A falta de grandes lideranças e o escasso estímulo à denúncia
5 de dezembro de 2019
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Este é o sétimo texto da nossa série que retrata todo o panorama do racismo dentro do futebol brasileiro e a história do negro no esporte bretão nacional. Neste trecho, falaremos sobre o baixo número de jogadores e profissionais do futebol que se engajam na causa do movimento e da cultura do deixa pra lá, o desincentivo a denúncia, um dos principais fatores que perpetuam a impunidade dos atos preconceituosos que ocorrem no esporte. Os textos anteriores podem ser lidos abaixo, boa leitura!

Primeiro texto
Segundo texto
Terceiro texto
Quarto texto
Quinto texto
Sexto texto

Com esses grandes números de casos de racismo pelo futebol brasileiro, não seria difícil presumir que já houvesse algum tipo de resistência minimamente organizada e postada dentro do esporte, mas, não é o que acontece. Mesmo com o alto número de pretos que sofrem e lidam com o preconceito dentro do seu ambiente de trabalho, não existe um movimento de jogadores negros ou qualquer tipo de liderança que tenha a imagem de mártir condutor da causa.

Infelizmente, ainda são poucos os atletas que se posicionam de maneira firme em casos como esses tratados aqui. Se reduzirmos o recorte para negros e brasileiros, o número se encolhe ainda mais. Nos últimos tempos, Roger Machado, técnico do Bahia, foi enfático ao ser perguntado sobre o tema em entrevista coletiva:

“O preconceito que sofri não foi de injúria racial. O que sofro é quando vou a um restaurante e só tem eu de negro. Fiz uma faculdade onde só eu era negro. As pessoas podem falar que não há racismo porque estou aqui e eu nego: há racismo porque só eu estou aqui”.

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Essa declaração do Roger teve grande repercussão no Brasil.

Falas como essa inspiram e encorajam pessoas dentro do esporte, falas como essa trazem a tona um problema que toda a branquitude das diretorias prefere varrer pra baixo do tapete. Os negros hoje possuem como referência outros pretos que quebram paradigmas que antes eram tabus para pessoas como eles. Lupicínio Rodrigues foi o primeiro negro a escrever o hino de um clube do g-12 (Grêmio), Leônidas foi o primeiro “superstar” negro da nossa história (o chocolate Diamante Negro, que você come hoje, nasceu por conta dele) e o primeiro preto a ser artilheiro de uma Copa do Mundo, Romário se tornou o primeiro negro a ser eleito melhor do mundo pela FIFA em 1994, e Pelé, bom, é o Rei de todos.  Comemoramos e exaltamos marcas de uma percepção que apenas negros podem competir por ela, o que é extremamente válido se considerarmos todas as proibições impostas ao povo preto dentro do futebol. Mas, com toda certeza, não é o bastante.

Reinaldo, por exemplo, um dos maiores atacantes da década de 70 e 80 e um dos maiores ídolos da história do Atlético Mineiro, tinha como marca a comemoração do punho cerrado, em uma época onde o Partido dos Panteras Negras, no EUA, se tornava ícone de cultura pop e popularizava o gesto.  Reinaldo também era tão firme nos seus posicionamentos contra a ditadura militar daqueles anos no Brasil, que chegou a ser boicotado pela própria federação brasileira, via influência de Brasília. Em sua biografia “Punho Cerrado: a história do Rei”, lançada em 2017, Reinaldo fala sobre este lado da sua carreira:

“O apoio que recebi vinha mais da classe artística e, mesmo assim, era silencioso. Quase ninguém tinha coragem de se manifestar. Fiquei muito isolado, sofrendo todo tipo de ataque. Esse gesto (comemoração) de alguma forma passou a mensagem de que precisávamos de um país democrático e com mais justiça social”.

O exemplo do ídolo do Galo é emblemático, como um soco na barriga do irmão de cor que vê o seu par sofrendo e resolve ignorar, ou como uma vela acessa em meio a um ambiente onde todos estão parados em um escuro aterrorizante, fingindo que aquilo não é nada demais, é o tal elefante no meio da sala. O negro no futebol precisa se mover, o combate ao racismo precisa ser uniforme e em coalizão, os grandes jogadores negros já existem, resta entrar em um campo sem grama e traves, um campo em que jogam para o bem de um povo que precisa deles.

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Reinaldo teve papel de destaque quando o ativismo era ainda mais precário nesses casos.

O ESCASSO ESTÍMULO À DENÚNCIA FORMAL

Com pouquíssimas inspirações e sem qualquer tipo de condicionamento ao combate, as consequências resultam em uma vítima que não denuncia o crime de ódio e, por vezes, tende a ter uma atitude apaziguadora diante do preconceito sofrido. Isso explica o grande número de ocorrências com o baixo número de denúncias e punições relatadas em capítulos anteriores. Na sociedade em geral o panorama é mais animador, já que só no Rio Grande do Sul, no espaço de um ano (entre 2015 e 2016), foi registrado um aumento de 250% nas denúncias de racismo, segundo os dados da Secretaria de Direitos Humanos, órgão do Governo Federal. Leia mais aqui.

No futebol há de ser levado em conta os pormenores, já que existe um tribunal específico que aplica outro tipo de punição. Além disso, o próprio ambiente do esporte nutre uma forma de condolência e normatização do preconceito, então alguns jogadores que são vítimas de preconceito resolvem relativizar o sofrimento por medo de boicote. Os jogadores que não tiveram esse tipo de atitude conciliadora, tendem a cair na narrativa conservadora da vitimização, como aconteceu com o Aranha. Entretanto, embora haja uma relativa alta nas denúncias quando olhamos pra sociedade brasileira, é necessário dizer que a cultura da não denúncia ainda é bastante forte. Como ilustra essa matéria.

O HYPE DO LACRE

Dentro deste tema, aparecem os clubes, aqueles que também aparecem nos primeiros capítulos, fazendo parte das segregações e, após se verem dentro de uma tendência que os iria atropelar, aceitaram que pretos pudessem chutar uma bola. Na era das redes sociais, o marketing do politicamente correto se tornou uma onda popular entre as agremiações, que, em um país que acaba de proibir gritos homofóbicos dentro dos estádios, precisam conscientizar o seu torcedor dos preconceitos que ele não pode reproduzir, dentro do estádio. Essa estratégia tem funcionado com os likes e compartilhamentos internet afora, artes bonitinhas e belas legendas. Na prática, a realidade é diferente.

O Flamengo, por exemplo, clube mais popular do Brasil e time de mais penetração nas regiões mais pobres do Rio de Janeiro, gerou polêmica ao abolir o popular termo “Festa na Favela”, usado pela torcida nas redes sociais. O argumento que justificou isso foi a “associação com a violência”. Depois de muitas reações negativas, o termo foi utilizado mais uma única vez, no modo contenção de danos, de lá pra cá, nunca mais. Já o Santos, teve exposto um áudio de um dos seus conselheiros sendo racista, proferindo frases nojentas, que chocou a mídia e foi amplamente noticiado, trazendo uma repercussão desastrosa ao time santista, que tem um trabalho de social media bem ativo. O conselheiro em questão foi expulso do Santos e pronto, foi isso, a imagem do racista não estava mais atrelada com o clube, a vida já podia seguir.

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Emblemático.

Os dois exemplos não necessariamente denotam algum tipo de racismo das agremiações em si, mas, não ser racista é insuficiente em tempos de conscientização social, é necessário ser antirracista. O que quero dizer com isso é: os clubes tem parte da culpa no que tange a falta de denúncias no ambiente esportivo. Ações de efetivo impacto são extremamente raras e o apoio aos jogadores vítimas de racismo é absolutamente obsoleta, vide casos na Libertadores da América, com clubes argentinos e uruguaios. Alguém imita um macaco pra alguém, um vídeo aleatório registra isso, pega repercussão negativa na mídia e vem o clube, com o velho e bom post nas redes sociais, repudiando o ocorrido e “cobrando” atitudes da federação. Cobrança essa da qual sequer devem se lembrar de ter feito, duas semanas depois.

Clubes podem e devem fazer mais, bem mais. Essa falsa compaixão é bem confortável pra quem interessa manter o status quo, isso tem nome: fachada.

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Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.