o título da League Two, após o acesso bater na trave em 2016. 

Coleman é amado por todos os torcedores. 21 anos como treinador. Um símbolo de um time aguerrido e com muita personalidade. Um caso de amor e identificação que vai além das cifras e luxos do futebol. (AFP/Getty Images)

Poucas comissões técnicas tem um feeling tão bom quanto à de Coleman, Sempre buscando jogadores da non-league, e jovens das categorias de base da Premier League, ele conseguiu ao longo dos anos montar diversos times sem gastar 1 libra de valor de transferência. Muitos orçamentos estouram apenas com o salário dos jogadores e o dia-a-dia. Lidar com contratos de empréstimo e montar um time tendo que equilibrar as demandas de empresários e times formadores não é tarefa fácil. Mas há algo nesse clube que encanta alguns jogadores também. Muita gente chega e fica. Vira a espinha dorsal do time. Jogadores como Sean McConville, Seamus Conneely, Ross Sykes – Prata da casa e importantíssimo para o time – Colby Bishop, Harvey Rodgers e Toby Savin – outra prata da casa.

McConville, Rodgers, Coneelly e Sykes estão no time desde a League Two, (Rodgers também esteve em partes, mas saiu para empréstimo entre temporadas.) Representam a torcida e o projeto. Hoje colhem os frutos do trabalho que vem sendo feito desde 2015 (chegada de Holt à gerência do clube). 

São também jogadores versáteis, característica importantíssima se quiser fardar a camisa vermelha do time. Jogos de liga são 46 por temporada. Se somarmos os jogos de copas nessa equação, é impossível que improvisos não sejam feitos. McConville meia esquerdo de origem, faz muitas vezes o lado direito e também pode fazer o papel de 2° atacante. Coneelly volante e capitão do time, aparece nas laterais do campo sempre que necessário. Ross Sykes em muitos jogos trabalha como um terceiro atacante dependendo da situação do jogo.

 

 

Na temporada 20-21 quando de última hora Callum Johnson – lateral direito e jogador de confiança – foi vendido, Coleman teve que adaptar seu estilo de jogo para 3 zagueiros. Sykes fez o lado direito da zaga. Se lançava muito ao ataque. Aproveitando de sua velocidade, causando um desequilíbrio na marcação adversária com seus avanços. Gerando cruzamentos para Bishop que encantou à todos com seu desempenho fantástico nessa temporada.

Fazendo dupla com Dion Charles (que esteve no clube de 2019 até o fim da temporada 20-21) Bishop trouxe tranquilidade para a torcida que estava chocada com a notícia da aposentadoria de Billy Kee. 

Ídolo e artilheiro do time. Sofrendo com sua saúde mental, Kee resolveu pendurar as chuteiras por não conseguir se sentir confortável dentro da pressão do futebol. (Alex Livesey/Getty Images)

Coleman não perderá nenhum de seus “bruxos” para próxima temporada – jogadores como Sykes e Bishop podem receber propostas de times da Championship – mas o clima é de otimismo. 

O futebol nos últimos 5 anos foi aos extremos financeiramente. Vimos uma bolha inflacionada no mercado de transferência. Onde vimos jogadores sendo vendidos por valores acima de 110 milhões de euros, e pouco depois a queda brutal de receitas devido à pandemia. Muitos clubes na Inglaterra se encontram em situação catastrófica. A combinação desses fatores e donos incompetentes está destruindo muitos clubes cheios de tradição. Vimos o caso da falência do Bury, o Bolton jogar a League One apenas com jogadores da base e tendo que montar um time inteiro na janela do meio do ano. O Derby County que quase fez história se salvando de uma punição de 21 pontos na Champioship tem seu dono como vilão ao “quebrar” o time tentando o acesso à Premier League.

O Accrington sem fazer muito barulho vai com seus pés no chão vendo sua concorrência derrapando pelo caminho e assumindo posições mais altas na pirâmide do futebol inglês. O patinho feio das 4 divisões principais inglesas está se tornando um modelo de sucesso dentro e fora de campo. Uma gestão que merece atenção pelo trabalho sério e paciente, e um time que se está escrevendo uma das histórias mais bonitas do futebol inglês.

Postado por Caíque Andrade