A inserção do negro no esporte: uma necessidade do capitalismo
20 de novembro de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

 

Este é o mês da consciência negra e o Blog 4-3-3 resolveu fazer uma série de posts acerca do negro no futebol brasileiro, baseado no meu TCC do curso Pós Graduação em Comunicação & Jornalismo Digital, ministrado pela Universidade Castelo Branco – RJ, irei adaptar os capítulos e fragmentar o trabalho de uma maneira explicativa para esta plataforma. Espero que gostem!

A origem do futebol é branca e isso não é segredo pra ninguém. No Brasil, os grandes clubes ostentavam sedes sociais chiques e caras em áreas nobres das grandes capitais tupiniquins, o esporte bretão era visto como um hobby de pessoas privilegiadas, visto que, na época (primeiras décadas do século passado), era vetada a profissionalização do segmento. Ou seja, quem conseguia jogar futebol, ou não precisaria trabalhar, ou acumularia duas ocupações simultâneas.

Como se isso já não fosse o suficiente para segregar os menos abastados, alguns clubes e ligas proibiam deliberadamente a entrada de jogadores negros em suas agremiações. Em alguns casos, jogadores “mulatos” procuravam passar desapercebidos nos times, alisando os cabelos ou, até mesmo, passando pó de arroz pela pele, de modo que a textura ficasse mais clara para que pudessem jogar. Em alguns anos, clubes como Vasco, Ponte Preta e Bangu foram, gradativamente, abrindo suas portas para atletas pretos. Hoje em dia, essas agremiações são vistas como revolucionárias e, claro, gozam de uma imagem progressista diante de uma precursão tão importante para o esporte. Mas, esta não foi uma atitude de pura justiça social e resistência.

O Brasil até hoje é o país que abriga mais negros fora do continente africano, naquela época não era tão diferente. Possuindo uma “colônia africana” (difícil precisar a nacionalidade exata, por motivos de apagamento histórico) bastante significativa, o país tinha no homem preto um ativo valioso para a geração de capital. Com a escravidão se encerrando oficialmente apenas alguns anos antes e sem um projeto de integração na sociedade civil, o negro se viu obrigado a migrar para áreas inóspitas ou bastante periféricas, tendo como opção de vida o trabalho braçal/fabril, já que o país começava vagarosamente a sua industrialização. Diante disso, toda a popularização do futebol acontece em paralelo, movendo o interesse de da sociedade e, consequentemente, dos negros, que começaram a praticar o desporto em partidas informais e/ou em clubes menores, que não competiam em grandes torneios. Vasco, Bangu, Ponte Preta e alguns outros abriram as portas para essa nova oferta que se prontificava, o que com certeza é um marco que deve ser ressaltado, a coragem destas instituições. A partir destes movimentos, inicia-se uma pressão gradativa sobre as federações para que caíssem as proibições que segregavam o povo negro no futebol. Este processo, sem sombra de dúvidas, se faria inevitável diante da profissionalização e a evolução do capitalismo que viria posteriormente, afinal, o homem negro também era um ativo.

Mudada as diretrizes, reservou-se aos clubes a escolha sobre a contratação de um jogador “de cor” ou não. A maior prova de que a inserção do preto no futebol foi pautada pela necessidade do capital vem no que se desenrolou após a queda das barreiras normativas. Os negros eram aceitos dentro das quatro linhas, fora delas o buraco sempre foi mais embaixo, como explica Mario Filho em trecho do livro “O Negro no Futebol Brasileiro”:

“(…) O preto jogava, ajudava o Fluminense a vencer, acabado o jogo, mudava de roupa, ia embora. Não havia perigo do preto frequentar a sede, aparecer numa soirée, num baile de gala do Fluminense. O jogador profissional, branco, mulato ou preto, era um empregado do clube. O clube pagava, toma lá, dá cá. O jogador ficava no seu lugar, mais no seu lugar do que nunca.

Naturalmente, entre o preto e o branco, o Fluminense tinha de preferir o branco. Se fosse possível um time só de brancos, melhor. E talvez fosse possível. Não faltava bom jogador branco. Se não fosse possível um time só de branco, botava-se um preto, dois, nada de abusar.”

Podemos vislumbrar desta ótica em um aspecto macro também, se considerarmos que em 1921 (época onde ainda se mantinham proibições raciais em alguns lugares), quando o Brasil se preparava para a disputa da Copa América daquele ano na Argentina, o então presidente Epitácio Pessoa ordenou o que foi tido como um “decreto de brancura”, solicitando que apenas jogadores brancos fossem representar o país naquele torneio, por “prestígio pátrio”, como endossa esta matéria da Época, de junho deste ano: https://epoca.globo.com/copa-america-do-racismo-ao-estrelato-23740566.

Parte da matéria.

Outro grande exemplo da pouca aceitação do negro pode ser visto quase 40 anos depois, em 1958. Na ocasião, João Saldanha, então técnico do Botafogo, procurava um jogador para a defesa e viu em Chicão, do Bonsucesso, uma ótima opção. Paulo Azeredo, diretor do Botafogo na época, teve certas ponderações para com a aquisição do atleta, como conta o próprio João Saldanha no seu livro, “Subterrâneos do Futebol”:

“Não o conheciam ou não tinham reparado nele. Assim, só se tinham ao nome: Chicão. Paulo Azeredo falou ponderadamente:

– Não é por nada não, João. Mas nosso uniforme é preto e branco… Está ficando mais preto do que branco… Vamos ver se clareamos um pouco. Você compreende, não é? O Botafogo tem certas tradições… esse nome Chicão… não sei…

Como estavam se referindo ao nome, percebi que não conheciam o jogador e engrenei rápido:

– O Chicão joga bem. Dá duro. É novo ainda, mas serve. O senhor não se lembra? É aquele lourão que vai e vem ali na defesa do Bonsucesso.

O negócio mudou de feição, e disseram:

– Bem, se não é muito caro, vamos contratar o tal Chicão.

Fiz tudo rapidamente e na maior moita possível. Chicão só foi à sede do clube para assinar o contrato. Peguei sua assinatura, Francisco Amâncio dos Santos, e fui lá dentro para obter a do clube. Perguntaram onde ele estava e respondi que tinha urgência em começar o treino e que o “cobra” já estava mudando de roupa.

– Não podemos perder tempo –, concluí.

Assinaram o contrato e eu saí a jato. Depois foram conhecer o Chicão, que já estava no campo treinando. A reação foi de gozação. Me chamaram e se limitaram a dizer:

– Este “louro” que você arrumou parece que não sai da praia. Está muito queimado.

Acharam graça no negócio. Mas estou certo de que se soubessem da pinta do Chicão ele não seria contratado.”

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O livro referido acima.

Não houve Pelé porque foram bonzinhos e queriam uma vida melhor para o povo preto, inclusão no mercado de trabalho e prosperidade para um padrão de vida que ainda retinha cicatrizes recentes da escravidão. Não nasceu Ronaldinho porque lá atrás alguém fez justiça social e o Neymar só é profissional hoje, porque décadas antes alguns brancos entenderam um ativo em potencial ascensão e foram obrigados a tolerar que pessoas “de cor” também tocassem na bola.

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.