União pelo futebol feminino: conheça o Aland United
22 de outubro de 2018
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

 

A valorização do futebol feminino é um assunto que cada vez mais parece ganhar força no Brasil. É normal vermos discussões sobre a diferença de orçamento, estrutura e tantas outras coisas em relação a modalidade masculina. Por aqui, no entanto, ainda não é comum que os clubes tenham uma equipe feminina, e mais incomum ainda é termos clubes exclusivamente para mulheres, como é o caso do Kindermann, de Santa Catarina.

Para falar um pouco sobre essa questão, e também para conhecer um clube feminino pra lá de diferenciado, vamos fazer uma viagem até a gelada e longínqua Finlândia, onde o futebol feminino também encontra suas dificuldades.

No último sábado, 20 de outubro, HJK Helsinki e PK-35 Vantaa decidiram o título da Naisten Liiga, a liga finlandesa de futebol feminino, em Helsinque. A partida acabou com a vitória da dominante equipe do PK-35, que com a vitória por 2-1 se sagrou campeã pela sétima vez nos últimos 10 anos e manteve o HJK com uma seca de 13 anos sem conquistar a competição.

Simultaneamente, algumas centenas de quilômetros dali, nas afastadas Ilhas Aland, pouco mais de 380 pessoas acompanhavam a decisão do terceiro lugar entre a equipe da casa, o Aland United, e o FC Honka. Sob um apoio fervoroso de sua torcida, que fez muito barulho durante toda a partida, o Aland conseguiu fazer um gol em cada tempo e garantir a vitória por 2-0.

Embora tenham perdido a oportunidade de serem campeãs, o terceiro lugar marcou um fim de temporada muito honroso para as meninas do clube. Em menos de 15 anos de história, essa foi mais uma vez em que o Aland United terminou nas cabeças do campeonato, e é um pouco da trajetória desse clube tão singular que nós vamos contar aqui.

O Aland United surgiu somente em 2004, no município de Lemland, uma cidadezinha com pouco mais de 2 mil habitantes localizada nas Ilhas Aland, um arquipélago autônomo de língua sueca que faz parte da Finlândia. O clube surgiu por iniciativa das próprias jogadoras de dois clubes rivais, o Lemlands IF e o IF Finströms Kamratema, que se reuniram e decidiram que deviam se unir para fortalecer o futebol feminino da região, uma vez que as duas equipes disputavam ano a ano os melhores talentos locais, mas sem nunca conseguir alcançar um sucesso significativo. As direções foram, então, obrigadas a concordar com a fusão e surgiu assim um novo clube, que herdou as operações e posição na pirâmide futebolística do Lemlands e foi rebatizado para Aland United, um nome que não poderia ser mais sugestivo.

O primeiro sucesso foi imediato, e logo no seu primeiro ano a equipe foi capaz de vencer a segunda divisão e garantir o acesso ao mais alto nível do futebol finlandês, em 2005. Em 2009, os clubes alandeses Sunds IF, IFK Mariehamn, Jomala IK, Hammarlands IK, IF Fram e Eckero IK  se juntaram ao projeto, e o Aland United se tornou um clube independente e exclusivamente de futebol feminino, alcançando a organização que tem hoje, em que os oito clubes atuam como “sócios” e proprietários do Aland United.

O Aland United em 2007: primeiros anos, casa diferente e o início de um projeto de sucesso

Desde então, o clube se manteve numa trajetória de muito sucesso. Logo em 2009, a equipe se sagrou campeã da Naisten Liiga (como é conhecido o campeonato nacional da primeira divisão desde 2007) pela primeira vez, disputando a UEFA Women’s Champions League na temporada 2010-11. Na ocasião, entraram nos dezesseis-avos de final e enfrentaram logo as atuais campeãs do Turbine Potsdam da Alemanha, sendo eliminadas perante algumas das melhores jogadoras do mundo, como as alemãs Fatmire Alushi, terceira colocada na Bola de Ouro em 2010, e Anja Mittag, até hoje a maior artilheira da UWCL.

Apesar de dos dois placares expressivos em favor das alemãs (9-0 na Finlândia e 6-0 na Alemanha), foi um episódio muito importante na história do clube, sobretudo pela oportunidade da modesta Wiklöf Holding Arena receber tantas estrelas internacionais.

As boas campanhas da equipe seguiram frequentes e o Aland United terminou o campeonato em segundo lugar por duas vezes, em 2012 e 2014, em terceiro também por duas vezes, em 2010 (quando também ficaram com a vice-colocação da Copa da Liga) e 2015.

Além das boas colocação, o segundo título nacional também veio, em 2013, ganhando o direito de disputar a Champions novamente em 2014-15 e caindo na fase de grupos, onde competiram com o ZFK Kochani, da Macedônia, o Medyk Konin, da Polônia (que possuía alguns talentos, como a polonesa Ewa Pajor, hoje atacante do Wolfsburg), e o SFK 2000 Sarajevo, da Bósnia.

As campeões nacionais de 2009

Contextualizando um pouco para contemplar a importância do clube para o futebol alandês, o Aland United faz parte da AFF, a Associação de futebol de Aland (Ålands Fotbollförbund em sueco), órgão que gerencia e representa os clubes de futebol das Ilhas. Como dito acima, as Ilhas Aland são um arquipélago autônomo, com um governo próprio, mas economicamente dependente da Finlândia, sendo desmilitarizado e única região da Finlândia que fala unicamente a língua sueca. É também a menor região do país, concentrando apenas 0,50% de sua população e 0,49% da área terrestre do mesmo. A AFF é responsável também pelas seleções nacionais masculina e feminina das Ilhas, que, embora não possam disputar nenhuma competição da UEFA ou da FIFA, por não atenderem aos critérios necessários para filiação, disputam competições alternativas, sendo a principal delas os Island Games. Também conhecidos como Jogos Insulares em bom português, a competição é uma espécie de Olimpíadas bienal que reúne ilhas do mundo todo na disputa por medalhas de ouro, prata e bronze, em variados esportes.

Os homens de Aland não tem muito sucesso no futebol, tendo obtido desde 1989 apenas uma medalha de prata e duas de bronze, mas o caso das mulheres, que tiveram sua primeira participação em 2001, é completamente diferente. A seleção feminina de futebol das Ilhas Aland é a equipe com o melhor retrospecto dos jogos, com seis medalhas em nova participações: 3 pratas, em 2001, 2005 e 2015, e 3 ouros, conquistados consecutivamente em 2007, 2009 (este enquanto sediou o torneio) e 2011, e a importância do Aland United para essas conquistas é singular.

Em 2007, todas as jogadoras, com exceção de quatro, eram do Aland United; em 2009, cerca de metade do elenco e em 2011 cerca de cinco jogadoras (os dados não são exatos). A queda no número de atletas convocadas se dá pela maior internacionalização do clube, que ao longo dos anos passou a contar com um número maior de jogadoras estrangeiras, mas é inegável que a base de jogadoras locais do clube foi de suma importância em todas essas conquistas.

De fato, o clube tem um ótimo histórico de grandes jogadoras. O maior exemplo de uma jogadora criada no clube e que alcançou um grande sucesso na carreira é a atacante Adelina Engman. Nascida nas Ilhas, ela foi uma das artilheiras dos Jogos Insulares em 2011 com a seleção alandesa, fazendo sua estréia pela equipe principal do Aland United com apenas 13 anos de idade e permanecendo até 2014 no clube, onde participou de dois títulos nacionais. Ela hoje joga no Chelsea, da Inglaterra, além da seleção finlandesa (como a seleção de Aland não é oficial, não há problema em ela atuar em ambas), com a qual já disputou quase 60 partidas.

Outra jogadora de sucesso nascida nas ilhas e que passou pelo Aland United é Annica Sjolund. Atacante e cria do IFFK, um dos clubes que deu origem ao Aland United, ela, entre outros feitos, atuou e marcou nas Eurocopas de 2009 e 2013 com a seleção finlandesa, além de disputar os Jogos Insulares de 2001 e 2007 por Aland. A título de curiosidade, ela é irmã do também jogador de futebol Daniel Sjolund, que passou por West Ham e Liverpool e é o mais famoso jogador masculino nascido em Aland.

O clube ainda teve outras jogadoras finlandesas de sucesso, como Juliette Kemppi, atacante hoje no Bristol City da primeira divisão inglesa; Nora Heroum, meio-campista do Milan e Tuija Hyyrynen, defensora da Juventus. Além disso, há também o caso de jogadoras estrangeiras de sucesso que defenderam o clube, tais como a estadunidense Janelle Cordia, hoje no Fortuna Hjörring da Dinamarca; a canadense Maegan Kelly; a aposentada Manya Makoski, que fez sucesso na liga norte-americana, e a também americana Angela Salem, do Portland Thorns; a camaronesa Raissa Feudjo, internacional que já disputou os Jogos Olímpicos e a atacante nigeriana Cynthia Uwak, com passagens pelo poderoso Lyon, além de Copa do Mundo e Olimpíadas disputadas com sua seleção e dois prêmios de melhor jogadora do continente africano no currículo.

Adelina Engman hoje veste as cores do gigante Chelsea.

Apesar de ser um clube de sucesso, o Aland United não escapa das adversidades financeiras do meio futebolístico. Na Finlândia, onde o futebol não é um esporte tão popular e mesmo os grandes e tradicionais clubes da Veikkausliiga (primeira divisão masculina do país) sofrem bastante para equilibrar as contas e vivem com o cinto apertado, não seria diferente para as meninas de Aland. O clube, inclusive, chegou bem perto da falência em 2011, sendo salvo quando uma nova diretoria, encabeçada pelo governador das Ilhas Aland e amigo próximo do presidente da Finlândia, Peter Lindbäck, assumiu e conseguiu enxugar as contas. Desde então, o clube vive com um orçamento bem restrito e luta pra sobreviver ano após ano, sem muitas regalias e com a possibilidade da chegada de um grande patrocinador sendo muito bem vista.

Um dos fatores problemáticos para essa falta de dinheiro é a questão das transmissões das partidas. Diferente de outras equipes, como HJK e o PK-35 Vantaa, o Aland United não tem um acordo para a transmissão de seus jogos em casa por canais de televisão pagos, e dessa forma, transmite-os de forma gratuita através de seu canal oficial no YouTube. A própria liga, por sua vez, tem um acordo com uma emissora que transmite um jogo por rodada do campeonato, então o clube só pode transmitir no YouTube partidas que não sejam televisionadas por essa emissora (nesta temporada foram quatro jogos da equipe transmitidos, sendo dois em casa), o que dificulta ainda mais o processo. Essa forma de transmissão online é ainda algo novo no clube, então a expectativa é que as pessoas se acostumem com a ideia primeiro, para que depois possa ser feito algum dinheiro em cima, através de publicidade, por exemplo. Por enquanto, as transmissões não constituem nenhuma renda ao Aland United, e a única marca que aparece estampada durante as mesmas é a de uma empresa local que ajuda o clube com os equipamentos necessários para a filmagem e coisas do tipo.

O clube também espera que o social media melhore para a próxima temporada, com um processo de renovação do website já estando em andamento, o que possibilitaria uma maior conexão entre as redes sociais e meios de comunicação do clube e ajudaria a desenvolver finanças através disso.

As partidas em casa acontecem na Wiklöf Holding Arena, maior estádio das Ilhas, com capacidade para 1635 pessoas e onde joga também a equipe masculina do IFK Mariehamn, mas nem sempre foi assim. No início, o clube alternava entre sediar suas partidas no campo do Lemlands, o Bengtsböle, e o Markusböle, do IFFK, ambos “estádios” de pequeníssimo porte, mal merecendo essa denominação, contando ainda com alguns arranjos para atuar no atual estádio de uma a três vezes no ano. Foi com a entrada da nova direção que, por volta de 2013, o Aland United adotou a Wiklöf Holding Arena como sua casa oficial, como uma forma de elevar o nível do futebol feminino nas ilhas. Há ainda um campo indoor, o Eckeröhallen, onde o clube costuma mandar cerca de 1 a 3 jogos no início da temporada, devido ao rigoroso inverno finlandês, quando a prática do esporte ao ar livre fica praticamente impossibilitada.

Aland United x HJK Helsinki, na Wiklöf Holding Arena, transmitido no canal oficial do clube.

Como esperado para um clube que movimenta tão pouco dinheiro (para se ter uma ideia, o orçamento do clube é cerca de 1/4 das finanças do time masculino do IFK Mariehamn, que por si só tem um dos menores orçamentos da Veikkausliiga), a grande maioria das jogadoras do Aland United tem outra ocupação além do futebol, seja trabalhando com outras profissões ou estudando, sobrando cerca de quatro ou cinco jogadoras que se dedicam exclusivamente a prática do esporte. Ainda assim, todo o treinamento é desenvolvido e aplicado para o futebol profissional, então o mais correto seria definir as jogadoras como semi-profissionais.

Para falar ainda sobre a importância do Aland United, é preciso destacar que o clube é atualmente uma das únicas três equipes das Ilhas Aland no futebol feminino. Enquanto o Aland joga na primeira divisão finlandesa, o IFK Mariehamn atua na quarta e trabalha como um “farm team”, uma espécie de equipe reserva para o United, permitindo um livre intercâmbio entre atletas do Mariehamn que estão prontas para atuar na equipe “principal”, e atletas do próprio Aland United que precisem de mais tempo de jogo ou algo do tipo, na equipe reserva. A outra equipe das Ilhas, o Jomala IK, atua na pirâmide sueca de futebol, prática comum para equipes de Aland, e está na quinta divisão. O Aland United é também uma das únicas quatro equipes da Naisten Liiga que é exclusiva para o futebol feminino, sendo as outras três o JyPK, o ONS e o Pallokissat, além do PK-35 Vantaa, esse de forma temporária devido a falência da tradicional divisão masculina.

Aland United x Turbine Potsdam, nas Ilhas Aland. Derrota, mas uma grande experiência.

A conclusão que fica é que o Aland United é um clube de importância única, seja para o futebol feminino, para as Ilhas Aland, ou mesmo para o futebol como um todo. Como um clube voltado exclusivamente para a prática do futebol feminino, não há discussões em volta de quem deveria ganhar mais, quem tem melhores condições de treinamento, sobre a distribuição desigual dos recursos do clube, facilidades para o treinamento nem nada do gênero. Todo o esforço e o trabalho gira em torno da potencialização das mulheres no esporte. Apesar de haverem homens trabalhando no equipe técnica ou na direção do clube, o foco é todo direcionado ao futebol feminino e o seu desenvolvimento.

O clube vê essa forma de gestão como a única maneira de fortalecer e promover o futebol entre garotas e mulheres de uma maneira tão exclusiva como é o jogo dos homens hoje. A equipe tem seus próprios torcedores e torcedoras, que não são apenas uma extensão da popularidade de uma equipe masculina. As garotas em Aland buscam por autógrafos das jogadoras do United, enxergando-as como seus ídolos, e isso é um reflexo muito positivo tanto a curto como em longo prazo.

Só podemos esperar que o Aland United siga firme na sua luta tanto pelo fortalecimento do futebol nas Ilhas Aland quanto pelo futebol feminino, e sirva de exemplo para vários outros clubes no mundo. Deste que vos escreve, terá sempre a mais sincera admiração.

Um agradecimento especial ao amigo Mikael Virta, atual diretor esportivo do Aland United e ex-auxiliar técnico da equipe, que respondeu às minhas perguntas da maneira mais atenciosa possível, através de emails, e proporcionou tantas informações exclusivas para esse texto. Do Brasil, obrigado novamente Mika! 🙂

Special thanks to the friend Mikael Virta, current Sports Director of Aland United and former assisting coach of the team, who answered to my questions as attentively as possible, through emails, and provided so much exclusive infos for this text. From Brazil, thank you again Mika! 🙂

Postado por Bernardo Dornela 18 anos, nascido e criado em Belo Horizonte e atleticano desde o berço. Com o tempo tornou-se também um fã do Liverpool e do Portimonense, de Portugal. Apaixonado por tudo que há de alternativo no futebol, em especial o praticado nos países nórdicos.