A razão e a história estão do lado de Sampaoli
27 de março de 2018
Categoria: Futebol e Seleções

Pelas declarações de Sampaoli, Dybala não parece perto da Rússia.

Como fanático do futebol argentino, não sou um grande entusiasta do trabalho de Jorge Sampaoli, que foi vitorioso e encheu os olhos de quem acompanhou seus trabalhos na Universidad do Chile ou da seleção chilena. Sua destruição e reconstrução da equipe a cada partida (por vezes equivocada) quase custou a vaga da Argentina na Copa do Mundo (ainda que o trabalho dos comandantes anteriores tenha sido ainda pior). A reta final das Eliminatórias provou novamente a importância gigantesca de Lionel Messi na equipe e mostra que seria loucura armar um time que não aproveitasse o melhor dele. O camisa 10 foi protagonista total da seleção, seja em jogos onde armou inúmeras oportunidades ou quando marcou o hat-trick salvador frente ao Equador.

Por essa necessidade de extrair o máximo de um dos maiores jogadores da história, em declaração um tanto polêmica, Sampaoli disse que o craque Paulo Dybala não se adaptou a forma da seleção argentina de jogar e que poderia ficar de fora da convocação final para a Copa do Mundo. E mesmo como crítico do trabalho desse treinador, a declaração, mesmo muito questionada, parece ser acertada.

O panorama nos leva a voltar aproximadamente oito anos para uma situação semelhante. A Albiceleste, assim como em 2018, foi à Copa por um milagre. Atuações vexaminosas e uma equipe nada convincente. Porém, em 03/03/2010, na Allianz Arena, uma luz surgia para Diego Armando Maradona. Don Diego escalou sua equipe num 4-4-2 com Jonás Gutiérrez, Mascherano, Verón e Dí María compondo a linha de meio campo. Os quatro jogadores tiveram grande trabalho no aspecto defensivo, trazendo organização e liberdade para o ataque argentino. A equipe conseguia se defender e ao mesmo tempo potencializar Messi e Higuaín, que marcara o gol da vitória contra a Alemanha nesse dia. Maradona sabia que deveria fazer isso.

Em 1986 quando foi campeão assombrando o mundo com seu desempenho fantástico, o craque tinha uma equipe que, se não era tão brilhante, dava todo suporte necessário para que ele pudesse jogar e definir como bem entendesse. Três zagueiros, linha de cinco no meio (Olarticoechea, Enrique, Batista, Burruchaga e Giusti) com suporte de mais um jogador de ataque compunham um time pragmático que dava a liberdade necessária para a grande estrela do futebol mundial na época brilhar.

Porém, regressando a 2010, Maradona fez tudo que não podia. Mais passional que racional, deixou-se seguir pelo eterno clamor da mídia e dos torcedores do Boca que sempre pediram Tévez na seleção. Jonás, que tinha aplicação defensiva exemplar e que Diego havia garantido antes da Copa que era seu titular absoluto, deixa a equipe para a entrada de Carlitos, que nunca havia sido convincente na seleção. Gutierrez estreia na copa como lateral, decepciona e o que se vê nos jogos seguintes é uma equipe dividida meio a meio. Cinco só defendem, cinco só atacam. O desequilíbrio é notório, apesar das vitórias até as oitavas, a derrota frente a Alemanha que jogava um futebol muito mais coeso era praticamente anunciada. A mesma Alemanha que meses atrás servia de base para uma idéia promissora aplica impiedosos 4 a 0 nas quartas de final, sendo um choque de realidade para quem abdicou das decisões táticas mais racionais para simplesmente empilhar jogadores talentosos.

Em 2010, Maradona cedeu à pressão e Tevez ganhou chance na Copa, mesmo não merecendo.

No Barcelona Messi tem, e quase sempre teve, liberdade para jogar sem grandes obrigações defensivas. Ninguém no mundo se atreve a desgastar um jogador tão talentoso para ganhar um suporte defensivo minimamente superior. O Barcelona, portanto, se organiza de forma a potencializar seu melhor jogador, mesmo quando ele jogava pela ponta. O problema da convocação de Paulo Dybala é ele ser similar a Messi. Pode soar estranho, mas o garoto Bianconero, que é canhoto, talentoso, de bom passe e arremate, também requer uma equipe para extrair o seu melhor. Assim como Messi, ele tem um time onde os jogadores trabalham para dar uma liberdade para que o 10 seja a cereja do bolo. É um segundo atacante, assim como Tévez, sem noção alguma defensiva e, pra piorar, com resistência física baixa, o que impede que ele jogue no seu melhor nível pelas pontas, acompanhando laterais e imprimindo velocidade com grande frequência.

Apesar de não ter uma história tão longa na seleção, também teve rendimento decepcionante, o que dificulta que o tal clamor pela utilização de Paulo seja tão levada em conta. Sampaoli teve sua primeira mostra de evolução com um 4-2-3-1 frente a Itália, aonde a equipe apresentava qualidade para sair jogando (apesar de 2 ou 3 falhas individuais), pressão eficaz no campo adversário (que resultou no segundo gol diante dos italianos) e boa dinâmica tanto defensivamente, quanto ofensivamente. Assim como foi frente aos alemães em março de 2010 há um time defendendo em duas linhas de quatro jogadores e o desempenho foi promissor mesmo sem Messi. Mantendo tal padrão a única possibilidade de adaptar Dybala nessa equipe seria em um time sem centroavante. Modelo de jogo complexo e que Sampaoli pode não ter tempo para trabalhar até a Copa.

Messi e Dybala precisam da mesma coisa: liberdade e suporte. Os dois juntos pode ser um erro.

A vexaminosa goleada frente a Espanha põe em cheque se o mesmo ajuste pode seguir funcionando. Apesar do bom primeiro tempo os quatro gols levados na etapa final desmoralizam e tiram qualquer credibilidade do avanço feito na última data FIFA. Mas reforça a inviabilidade de suportar ter um jogador a mais sem agregar nada sem a bola. Ainda mais tendo em conta a grande possibilidade de repetir o encontro com os espanhóis nas quartas de final. Seja com três zagueiros ou quatro na linha de defesa, o meio campo não suporta mais um jogador assim frente as melhores seleções do mundo.

Entendendo que, Lionel Messi a parte, é uma equipe inferior a Espanha, Alemanha, Brasil, França ou Bélgica, ter três jogadores ausentes (Messi, Dybala e mais um centroavante) de qualquer trabalho defensivo parece suicídio. Com o pouco tempo de trabalho nas seleções, e a dificuldade de organizar um time que suporte jogar de tal maneira, Sampaoli não pode se dar ao luxo de cometer o mesmo erro de Maradona em abdicar de sua decisão mais promissora em prol apenas do talento bruto de um jogador. Apesar de buscar jogadores mais versáteis e aplicados taticamente para o seu banco de reservas, pelo seu imenso talento ainda devemos imaginar que Paulo Dybala pode ser um bom substituto para Lionel Messi. Porém, dificilmente devemos vê-los jogando juntos. Se acontecer, deve ser apenas em casos emergenciais, caso contrário, pode ser um erro de Sampaoli.

Confira o que disse Sampaoli sobre o jovem Paulo Dybala

“Nós pensávamos que Dybala seria um jogador de ponta na seleção. Tínhamos esse desejo. Mas depois com o passar do tempo vimos que ele não conseguiu se encaixar com a posição que joga no clube ou que ele não se adaptou a nossa ideia, que é totalmente diferente”.

“Está sendo difícil para ele se adaptar e isso é claro que afeta a conexão com os companheiros. Não é um problema com ele mesmo, pois é um jogador absoluto, que gera muitos pontos para o seu clube e assim se tornou uma figura do futebol mundial e italiano”.

“O ideal é que Dybala se potencialize com o nosso grupo, pois isso seria muito bom. Mas caso contrário, é difícil. Então temos que avaliar todas as convocações em que ele esteve presente e também esta que está ausente. Nosso trabalho agora é tirar uma conclusão desse cenário”.

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Postado por Osório Lopes Universitário, torcedor da seleção argentina, viciado em poker, Rock and roll e futebol.