A importância cada vez maior da preparação física no futebol – Guilherme Rondon
9 de julho de 2017
Categoria: Entrevistas

 

Embora difícil, desistir de um sonho nem sempre é o fim do mundo, ainda mais quando, de imediato, nos propomos novos objetivos. Com Guilherme Rondon foi assim. Lateral direito nas categorias de base, o gaúcho viu que o futuro dentro de campo não lhe reservava grande coisa. Apesar de reconhecer sua falta de talento com a bola nos pés, nunca passou pela sua cabeça se afastar do que mais ama: o futebol. A partir daí, deixou bem claro o que queria.

“Sempre me dei bem com os estudos e amei o esporte. Decidi que ia parar e estudar o máximo para ficar no meio. Graças a Deus aconteceu com uma velocidade esplêndida. Já com 18 anos eu entrei na faculdade e tinha a certeza que seria preparador físico de futebol. Assim, os anos foram se passando, as coisas deram certo e sigo a profissão que planejei seguir há 16 anos”

Junto com estudos teóricos, a prática se mostrou importante desde o começo para o profissional. Assim que a faculdade se iniciou, Guilherme teve a chance de ser professor de escolinha, em Alvorada, cidade próxima de Porto Alegre. Mesmo com as experiências colocando a mão na massa desde cedo, ele sabe que o estudo dentro de sala de aula, ou até em casa, com o advento da internet, não pode parar.

“Qualquer profissional que realmente queira ser de ponta e trabalhar com futebol de alto nível precisa estudar todos os dias. Atualmente, há muitos cursos de especialização, não somente da preparação física especificamente, mas em treinamentos desportivo, fisiologia humana. Todas essas agregam a função. O Brasil tem muitos cursos, com o poder da internet tudo melhorou. Com um clique você adquire conhecimento”

Na Coréia por duas temporadas, Guilherme retornou cheio de novas experiências para trabalhar no Sub-23 do Internacional.

 

Para entender o tamanho da importância do trabalho do preparador físico, basta assistir uma partida de futebol qualquer. Do Brasil a Europa, chama atenção a intensidade cada vez maior dos 90 minutos de uma partida. Equipes como Leicester e Atlético de Madrid se destacam muito pelo esquema tático compacto e de luta, mas sem a parte física seria improvável que os atletas desempenhassem tudo que se cobra.

“Essa competitividade tática e igualdade de condição qualificam cada vez mais o trabalho do preparador físico. Quanto mais passa o tempo e mais se estuda o futebol, mais dificuldade os nossos atletas vão ter. Isso qualifica muito a minha função. Hoje a gente tem conhecimento de números maravilhosos de atletas de ponta, como Cristiano Ronaldo, Messi, onde o rendimento é fora do comum. Aos poucos conseguimos trazer isso para nossa realidade, seja categoria de base ou profissional. Quilometragem percorrida, velocidade alcançada. Isso facilita na hora de mostrar para os jogadores o quanto é importante se qualificar cada vez mais para, com o detalhe individual, quebrar essa igualdade tática e tão competitiva”

Apesar do grande equilíbrio e igualdade, tendência em todas as partes do mundo, o Brasil tem uma característica singular. Hoje trabalhando com o Sub-23 do Internacional, Guilherme já passou por outros estados do país. As mudanças de região acarretam em grandes alterações climáticas, obrigando-o a trabalhar de forma diferente.

“Trabalhei em Goiás, um local seco e quente. Logo depois fui para Brasília, aonde é mais quente. Depois disso fui ao Maranhão, de temperatura ainda mais elevada. Com isso, eu fui me capacitando a tipos diferentes de preparação. Algumas atividades que se realizam no Sul não se podem realizar com a mesma intensidade nesses outros estados. Agora, chegando a qualquer time, eu não tenha tanta dificuldade de adaptação a estilo de trabalho do estado. Essas chances fora da minha região me ajudaram muito”

Guilherme nos tempos de Boa Esporte, em Minas Gerais. (Foto: Treinamento no Futebol)

 

Além de lidar com diferentes temperaturas e, consequentemente, com modos distintos de preparar seus jogadores, o profissional ainda encontrou outra dificuldade no Brasil: o pensamento dos atletas. As duas temporadas em que trabalhou na Coréia do Sul foram suficientes para perceber o abismo de comportamento de lá para cá. As coisas, no entanto, têm mudado.

“A preparação física é levada a sério de verdade na Ásia. Não tive dificuldade alguma de implementar e impor meu trabalho. A aceitação dos jogadores com a exigência física é muito boa, completamente diferente do Brasil. Hoje está mudando, os atletas estão cada vez mais conscientes. Antigamente era difícil quebrar esse paradigma. Não é mais assim. Se o atleta brasileiro tomar realmente a consciência da importância de trabalhar como um todo, ganhamos todas as Copas, todas as disputas de base. Nosso país é um celeiro de craques, só precisamos arrumar pequenos detalhes no treinamento de um atleta de alto rendimento”

Quando se fala em futebol brasileiro, é impossível não pensar na Seleção, reconhecida nos quatro cantos do mundo. Apesar de ainda ter como objetivo trabalhar com o elenco principal do time canarinho, Guilherme já realizou o sonho de auxiliar no crescimento da garoto do Sub-15 nacional.

“Em junho deste ano eu fui presenteado com a oportunidade de ajudar no desenvolvimento e na captação dos atletas da Seleção Brasileira Sub-15. É uma honra representar o nosso país e ser lembrado perante milhares de preparadores do Brasil. Foi um período muito importante, onde tive a possibilidade de aprender muito com profissionais de vários clubes que estavam lá presentes. Espero que novas convocações venham a acontecer, já que a CBF segue esse padrão de rodízios. Estou sempre a disposição, não importante a categoria”

Entre tantos profissionais da área, Guilherme foi convocado para trabalhar com os garotos da Seleção Sub-15 na preparação para o Sul-Americano da categoria.

 

Ao falar de garotos e relacionar com a área de Guilherme, uma problemática vem a mente de quem gosta e acompanha futebol. A cobrança física para cima dos jovens tem sido tão grande que, aos poucos, nomes leves ficam pesados e o drible perde espaço para a massa muscular. Para o profissional, essa tendência precisa ser estudada cada vez mais, pela complexidade e necessidade de haverem jogadores com as características tão marcantes na história do esporte.

“Está cada vez mais escasso este tipo de jogador, já que são transformados em jogadores mais fortes e potentes. Mas isso tem um motivo. O futebol não aumentou só em volume, mas em intensidade. Não é só percorrer mais quilômetros, é percorrer com intensidade altíssima. Se não estruturar o atleta para resistir a isso, ele não consegue ter sequência. Por isso o futebol precisa ser cada vez mais estudado, para chegar a um denominador comum, sem transformar jogadores em robôs”

Exposta toda a importância de sua profissão, Guilherme Rondon não se dá por satisfeito em desempenhá-la da melhor maneira possível. Como uma espécie de “serviço” para o seu país, o preparador quer auxiliar na formação de futuros companheiros no meio. Pensando nisso, o gaúcho de 34 anos começou o “Treinamento no Futebol”, projeto que dá suporte aqueles que ainda estão começando sua caminhada de estudos.

“Quando iniciei, eu tive muita dificuldade de diálogos, trocas e informações. Era um menino, não sabia como adentrar no futebol, com quem conversar e o que fazer. Por isso foi muito difícil. Dentro dessa linha de dificuldades as inúmeras dúvidas, eu fui adquirindo conhecimento e pensei que eu precisava ajudar essas pessoas. Hoje diversos adolescentes ou ex-atletas estão tendo o mesmo sonho que eu tive. É bem verdade que, com a internet, a facilidade é bem maior. Mas esse conteúdo não é compilado. Muitos tem informações valiosas mas não sabem como proceder. Nosso projeto é exatamente para isso. Mostrar o que é o preparador físico, sua função e importância no clube, como proceder, conhecimentos técnicos, práticos, teóricos, psicológicos. Embora pareça simples, o futebol é um esporte muito complexo”

Guilherme Rondon é um dos inúmeros nomes que transformam o futebol dia após dia, mesmo fora das quatro linhas. Além disso, não se dá por satisfeito em desempenhar seu trabalho da melhor maneira possível. Pensa no futuro da área e de seus companheiros, quer o melhor, sobretudo para o futebol nacional. Com toda a certeza, para sermos novamente reconhecidos como o país do esporte bretão, precisamos potencializar a parte física de nossos atletas. Se depender de Guilherme, em breve estaremos no topo também neste quesito.

“Agradeço demais a participação. Estou sempre a disposição para que consigamos discutir cada vez mais futebol, adentrando e trabalhando em um âmbito mais profundo de conhecimento. Incentivo todas as pessoas, estudantes e adolescentes que ainda não iniciaram a Universidade, que a comecem com objetivo claro se forem trabalhar no futebol, não importa a função. Se for preparador físico melhor. Espero ajudar essas pessoas de alguma maneira. Porque que os que leem o Blog, baixam os ebooks do Treinamento de Futebol e assistem meu vídeo com certeza podem, no futuro, qualificar e melhorar o futebol brasileiro. Esse é meu maior objetivo, qualificar cada vez mais nosso país, para voltarmos a ser a maior potência do futebol mundial”

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.