A história será injusta com Valverde
19 de janeiro de 2020
Categoria: 4-3-3

(Foto por Alex Caparros/Getty Images)

O Barcelona não é um time comum. Seu lema já diz isso, mas ele faz questão de deixar claro que não é apenas um slogan marqueteiro. A decisão de mandar Ernesto Valverde embora foi acertada. Era muito difícil mantê-lo ali. A sensação era que não havia mais por onde melhorar e que a situação pioraria dali pra frente.

A mudança veio em bom momento? Podemos dizer que foi no momento ideal. Janela de inverno, muito utilizada para corrigir os rumos da  temporada que não está indo bem.

A temporada do time blaugrana é uma tragédia? Não. Mas a “era Valverde” ficou com a cara de algo que poderia ser e não foi. Não foi por falta de resultados: em duas temporadas e meia que Ernesto esteve no comando foram conquistados quatro títulos.

Venceu duas vezes a La Liga – em uma delas tendo sua primeira derrota apenas na 37° rodada, utilizando o time reserva. E ainda conquistou uma Copa do Rei e uma Supercopa da Espanha.

Com média de um titulo a cada sete meses, seus números não davam motivo para sua demissão. Mas o grande problema estava no futebol, no ponto em que difere o Barcelona dos outros times. Não basta só ganhar, você tem que mostrar mais. A torcida quer mais, ir ao Camp Nou para assistir o Barcelona jogar é equivalente a ir assistir um espetáculo cênico ou circense. É o seu “més” do més que un club.

Com Valverde, faltou o “més” (Foto por LLUIS GENE / AFP) (Photo by LLUIS GENE/AFP via Getty Images)

Mas Valverde adotava um futebol mais pragmático, cadenciado e que muitas vezes fazia apenas o necessário e cozinhava o jogo até seu fim, porque em suas mãos ele tinha um elenco que não aguentava jogar num ritmo acima. O vestiário nunca se sentiu desconfortável com Valverde, e o balneário catalão é muito mais poderoso do os outros. Suas palavras tem muito mais peso.

Algo comum quando você tem Messi, Piqué, Búsquets, Jordi Alba e Suárez como senadores do elenco. Mas o problema dos senadores é que todos já tem mais de 30 anos. Como formam a espinha dorsal do time, não dá pra coloca-los para correr os 90 minutos pressionando o adversário a todo momento, o perigo de lesões é imenso.

Valverde merece muito reconhecimento e respeito por conseguir fazer um time que não conseguiu se renovar continuar obtendo títulos e com um estilo de jogo onde seus senadores não se matavam em campo, mas também trabalhava muito com a posse de bola.

Outro ponto que merece aplausos de Ernesto era seu talento para gerenciar crises do elenco. E não foram poucas. Seu antecessor José Enrique encarou muitas dificuldades em lidar com alguns incêndios no vestiário – principalmente com Neymar – e Valverde se mostrou muito talentoso em resolver os problemas.

Mas Valverde não é paneleiro. Ele deu azar de ser contemporâneo de uma das piores safras da La Masia nos últimos tempos, e também por gastar mais de 300 milhões de euros com Coutinho e Dembélé e nenhum dos dois conseguiram entregar um terço do Neymar entregava ao time.

Um time com Messi e Ter Stegen lhe dá muita tranquilidade tanto ofensivamente quanto defensivamente – mesmo com Messi não sendo ativo na marcação durante o jogo todo. Mas apesar dos ótimos resultados, o desempenho deteriorava tornando alguns jogos um sacrilégio pra vencer. Com isso minando o psicológico, o Barcelona falhou em jogos eliminatórios que tinha vantagem – as quatro derrotas que mais pesaram para derrubar Valverde (Roma, Liverpool. Valência e Atlético de  Madrid).

Valverde deixa o Barcelona com a estigma de um fracassado, um treinador que no futuro será destacado como alguém que desperdiçou dois anos de Lionel Messi voando, que contratou mal e foi inflexível muitas vezes em sua escalação e esquema tático. Mas eu vejo Valverde como um treinador que foi engolido pelo tamanho do Barcelona e sua pressão. Em muitos momentos era claro que ele tinha noção que as coisas não estavam boas mas diferentemente do Real Madrid que – à duras penas conseguiu tirar “uma temporada sabática” pra tentar dar uma arejada em um elenco que já chegou ao seu teto, Barcelona não era o time tricampeão europeu consecutivo e sua torcida e elenco já estavam fartos de vencer a La Liga.

Valverde com todos seus defeitos e pecados, tomou o tiro pelo elenco, deu a cara a tapa e pagará o preço dentro da história. Mas é injusta essa estigma que ficará de um homem que não teve suas melhores escolhas como treinador, mas foi gigante enfrentando os inúmeros problemas que passou.

 

Postado por Caíque Andrade Técnico em química e agora estudante de jornalismo, sempre amei escrever e sempre amei futebol.