A queda do império espanhol
14 de agosto de 2020
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

(Foto por MANU FERNANDEZ/POOL/AFP via Getty Images)

O futebol muda. Muito. E muito rápido. No principal esporte do planeta, as coisas acontecem numa velocidade maior do que nos outros esportes. Táticas, filosofia de jogo, panorama dos clubes ao redor do mundo, finanças, características dos jogadores, desejo dos torcedores, e por aí vai. As mudanças se devem ao percurso natural do jogo: a evolução. No entanto, alguns clubes não percebem isso, ou ao menos não acompanham como deveriam.

A década de 2010 no futebol europeu teve como protagonista os dois clubes que formam o clássico mais midiático do mundo. Da temporada de 2010-11 até aqui, foram disputadas nove Ligas dos Campeões da Europa, com exceção da atual. Apenas três não foram vencidas por Barcelona ou Real Madrid. 4 títulos para os merengues, dois para os culés, além de triunfos de Chelsea, Bayern de Munique e Liverpool.

No início desse período, houve uma revolução no futebol: o tiki-taka de Pep Guardiola, que encantou o mundo nos primeiros anos na Catalunha, foi se aperfeiçoando, se adaptando e recebendo novos ingredientes ao redor da Europa. Espanha e Alemanha venceram duas Copas do Mundo com essa essência. E, ao redor do planeta, os times começaram a procurar um estilo mais próximo do “guardiolismo”, ou do “bielsismo”. Rendeu frutos. Vieram times encantadores e técnicos competentes apareceram mundo afora.

Após os títulos de Chelsea e Bayern de Munique nos anos de 2012 e 2013, viria um momento histórico na Liga dos Campeões: em Lisboa, os rivais de Madrid, Real e Atlético, se enfrentaram numa final de Champions. Os colchoneros viram a taça escapar entre os dedos com o gol de Ramos nos acréscimos. Triunfo de Ancelotti sobre Simeone.

Um ano depois, a conquista seria de um dos maiores trios de ataque da história do futebol. Em Berlim, o Barcelona viria a conquistar o seu quinto título europeu com show de Neymar, Suárez e Messi naquela temporada. A vitória sobre uma competente Juventus encantou o mundo com mais uma grande atuação dos três monstruosos jogadores.

Foi então que uma peça fundamental entrou nesse jogo: Zinédine Zidane. O craque francês, um dos melhores jogadores europeus de todos os tempos, assumiu o comando do Real Madrid. Com ele, viriam anos gloriosos, com um tricampeonato europeu, e um time galático de jogadores que dominou a Europa. Não era um futebol que encantava tanta gente como o do Barcelona de Pep, mas era sim uma equipe que empolgava por sua competitividade e pela qualidade técnica dos seus jogadores.
O reinado de Zidane terminou na temporada 2017-18, quando o francês deixou o Real Madrid em busca de um ano sabático. Com ele, Cristiano Ronaldo também saiu para a Juventus, e uma onda de ideias que se espalhava na Europa já há algum tempo, eclodiu na temporada 18-19.

(Foto por Juan Manuel Serrano Arce/Getty Images)

Ainda que o reinado de Zidane fosse sólido e consistente, outros times começavam a desabrochar ao redor do continente europeu. O Bayern abriu mão do supercampeão Jupp Heynckes em busca de novidades em seu jogo: após Guardiola, viria Ancelotti, Kovac, e agora Flick. O Bétis, do hoje humilhado Setién, venceu o Barcelona por 4 a 3 no Camp Nou e também derrotou o Real Madrid no Santiago Bernabéu, com uma equipe que chamou atenção em toda a Europa. Maurizio Sarri, também mal visto hoje, não tirou o título da Juventus por míseros 4 pontos, comandando o modesto Napoli.

Aquele mesmo Guardiola viria, junto a Jürgen Klopp, revolucionar o futebol na Inglaterra. A Premier League viu Mourinho ser duramente criticado, e Solskjaer, Lampard e Arteta assumiram United, Chelsea e Arsenal. O Frankfurt deu show na Alemanha, e chegou numa semifinal de Europa League. O Wolverhampton empolga muitos no futebol inglês. O Ajax e o Monaco atingiram semifinais de Champions League. Impossível não citar a sensação Atalanta, ou o agora semifinalista de Liga dos Campeões, Leipzig.

Enquanto isso, os gigantes espanhóis sofreram um duro golpe. O Barcelona foi se deteriorando, pouco a pouco, perdendo jogadores (como Neymar), vendo alguns envelhecerem (como Xavi e Iniesta) e outros caírem de nível de forma abrupta (como Suárez). Já o Real Madrid aposta no futuro, trazendo nomes como Vinícius Jr, Rodrygo, Valverde, Mendy, Militão e Jovic. Ainda assim, não se encontra com a volta de Zidane, e foi engolido pelo Manchester City nas oitavas de final da atual Champions.

A visível queda de um “império espanhol” no futebol europeu traz à tona discussões acerca da qualidade do futebol praticado pelos dois times. A La Liga dessa temporada premiou a competitividade, mas não o coletivo. O Real Madrid passou longe da qualidade do tricampeonato europeu. O Barcelona foi bisonho, e mereceu o vice.

Mas a queda é visível. Cada um à sua maneira, os dois gigantes foram regredindo após anos vitoriosos, e não souberam se manter competitivos. A vitória sólida dos Citizens diante do Madrid e o chocolate bávaro do Bayern sobre o Barcelona escancaram um fato: hoje, os espanhóis estão muito abaixo dos demais gigantes europeus.

As explicações são muitas. As falhas também. Mas a queda espanhola dá destaque a um momento fantástico no futebol da Europa. Surgiram novos nomes, novos times, novos técnicos. E a Liga dos Campeões só subiu de nível. São tempos novos no melhor futebol do mundo.

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Postado por Pedro Guevara