A estrela não tão solitária
14 de maio de 2020
Categoria: 4-3-3

(Foto por Carl de Souza/AFP via Getty Images)

 

Em 1904, em um velho casarão, um grupo de amigos formado por Flávio Ramos, Emmanuel Sondré e Octávio Werneck fundaram o Electro Club, que, logo veio a se chamar Botafogo Football Club. Dez anos antes, surgia o Club de Regatas Botafogo, mas a união entre as duas instituições esportivas só se deu em 1942, após uma fatídica partida de basquete entre os dois clubes.

78 anos depois, em uma história recheada de importantes conquistas dentro e fora de campo, o Botafogo vive por um triz. Muitos diriam até que, como ruínas, se sustenta pela sua história, pois tornou-se irrelevante para o cenário nacional. E, sejamos honestos, motivos para tal argumentação não faltam. Em um jejum de 25 anos desde seu último título expressivo (e muito questionado), o clube virou motivo de piada não só entre os rivais, mas no futebol brasileiro como um todo. Com uma montanha russa de boas e más fases, o Fogão foi perdendo espaço para os vitoriosos clubes, que se destacaram em meio a possíveis torcedores. Aos poucos, menos se viam torcedores no estádio, e, sem grandes vitórias, a estrela solitária foi perdendo sua luz.

Em 2012, entretanto, a ambiciosa diretoria anunciou uma grande contratação: o craque Seedorf, que com todo seu talento e liderança, fez o glorioso brilhar mais uma vez. A sorte, no entanto, não esteve ao lado do elenco, que, ao final da passagem do holandês, bateu na trave ao almejar um grande título. A audaciosa decisão da diretoria parecia ter surtido efeito; o Botafogo voltou a ter olhos a si, mas, como diria o bom e velho ditado, uma hora a conta teve que chegar.

Seedorf trouxe alegrias ao torcedor botafoguense – mas faltou um grande título para coroar. Porém, a conta chegou pouco tempo depois (Foto por Buda Mendes/Getty Images)

E veio como um tsunami. As arriscadas escolhas de uma diretoria irresponsável, focada no curto prazo, deixou um rombo nas contas do clube, que em mais uma fase ruim, voltou a temida segunda divisão. Nessa altura, como resgatar o prestígio que um dos pioneiros do futebol brasileiro, lar de estrelas como Nílton Santos, Jairzinho e Garrincha, um dia teve? A resposta está naqueles que não escolheram, e sim, foram escolhidos.

A chama reacendeu por meio daqueles que são a verdadeira alma do clube: os torcedores. As estrelas, que não tem nada de solitárias, tem buscado formas de devolver ao clube, mesmo que aos poucos, a glória que lhe nomeia. O apoio incondicional da torcida luta para deixar o fantasma da série B para trás tem carregado o peso da irresponsabilidade de gestões passadas com a limitação do potencial de contratações do clube. Em suas recentes campanhas mais relevantes, como na Libertadores de 2017 e na Copa Sul-Americana de 2018, a torcida mostrou que está ancorada na esperança de uma nova página na história do clube. A campanha “Não Se Compara” em 2017, com a integração entre atletas e torcedores, fez a história como o símbolo da recuperação da relação do clube com a torcida.

Entre as estrelas, nomes como os irmãos Moreira Salles, Marcelo Adnet e Felipe Neto tornaram-se parte da renovação como figuras de relevância nacional que se botaram a disposição do Botafogo para essa nova fase. Os irmãos, por meio do custeio e contratação de consultoria para a criação do clube-empresa, em um novo modelo de gestão, chamaram atenção nos últimos anos. Nas redes sociais, Adnet e Neto engajam com diferentes ações relacionadas ao clube e a torcida. Argumentaria, entretanto, que a relevância de tais nomes complementa a força da torcida de “anônimos”, que movimentam as redes sociais e manifestam cada vez mais suas preferencias, anseios e interesses ao clube. Grande exemplo disso foi a contratação do craque Keisuke Honda, que surgiu das redes sociais e que, por fruto da sintonia entre marketing e a torcida, levou milhares ao aeroporto (em plena sexta-feira!) e ao Estádio Nilton Santos para recepcionar o japonês.

A torcida, que em meio a pandemia criou um bonito movimento para apoio aos funcionários, tem esperança que o clube volte a lutar por grandes títulos (Foto por Wagner Meier/Getty Images)

A voz da torcida, que passou a ter mais força, não só clama por astros e títulos. Também cobra por resultados e responsabilidade na gestão, assim como um maior envolvimento com a comunidade alvinegra. É perceptível uma mudança no comportamento do botafoguense, que hoje vê com mais cuidado audaciosas contratações, a fim de evitar o colapso das finanças do clube, já em estado de calamidade. Em meio a crise da COVID-19, com o anúncio de cortes na folha salarial do clube, a torcida se movimentou e criou o movimento “Ninguém Ama Como a Gente – #SuaTorcidaTeQuerBem”, que convoca o torcedor alvinegro a criar uma rede de apoio aos funcionários do clube por meio da associação ao programa sócio torcedor SouBotafogo.

Em mais de um centenário de existência, o clube carioca viu de perto a glória, mas também esteve no olho de um furacão que parecia interminável. Agora, a esperança do pior ter passado vive por meio da torcida, a verdadeira chama do Glorioso. E, assim, com um facho de luz, a estrela (não tão) solitária o conduz.

Bruna Freitas
Postado por Bruna Freitas Carioca de nascença, baiana de coração e adotada por São Paulo. Fanática por esportes e estudante de administração.