A internet e a impunidade virtual: o racismo como forma de humor
25 de novembro de 2019

 

Depois do imenso furor (muito bem justificado) dos títulos do Flamengo, é hora de voltar com a série de textos sobre o negro no nosso futebol. Este é o terceiro post sobre o tema. Vocês podem ler os outros textos clicando nos links abaixo:

Primeiro texto

Segundo texto

“Haters são um conjunto de pessoas que manifestam ódio através de meio eletrônico. O limite da liberdade de expressão online está na prática de um crime. E o meio digital, além de potencializar o alcance, facilita o anonimato.”

Paulo Marco Ferreira Lima – Procurador do Ministério Público

A revolução digital, com toda certeza, foi um dos grandes avanços da humanidade neste século. Se desenvolveu uma comunicação muito mais veloz, praticamente instantânea. A rapidez e a praticidade contribuem para o mercado capitalista e geram novos segmentos do zero, a sociedade de 2019, sem seus dispositivos eletrônicos, provavelmente colapsaria. A internet, o maior e mais difundido legado desse processo, trás consigo uma ferramenta que, indiretamente, democratiza o acesso e a emissão de opinião enquanto pessoa individual: as redes sociais. Nelas, há a possibilidade de ser criar um “eu virtual”, onde é possível encontrar amigos da vida real, fazer novos contatos, arrumar empregos, são infinitos cenários de uso.

Essa liberdade fictícia tende a fazer com que se crie uma bolha social envolta dos usuários dessas redes, que, se sentindo em uma posição de conforto por estar em uma suposta maioria opinativa, emite posições por vezes preconceituosas, que costumam ser legitimadas por pessoas que pensam como o próprio interlocutor da mensagem. Gustave Le Bon e Freud explicam, com a teoria da Psicologia das Massas, no livro “Psicologia das massas e análise do eu”, página 20:

“A massa é impulsiva, volúvel e excitável. É guiada quase exclusivamente pelo inconsciente. Os impulsos a que obedece podem ser, conforme circunstâncias, nobres ou cruéis, heroicos ou covardes, mas, de todo modo, são tão imperiosos que nenhum interesse pessoal, nem mesmo o da autopreservação, se faz valer.”

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O comportamento de manada trás a tona ações e discursos que em condições de vida real não seriam reproduzidos (normalmente), na internet as pessoas falam o que pensam e ser racista se tornou, para muitos, apenas uma “opinião diferente” em prol de uma suposta liberdade de expressão. O álibi para isso se faz presente na impunidade inerente a perfis fakes e contas com IP estrangeiro/fantasma. Segundo o Safernet Brasil, (uma organização que age em conjunto com o Ministério Público Brasileiro, atuando com o encaminhamento de denúncias de crimes virtuais contra os direitos humanos) o racismo ocupa o topo das denúncias na internet (https://new.safernet.org.br/content/racismo).

O futebol não fica de fora, o relatório anual da discriminação racial no futebol de 2017 mostra que, dentre os 43 casos de racismo contabilizados naquele ano, 11 foram na internet. Dentre esses 11, apenas 2 tiveram um boletim de ocorrência feito, em outras 9 situações não houve registro de queixa legal, portanto, o agressor não foi sequer notificado do ato. Um problema complicado.

Isso se tornou tão alarmante, que as maiores redes sociais como Twitter e Facebook estão automatizando algoritmos mais avançados que possam detectar discursos de ódio e intolerância em postagens dos seus usuários. Leia mais aqui.

  • O RACISMO COMO FORMA DE HUMOR

O humor também é frequentemente usado como uma ferramenta de disseminação do racismo no esporte, negros são relacionados com estereótipos em charges que costumam aumentar exageradamente os lábios e alargar o nariz dos desenhos, além de dar ao cabelo crespo um aspecto sujo e, ocasionalmente, mostra pretos como bandidos. Essa charge estupida feita pela FluSócio para divulgar o clássico Fla x Flu em 2017 retrata muito bem os pontos que expus acima:

Repugnante

Outro caso que ilustra com exatidão a minha tese aconteceu com a Serena Willians, uma das maiores tenistas de todos os tempos, a foto pode ser vista no topo deste texto.

O que acontece nessas situações pode ser caracterizado como “Racismo Recreativo”, um conceito inventado pelo brasileiro Adilson Moreira, escritor, doutor por Harvard, e colunista da CartaCapital, que explica mais sobre em uma entrevista dada a própria CartaCapital, em dezembro de 2018:

“O conceito de racismo recreativo designa uma política cultural que utiliza o humor para expressar hostilidade em relação a minorias raciais. O humor racista opera como um mecanismo cultural que propaga o racismo, mas que ao mesmo tempo permite que pessoas brancas possam manter uma imagem positiva de si mesmas. Elas conseguem então propagar a ideia de que o racismo não tem relevância social. Não podemos esquecer que o humor é uma forma de discurso que expressa valores sociais presentes em uma dada sociedade.”

Como sociedade moderna e cada vez mais imersa na automação, não cabe a nós marginalizar as plataformas usadas por racistas e sim, combater o preconceito, conscientizar e punir os agressores de uma maneira menos branda, desenvolvendo técnicas que reduzam a chance do anonimato virtual.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.