1847
15 de abril de 2020

Os campos pelo mundo estão vazios. A bola segue sem rolar (Foto por Lars Baron/Getty Images)

Refleti hoje e pude notar que, apesar da energia elétrica, da internet, da cafeteira e do celular, estava de volta em 1847.

Sim, reconheço o ano, pois nenhuma bola era chutada, não havia arquibancada, não se ouviam tumultos e nem se reconheciam clubes. Só o vazio. Interno e externo.

Em 1847 as pessoas não fazem nada de interessante. Ora, vejam, nem cantarolam o hino de seu time favorito. Nem petecam um papel higiênico – ou seja lá o que se usava para fazer a limpeza – com os pés. Tampouco correm pela sala de estar gesticulando uma famosa comemoração de gol. Que aporrinhante é 1847.

Mesmo vivenciando algo tão novo como uma era tão antiga, fiquei estressado e entediado muito facilmente, como se a liberdade em um mundo novo com a ausência de uma específica invenção fosse mais aterrorizante que um confinamento com a certeza da existência dela.

Talvez, eu entenda que essa saudade única seja um sentimento agoniante, mas aliviador, pois nos faz desejar algo tão desesperadamente, mas nos lembra que ela ainda subsistirá.

Então, acordo e, por sorte, não estamos em 1847.

Ainda que tenhamos que rever jogos antigos, nostálgicos, os quais já decoramos de cabo-a-rabo escalação, reservas, trio de arbitragem; ainda que façamos desafios bobos de transformar qualquer objeto em algo chutável; ainda que venhamos a imitar, às escondidas dos olhos de terceiros, a celebração do centroavante recém-consagrado; precisamos lembrar: que bom que podemos sentir saudades disso!

Que bom que ainda conseguimos aquecer nossos corações de fãs e nos apegar a coisas efêmeras para tanto. Pois, só se sente saudade daquilo que existe. E se existe, podemos sempre esperar sua volta. Que bom que não estamos em 1847.

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Postado por Luan Manicka Estudante de Direito. Acostumado desde pequeno a assistir jogos na Arena da Baixada, onde o fanatismo por futebol começou. De estadual, até as ligas europeias em um final de semana. Cornetada aqui, elogio ali e algumas opiniões mais ácidas.