Uma história queniana na final da Champions League
30 de maio de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

 

Quando se pensa em esporte no Quênia, imediatamente se faz a associação com os famosos corredores quenianos, com seu fôlego inigualável e preparo físico invejável. Tal pensamento não é por acaso, uma vez que de todas as 103 medalhas conquistadas pelo país nos Jogos Olímpicos de Verão, apenas sete não vieram do atletismo (todas vindo do Boxe), caracterizando o país como uma verdadeira potência das pistas.

Já no futebol, as glórias não são muito frequentes. A seleção queniana muito pouco fez na sua história, nunca tendo sequer passado da segunda fase da Copa Africana de Nações. Vale ressaltar que a seleção é afiliada à CECAFA, sub-associação da CAF, que representa os países da África Central e do Leste, sendo provavelmente a mais fraca de todas as sub-associações regionais. Mesmo dentro dessa divisão, o Quênia não é muito poderoso, não exercendo superioridade sobre a Uganda nos torneios locais e ficando bem longe das glórias alcançadas pelo Sudão e a Etiópia, por exemplo, campeões da Copa Africana de Nações nas décadas de 60 e 70.

Ainda assim, a final da maior competição de clubes do esporte mais popular do mundo, a UEFA Champions League, terá em 2018-19 um sabor especial para os quenianos, que poderão se sentir “duplamente” representados nos gramados de Madrid.

Pelo lado dos Spurs, teremos a presença de Victor Wanyama. Titular na heroica semi-final contra o Ajax, o volante é internacional pela seleção do Quênia desde 2007, quando estreou com apenas 15 anos e antes mesmo de se tornar profissional no continente europeu. Já tendo superado as 50 aparições com a camisa de seu país, marcando cinco vezes, ele é também o capitão dos Harambee Stars – como é conhecida a seleção – desde 2013, e é historicamente um dos – se não o maior – expoentes do futebol queniano.

Wanyama é capitão da seleção queniana.

Já pelo lado do Liverpool, teremos, claro, bastante tempero africano, com várias das estrelas dos Reds defendendo seleções do continente. O foco aqui, porém, é um europeu que foi um verdadeiro herói na histórica remontada contra o Barça: Divock Origi!

Isso mesmo. Embora tenha nascido na Bélgica e defenda as seleções de base do país europeu desde o sub-15, o camisa 27 dos Reds tem suas origens não só na região dos Grandes Lagos, mas em uma família completamente envolvida no futebol queniano.

Divock é filho de Michael Okoth Origi, ou simplesmente Mike Origi, ex-atacante que é, até os dias de hoje, o jogador que mais vezes defendeu a seleção do Quênia, com 120 aparições entre 1989 e 2004, participando de três das cinco participações dos Harambee Stars na Copa Africana de Nações – em 1990, 92 e 2004.

Um dos principais jogadores da história do país, Mike fez a maior parte da carreira no futebol belga, destacando as suas passagens por Oostende e Genk. Foi enquanto ele jogava no primeiro que Divock nasceu, e foi enquanto jogava pelo segundo que seu filho ingressou nas categorias de base do Genk, permanecendo por quase 10 anos.

O negócio de família não para por aí. O irmão mais velho de Mike, Austin Oduor, conhecido como “Makamu”, é também um dos mais aclamados jogadores quenianos da história. Foi defensor e capitão do Gor Mahia – um dos maiores clubes quenianos – e da seleção numa carreira de sucesso entre o final dos anos 70 e início dos 90. Levou o Gor Mahia à sua maior glória continental da história, a Copa Africana dos Vencedores de Copas de 1987, e participou dos melhores dias de seleção queniana também em nível continental.

Austin, por sua vez, é pai de Arnold Origi, goleiro que jogou por muitos anos na Noruega e principalmente a serviço do Lillestrom, tradicional clube do país nórdico. Hoje jogador do HIFK da Finlândia, ele foi goleiro também da seleção desde 2005, somando 33 partidas e tendo a carreira internacional encerrada em 2017, quando recebeu a cidadania norueguesa após 10 anos de residência no país.

Os primos parecem ter uma boa relação e costumam interagir no Instagram e até mesmo no Twitter, com Arnold mostrando sempre muito orgulho de seu primo mais novo. Divock tem ainda mais dois tios (também irmãos de seu pai) que foram jogadores no Quênia, Anthony Origi pelo Kenya Breweries (atual Tusker FC) e Gerald Origi, pelo Utalii FC. Os Origi são da etnia Luo, quarto maior grupo étnico do Quênia e que ocupa também partes de Uganda e Tanzânia.

Em 2017, durante uma entrevista para a BBC Swahili, o atacante do Liverpool surpreendeu ao mostrar um excelente domínio da linguagem suaíli, língua franca dos Grandes Lagos Africanos e recebendo muitos elogios por parte do povo queniano. Ele já recebeu e recusou algumas vezes os convites da Federação de Futebol do Kenya para representar a seleção, a última vez em 2013.

Mike Origi a serviço do Genk, onde atuou por mais de quatro temporadas.

Voltando a falar da final em Madrid, outro fato curioso é que Victor Wanyama não é o primeiro queniano a participar de uma final de UEFA Champions League, e tampouco seria o primeiro a vencê-la em caso de triunfo dos Spurs. O posto é ocupado por McDonald Mariga, campeão pela Internazionale em 2010, reserva na finalíssima contra o Bayern, lembra dele?

Quer saber o que é ainda mais curioso? Eles são irmãos!

Acredite se quiser, aparentemente o talento futebolístico no Quênia é passado pelo sangue, e a família Wanyama também tem fortes laços não só com o futebol mas com o esporte. O pai dos dois volantes, Noah Wanyama, foi jogador do AFC Leopards (onde Victor também jogou na juventude), arquirrival do Gor Mahia e também um dos maiores clubes do Quênia. Atuando como ponta-esquerda, fez carreira entre os anos 60 e 80 e foi mais tarde treinador e dirigente do clube, além de ter defendido também a seleção queniana. Os filhos de Noah, Thomas e Sylvester Wanyama, são também jogadores profissionais na Kenyan Premier League, tendo o primeiro inclusive disputado duas partidas pela seleção. Eles ainda têm uma irmã, Mercy, que é jogadora de basquete universitário.

Os dois irmãos Wanyama de maior sucesso, Victor e Mariga, chegaram a estar juntos na Suécia em 2007, quando o mais jovem (Victor tem 27 e Mariga 31) se juntou ao irmão no tradicional Helsingborgs. Contudo, essa aventura durou pouco com a saída de Mariga para o Parma no ano seguinte (o que culminou com a volta de Victor para o Quênia), onde se destacou, chegando pouco depois à Internazionale de José Mourinho e tornando-se o primeiro queniano da história a disputar a Champions League, levantando a cobiçada orelhuda em 2010.

Sua carreira acabou entrando em um certo declínio, tendo sido prejudicado por lesões num momento delicado, e ele passaria ainda por empréstimo pela Real Sociedad, novamente pelo Parma e pelo Latina Calcio. Mais recentemente atuou no Real Oviedo na segunda divisão espanhola em 2017-18 e atualmente está sem clube.

Mariga foi o primeiro queniano a fazer história na Champions League.

Nove anos depois, a UEFA Champions League voltará a ter sangue queniano na disputa final pelo mais importante troféu do futebol europeu, desta vez em dose dupla. É um feito enorme para um país de aspirações tão modestas no âmbito futebolístico e os fãs de futebol no país estão absolutamente orgulhosos.

Para quem irão torcer na final é um mistério, com um certo favoritismo provavelmente pesando para o lado do capitão Wanyama, mas é certo que não importando o resultado, haverá festa para os africanos.

Wanyama’s e Origi’s, as duas famílias mais proeminentes da história do futebol no Quênia, irão se enfrentar no dia 1° de junho, para escrever mais uma vez uma linda página na história do futebol no país.

E aqui um bônus: se você se interessou pelo futebol queniano após ler esse texto, ou simplesmente é um pouco doido mesmo, como eu, você pode assistir a liga local totalmente de graça e ao vivo! Algumas partidas da Liga são eventualmente transmitidas no Facebook oficial da competição. Recentemente, o próprio dérbi entre Gor Mahia e Leopards recebeu essa cobertura online, então basta seguir e ficar ligado pra quando rolar algum jogo!

Postado por Bernardo Dornela 18 anos, nascido e criado em Belo Horizonte e atleticano desde o berço. Com o tempo tornou-se também um fã do Liverpool e do Portimonense, de Portugal. Apaixonado por tudo que há de alternativo no futebol, em especial o praticado nos países nórdicos.