Uma ilha, duas seleções: a história dos embates internacionais entre Irlanda e Irlanda do Norte
17 de novembro de 2018
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

Mural em Belfast enaltecendo a vitória da seleção da Irlanda do Norte sobre a Inglaterra em 2005. ”Nosso pequeno país. Orgulho – Paixão – Fé”.

Hoje completam-se 25 anos da mais importante partida de futebol entre as seleções da Irlanda e da Irlanda do Norte, válida pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Disputada no meio de um clima de extrema tensão pelos conflitos nacionalistas entre republicanos irlandeses e monarquistas britânicos, a partida foi somente o auge de um embate futebolístico e nacionalista que teve origens pelos menos 75 anos antes. Apesar de certa calmaria nos últimos anos, tanto no âmbito do futebol como na política, essa tensão voltou a tona com o amistoso entre as duas seleções em Dublin na última quinta-feira, situação potencializada pelas negociações do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, que também envolvem a Irlanda. Por isso, resolvemos fazer uma recapitulação de toda essa história, que começou no inicio do século passado e que se estende até hoje.

O FUTEBOL IRLANDÊS NO CONTEXTO DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Enquanto as potências imperialistas europeias se armavam até os dentes nas tensões pré-guerra, o futebol na Irlanda se desenvolvia cada vez mais. Times de Dublin e Belfast, principais cidades de uma então Irlanda unificada dentro do Reino Unido, disputavam liga e copa nacionais, enquanto que a seleção irlandesa, representando toda a ilha, ganhava o Home Championship de 1914, a principal competição internacional disputada entre as seleções britânicas. Apesar de cada vez mais popular, o futebol na Irlanda e no resto do continente europeu se viu ameaçado com o início da então chamada ”Grande  Guerra”. Cerca de 206 mil irlandeses (10% da população masculina, incluindo jogadores e certamente apreciadores do esporte) serviram ao exército britânico na guerra. A guerra fez com que o futebol irlandês, antes nacionalizado, agora fosse regionalizado ao redor da ilha, levando a um fortalecimento das federações de futebol de Leinster (no Leste, tendo Dublin como sede) e de Munster (no Sul, tendo Cork como sede). A Irish Football Association (IFA), que comandava o futebol em toda a ilha, seguia tendo sua sede no Norte, em Belfast.

A SITUAÇÃO NO PÓS-PRIMEIRA GUERRA

O movimento nacionalista irlandês, que começou a ganhar força no final do século XIX, chegou ao seu auge na segunda metade da década de 1910. Aproveitando que as forças britânicas estavam extremamente ocupadas combatendo as Potências Centrais na Europa continental, nacionalistas irlandeses iniciaram uma rebelião em Dublin buscando a independência no ano de 1916, que ficou conhecida como a Rebelião da Páscoa, por ter ocorrido na semana de páscoa. A revolta foi violentamente reprimida, com seus líderes executados, porém foi de extrema importância para o prosseguimento do movimento nacionalista irlandês. Com o fim da guerra, em 1918, foram realizadas eleições na Irlanda para a eleição para o Parlamento Britânico. O partido nacionalista republicano Sinn Féin ganhou 70% das vagas, porém se recusou a ocupar qualquer cadeira no parlamento em Londres, criando assim a sua própria câmara em Dublin e declarando independência do Reino Unido.

Isso levou à Guerra da Independência da Irlanda, que durou mais de dois anos e que não teve um vencedor bem definido, pois culminou no Tratado Anglo-Irlandês de 1921, criando a Irlanda do Norte (parte integral do Reino Unido) e o Estado Livre Irlandês (que não faria mais parte do Reino Unido, e sim seria um domínio da Commonwealth britânica). Esse tratado levou a uma nova guerra, dessa vez travada entre irlandeses que eram a favor do tratado e irlandeses que eram contra o acordo. As forças pró-tratado acabaram vencendo, e a República da Irlanda só se tornaria totalmente independente no ano de 1937.

Cidade de Cork, no sul da Irlanda, incendiada pelo exército britânico em 1920, durante a Guerra de Independência da Irlanda

Com a situação bem contextualizada, podemos voltar ao futebol. Mesmo durante a Guerra de Independência, a Copa da Irlanda continuou a ser disputada. Em 1921, o Shelbourne, de Dublin, enfrentou o Glenavon, dos arredores de Belfast, nas semifinais da competição. Após um empate em Belfast, era esperado que o replay (jogo desempate) fosse disputado em Dublin, A IFA argumentou que não seria seguro essa partida ser disputada em Dublin, no meio do conflito pela independência, e ordenou que o replay fosse disputado em Belfast. Isso enfureceu a Federação de Futebol de Leinster, os clubes de Dublin e principalmente o Shelbourne, que se recusou a jogar novamente em Belfast, sendo expulso da competição. Esse foi o estopim para a criação de uma federação de futebol no novo Estado Livre Irlandês, independente da federação com sede no Norte.

O Sul da ilha acusava a IFA de favorecimento para os clubes de Belfast, na escolha dos jogadores convocados para a seleção e na escolha dos estádios que sediariam partidas da seleção irlandesa. Entre 1882 e 1921, jogadores da província de Leinster (onde fica Dublin) receberam 75 convocações para a seleção, enquanto que jogadores da província de Ulster (onde fica Belfast) receberam 798 convocações. Nesse mesmo período, a seleção irlandesa jogou 6 vezes em Dublin, 48 em Belfast. Os altos cargos da federação eram geralmente ocupados por representantes do Norte, e os clubes do Sul também acusavam a federação de repassar verbas para eles com menos facilidade do que para os clubes do Norte.

Esse cenário levou à fundação da FAI – Football Association of Ireland, no ano de 1921, se juntando à FIFA em 1923. A nova federação passaria a administrar todo o futebol do novo Estado Livre Irlandês (que viria a se tornar mais tarde a República da Irlanda) enquanto que o futebol na Irlanda do Norte continuaria a ser comandado pela IFA – Irish Football Association.

O esquadrão irlandês que bateu os Estados Unidos num amistoso realizado em Dublin no ano de 1924. Foi o primeiro time da seleção irlandesa convocado pela FAI a disputar uma partida em solo irlandês.

ENCONTROS ENTRE AS DUAS SELEÇÕES DEPOIS DA SEPARAÇÃO ENTRE AS FEDERAÇÕES

Depois do rompimento da FAI com a IFA, as duas seleções não se enfrentariam por quase 60 anos. Isso principalmente porque as tensões entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte continuaram altas, sendo elevadas ao extremo no período entre 1968 e 1998 conhecido como The Troubles, em que forças paramilitares republicanas irlandesas, lideradas pelo católico IRA – Irish Republican Army, lutaram contra o exército britânico e forças paramilitares unionistas protestantes pela unificação da ilha.

As duas seleções viriam a se enfrentar pela primeira vez nas eliminatórias para a Eurocopa em 1978 e em 1979. O primeiro jogo, disputado em Dublin, ocorreu sem muitos problemas, apesar de muito temor da polícia e de outras autoridades. Pat Jennings, goleiro da Irlanda do Norte que era católico, lembra que a polícia fez a escolta da seleção da Irlanda do Norte desde a fronteira, a 100km de distância, até Dublin. No jogo da volta, em Belfast, um torcedor jogou uma pedra no campo, atingindo o meia irlandês Gerry Daly. Nessa época havia pouca tensão dentro de campo entre os jogadores das duas seleções. Pat Rice, norte-irlandês e um dos grandes ídolos da história do Arsenal, conta que ”não haviam desavenças entre os jogadores. Nós fizemos uma votação uma vez para saber se os jogadores queriam a criação de uma única seleção para a Irlanda, assim como é no Rugby. Todos os jogadores votaram sim, mas as federações nunca levaram a ideia adiante”.

Dois jogos aconteceram entre as duas seleções no final dos anos 80 válidos pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990, porém sem muita relevância. Em 1993, porém, aconteceria a partida que ficou marcada na história do futebol irlandês. O Windsor Park em Belfast, palco da partida, teve a sua capacidade reduzida para 10,000 torcedores por causa de obras que visavam melhorar a má qualidade de suas instalações. A situação na Irlanda do Norte estava longe de pacífica antes da partida. Cerca de um mês antes, o IRA faria um ataque a bomba em Belfast contra a liderança da UDA – Ulster Defence Association, uma organização paramilitar unionista. O ataque, porém, deu errado e a bomba explodiu antes da hora, ferindo 57 pessoas e matando dez – um membro do IRA, um membro do UDA e oito civis protestantes, incluindo duas crianças. Em retaliação, o UDA conduziu uma série de ataques contra católicos na semana seguinte, matando um total de 14 pessoas. O ataque mais violento aconteceu numa festa de Halloween um bar conhecido por ser frequentado por católicos em Derry, na fronteira com a Irlanda. Três homens armados e mascarados entraram no bar, que estava lotado. No começo achava-se que era uma pegadinha de Halloween. Stephen Irwin, um dos atiradores, gritou ”doces ou travessuras?!” antes de abrir fogo, matando 8 pessoas e ferindo 19.

O atentado a bomba em Belfast, em cima, e o bar em Derry, em baixo

Com esse cenário caótico, houveram discussões sobre uma possível mudança da partida para Manchester, Londres ou até mesmo Roma, mas não tiveram resultado. A partida seria mesmo realizada em Belfast. A seleção da Irlanda voou para Belfast ao invés de fazer a viagem por terra, por razões de segurança. Dentro do ônibus que conduziu o time para o hotel estavam membros do exército britânico, vestidos com agasalhos da Federação de Futebol da Irlanda. Por segurança, a federação resolveu não aceitar nenhum dos seus ingressos de torcida visitante.

Dentro do estádio, cantos anti-católicos e músicas enaltecendo o ataque em Derry semanas antes podiam ser ouvidos. A bandeira da República da Irlanda não foi levantada e nem seu hino tocado. O meia irlandês Alan McLoughlin, que entrou em campo no segundo tempo, contou aos jornalistas que o lugar mais seguro para estar no estádio era dentro do campo, e não no banco de reservas, perto da torcida.

O jogo em si era a última partida válida pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. A Irlanda precisava de um ponto para garantir a sua classificação, enquanto que a Irlanda do Norte já estava desclassificada. A partida terminou empatada em 1-1 e a Irlanda conseguiu a classificação para a Copa do Mundo, tendo um bom desempenho, inclusive batendo a Itália por 1-0 na fase de grupos.

As duas seleções na partida disputada em Belfast, no ano de 1993

Desde então as duas seleções se enfrentaram cinco vezes. Em 1994 e 1995 pelas eliminatórias para a Eurocopa, em 1999 num amistoso para arrecadar fundos para as vítimas do atentado feito por dissidentes do IRA em Omagh, na Irlanda do Norte, em 2011 num torneio amistoso e na última quinta-feira num amistoso em Dublin.

As tensões entre Irlanda e Irlanda do Norte diminuíram cada vez mais desde a assinatura do Acordo da Sexta-feira Santa em 1998, que pôs um fim no The Troubles. Porém, nos últimos meses, a situação voltou a ficar complicada por causa das negociações do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. A fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte é o principal entrave nas negociações, já que uma saída do Reino Unido do bloco significa a volta de uma fronteira física na ilha, que não existe há 20 anos.

Essa situação complicada se mostrou evidente no amistoso da última quinta-feira, disputado em Dublin. Antes da partida, um torcedor da Irlanda do Norte foi visto com uma bandeira do Regimento de Paraquedistas do Exército Britânico, que atuou na Irlanda do Norte nos conflitos do século passado. Entre as ações realizadas pelo regimento na Irlanda estão o assassinato de 11 civis no Massacre de Ballymurphy, em 1971, e de 14 civis no que ficou conhecido como Domingo Sangrento em Derry, no ano seguinte

Torcedor da Irlanda do Norte com uma bandeira do Regimento de Paraquedistas do Exército Britânico

Os torcedores da República da Irlanda, que estavam no ônibus ao lado, responderam amarrando a bandeira tricolor da Irlanda na placa do ônibus de torcedores da Irlanda do Norte.

Antes da partida começar, muitas vaias da torcida da casa para o God Save the Queen (hino do Reino Unido e, consequentemente, da Irlanda do Norte):

 

Postado por Eduardo Werner De São José dos Pinhais - PR, tem 17 anos e estuda Relações Internacionais. Fã do futebol inglês e escocês, torce para Atlético Paranaense e Manchester United