A depressão de Nilmar e o nosso atestado de ignorância
21 de setembro de 2017
Categoria: Futebol e Nacional

Nilmar foi diagnosticado com depressão e precisamos falar sobre isso.

Neste último sábado, dia 16 de setembro, o Santos, por meio de um comunicado oficial, noticiou o afastamento de Nilmar por tempo indeterminado. O motivo? O atacante foi diagnosticado com depressão e pediu a suspensão do seu contrato com a equipe santista durante o período de tratamento. Assim que o comunicado começou a repercurtir, torcedores e páginas  –  oficiais ou não  – de diversos clubes foram às redes sociais para mostrar solidariedade ao atleta. No entanto, algumas pessoas chamaram atenção pelos comentários depreciativos, enquanto outras tantas faziam piadas com a situação.

Dados estimam que 4,4% da população mundial, cerca de 322 milhões de pessoas, sofrem com a depressão. Um aumento de 18% em relação aos últimos dez anos. No meio esportivo, com a frequente exposição dos atletas, assim como todo o ambiente de pressão que gira em torno do esporte, não é nada anormal pensar que a depressão também recaia sobre atletas profissionais. No futebol, a situação não seria e não é diferente.

O blog “O Contra-Ataque” listou alguns jogadores profissionais que já sofreram com a depressão e você pode conferir aqui.

Seja por desinformação ou apenas por ignorância mesmo, a repercussão do diagnóstico de Nilmar gerou alguns comentários nada felizes sobre a situação e também sobre a decisão do atleta santista. Não foram poucas as pessoas que trataram a doença como “problema de gente rica” e até mesmo como má-fé por parte do jogador.

A repercussão da doença de Nilmar não foi nada boa.

Um dos autores mais premiados do mundo, o americano Andrew Solomon, viveu na pele a experiência de lidar com sérias crises de depressão e hoje percorre o mundo colaborando com diversas revistas e participando de palestras e conferências. Em 2001, escreveu um livro intitulado O Demônio do Meio-Dia, onde analisa a depressão a partir da própria experiência com a doença. Em entrevista ao ZH Notícias, Andrew faz uma reflexão sobre a tão popular e infeliz falácia de que “depressão é coisa de classe média, de gente rica”:

“Também busquei observar essa ideia de que a depressão só ocorre quando você é desocupado o suficiente para ter tempo para ela, por isso, seria de algum modo uma experiência das classes mais abastadas. No entanto, descobri que quando você tem uma vida que, em termos materiais, poderia ser maravilhosa, mas se sente triste o tempo todo, você procura um médico, já que isso não faz sentido. Mas, se você é pobre e sua vida é difícil, quando se sente triste pensa: “É claro que me sinto triste, minha vida é horrível”. E então não busca tratamento”

Algumas outras pessoas dedicaram um tempo para fazer infelizes piadas com a situação de Nilmar. Sejam piadas envolvendo os times onde jogou ou ironizando o time onde o atacante joga atualmente  – e até mesmo seu companheiro de clube, Thiago Ribeiro, que também sofreu com a doença . Os comentários deixam claro que ainda não tratamos a depressão com a seriedade necessária, o que aponta para uma desinformação e desinteresse preocupantes.

Comentários publicados no site Globoesporte.com

O anúncio do diagnóstico da depressão de Nilmar justo no mês de setembro, quando ocorre a campanha de conscientização Setembro Amarelo, que informa a população sobre a prevenção ao suicídio, deveria ser algo simbólico. Não só pela vida humana, mas também para enxergarmos e extrairmos humanidade naqueles que fazem parte do grande espetáculo que é o futebol.

O mesmo futebol que nos proporciona diversas alegrias também pode atingir os atletas de outras formas, nem sempre positivas. É preciso tratar a depressão como a doença séria e perigosa que é. É preciso ter solidariedade num momento como esse onde ninguém pode imaginar o que leva uma pessoa a tomar certas atitudes, independente de situação financeira ou social.

Infelizmente, nem todos sabem lidar com a situação e acabam gerando os comentários lamentáveis que lemos no decorrer da semana. Infelizmente, após essa notícia, nosso diagnóstico também foi lançado: apontou ignorância.

Postado por André Oliveira Estudante de História, torcedor são-paulino, clubista e corneteiro.