A pequena gigante de Orlando e do Brasil – Camilinha
23 de Maio de 2017
Categoria: Entrevistas

Divulgação/RV Sports

Em sua segunda passagem pelo futebol dos Estados Unidos, Camilinha, de apenas 22 anos, já tem currículo de gente grande. Apesar do nome no diminutivo, a jogadora sempre foi uma gigante dentro de campo, ou de quadras, afinal, foi lá que tudo começou. Habilidosa, a garota deu os primeiros dribles no pai e no irmão. Dali para frente, nunca mais quis se afastar da bola. Pediu para jogar com meninos na escola, começou a disputar seus primeiros campeonatos com oito anos e decolou. Destacando-se no futsal, em torneios microrregionais e posteriormente em clubes, Camilinha resolveu deixar a quadra para trás e calçou chuteiras de trava para defender o Kindermann, também catarinense.

“Meu início de carreira não foi fácil, mas também não tenho do que reclamar. Graças a Deus, minha família sempre me apoiou e participou de todas as decisões, assim conduzimos até hoje”

No time de Caçador, oeste de Santa Catarina, vieram suas primeiras oportunidades no sub-20. Como tudo em sua carreira, a chance na seleção principal veio logo depois, em 2014, ano em que defendeu o Ferroviária e rumou ao Houston, dos Estados Unidos, para sua primeira experiência fora do Brasil. Por lá, começou a entender outros modos de jogar futebol.

“As brasileiras destacam-se pelas suas características técnicas e o famoso “gingado” brasileiro. Mas quando jogamos fora do Brasil, temos que nos adaptar às aplicações táticas exigidas no País, e dentro de campo desempenhar um mix de todas as características. O futebol é lindo por isso, dentro de campo tudo pode acontecer e todos se entendem, independente da nacionalidade”

A seleção já é rotina para a jovem jogadora. (Divulgação/RV Sports)

Além da realidade vivenciada no futebol do exterior, as inúmeras partidas pela seleção também dão outra visão para a jogadora. Depois de participar das Olimpíadas defendendo as cores do Brasil, a meio campista recebeu a oportunidade de atuar pelo Corinthians/Audax, um dos grandes clubes do cenário nacional.

“O trabalho lá é correto. A parceria veio a agregar bastante para o Corinthians, pois a estrutura do Audax é muito boa, em comparação a alguns clubes no Brasil. Valorizo bastante o trabalho realizado pelo Corinthians/Audax, pois eles estão engajados no desenvolvimento do futebol feminino”

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O alvinegro paulista, no entanto, é exceção entre as gigantes equipes do futebol masculino. A grande maioria delas nem sequer tem um time feminino. Pensando em resolver essa problemática, a Conmebol aprovou uma medida que obriga os clubes a terem uma equipe de mulheres se quiserem participar da Copa Libertadores.

“Uma pena que tenha sido uma obrigatoriedade. Mas já que precisou ser assim, vamos tirar proveito e gerar novas oportunidades para novas atletas no Brasil. O esporte precisa de investimento e aos poucos tenho percebido a evolução em termos de organização, acessibilidade e competitividade”

Passagem no Corinthians/Audax foi bastante satisfatória para Camilinha. (Divulgação/RV Sports)

Apesar das boas experiências no Brasil, como no citado Corinthians/Audax, Camilinha acredita que o problema é ainda não aceitarmos que o futebol não é só para homens, como em outros países do mundo. Exemplos dessa rejeição não faltam no Brasil.

“A diferença é que muitos países pelo mundo entendem que futebol é para mulher também. Já no Brasil isso não acontece, pelo contrário, vale lembrar o preconceito sofrido pela Amandinha, logo após ser eleita a melhor do mundo no futsal feminino. Apesar de sermos o País do Futebol, isto está longe de ser realidade para o futebol feminino”

A boa campanha no time paulista rendeu belos frutos a jogador. Contratada pelo Orlando Pride, nova equipe de futebol feminino dos Estados Unidos, Camilinha agora enfrenta seu segundo desafio em terras americanas e uma brasileira tem importante papel em sua adaptação.

“Minha passagem em Houston foi muito importante no meu processo de amadurecimento. Em relação a estrutura, não tem muita diferença, porém, aqui em Orlando a visibilidade é muito grande, acredito que pela grandiosidade do Projeto. A Mônica foi e é muito importante. Me ajudou demais logo quando cheguei, e por isso, consegui me adaptar rápido a tudo aqui. Tem sido muito especial cada momento em Orlando”

Mas, para sorte de Mônica, Camilinha e, acima de tudo, para os torcedores do Orlando, mais uma brasileira desembarcou na “terra do Mickey”. Trata-se de Marta, a melhor jogadora da história da modalidade

“Ela realmente é diferente! Aqui em Orlando ela tem sido uma grande conselheira. É impressionante o quanto tenho aprendido com ela. Eu sempre a admirei e tê-la diariamente me passando ensinamentos, é algo realmente muito especial”

Com Marta, o aprendizado é diário para a jogadora. (Divulgação/RV Sports)

Em uma liga de altíssimo nível, Camilinha vai na contramão de um papo bastante discutido nos últimos tempos. Parte daqueles que não acompanham o futebol feminino culpam alguns fatores alteráveis na “falta de atrativo” das partidas. Para eles, seria mais proveitoso diminuir a dimensão do campo, peso da bola e as traves por exemplo. A jogadora discorda.

“Tenho lido algumas coisas sobre o assunto, porém, eu acredito que não tenha que mudar. O nível do futebol feminino vem evoluindo e isso não tem influenciado negativamente na competitividade do jogo”

Jovem, mas experiente, Camilinha é, sem dúvida nenhuma, um dos grandes nomes do nosso futebol na atualidade e, acima disso, grande expoente do futuro de nossa seleção. Focada e usufruindo cada momento com Marta, a meia busca repetir em terras americanas o sucesso que tem feito no Brasil desde seu início, lá atrás, em meio aos meninos de sua escola.

“Atualmente vivo um momento tão especial da minha carreira, um dos melhores, então, só tenho a agradecer todos que me ajudam aqui em Orlando e ao 4-3-3 pelo espaço. Forte abraço a todos!”

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.