Um grande nome dos bastidores do futebol brasileiro – João Henrique Areias
23 de julho de 2018
Categoria: 4-3-3 e Entrevistas

 

Copa União, Clube dos Treze, campeonato por pontos corridos, empresa com o Pelé, João Henrique Areias tem uma história vasta na história do futebol brasileiro, tendo participado de muitos dos principais eventos da linha do tempo do nosso esporte. Associado e apoiador da gestão no Flamengo, João fala muito sobre seu clube do coração e a forma de se fazer futebol no Brasil, a entrevista ficou tão rica que adicionamos áudios dele em duas respostas!

Confira na íntegra:

1. De primeira, a Copa União poderia ser uma espécie de Premier League brasileira ao invés de ser motivo de um asterisco no título do Flamengo?

Sim, é verdade. Tivemos a chance de ter uma liga assim no Brasil antes da Europa, foi o primeiro evento esportivo oficial brasileiro bancado pela iniciativa privada. Infelizmente o modelo de gestão, que é o grande problema que nós temos aqui no país, foi o impeditivo para que isso acontecesse. Alguns clubes também voltaram a se aliar com a CBF e o movimento acabou se enfraquecendo em função disso.

2. A primeira liga prometeu ser a evolução das competições no país mas com o tempo acabou perdendo força, porque a “nova copa União” também deu errado?

Eu participei indiretamente, entretanto, oque problema ali não foge do problema principal: a falta de conjunto. Como no segundo ano da Copa União, onde houve dissidência de algumas agremiações, na primeira liga foi a mesma coisa. Falta profissionalismo aos clubes, responsabilidade aos dirigentes. Um dirigente tem autoridade, mas não responsabilidade, se ele deixa o clube devendo, por exemplo, não sai nada do bolso dele. Enquanto não mudar o modelo de fazer futebol por aqui, que é o mesmo desde os anos 70 e 80, continuaremos discutindo problemas como este.

Há duas de fazer esta mudança, uma delas é a forma como o Flamengo tem feito. Na gestão Bandeira, o estatuto do clube foi mudado e hoje se assemelha ao do Real Madrid, por exemplo. Os dirigentes voluntários foram colocados em uma espécie de conselho de gestor, cuidando do nível estratégico da entidade. O Fred Luz chegou para ser o CEO do clube e abaixo dele os diretores profissionais, dessa forma o clube carioca deu uma reviravolta na sua situação econômica e hoje já começa a colher os frutos dentro de campo também.

Antigamente os clubes lidavam com apenas dois players, o torcedor e o sócio do clube. Com a entrada da TV e dos anunciantes, era necessária a profissionalização dos dirigentes brasileiros

A outra forma seria o governo exigir o pagamento dos impostos aos clubes, são dívidas impagáveis. Desta forma o governo poderia impor que o refinanciamento da mesma, só aconteceria mediante a condição de uma mudança de modelo de gestão (risos).

3. Você esteve presente em dois momentos antagônicos do Flamengo, dos anos em que quase foi rebaixado até a eleição da chapa que vem sanando os problemas do rubro negro. Afinal, quais eram os reais problemas do clube no começo deste século?

Foi o que eu falei antes, o Bandeira por exemplo, abriu mão dos poderes dele em prol de uma boa gestão. Porque é muito difícil, quando o cara se elege, tem a caneta e o papel, o estatuto dizendo que é ele quem precisa assinar o cheque, os contratos…

Eu já vi muito dirigente prometendo que iria profissionalizar o clube, e chegando na hora dando para trás com o argumento de “o responsável sou eu, então eu que vou decidir”. O Flamengo mudou muito, esse é o grande desafio das entidades em geral, mudar essa cultura.

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Bandeira vem sendo um ponto fora da curva.

4. Em 1994, você assessorava os jogadores que foram tetra campeões do mundo nos EUA. Afinal, faz mesmo diferença a preparação da equipe ser mais aberta ou fechada para o público/imprensa? Quanto pesa um clima de oba oba dentro de um plantel na sua visão?

Trinta anos de futebol me dão ao menos o direito de dar um palpite nessa área, né (risos). Em 94 havia um grupo que se chamava “Os dinos”, formado pelos jogadores que sofreram a eliminação de quatro anos antes. Tinha o Gilmar, que acabou não sendo convocado, mas era parte do grupo, Dunga, Branco, Romário e Ricardo Rocha. Essa experiência deu a eles uma liderança natural dentro do grupo, sem desrespeitar a liderança de jogadores como o Jorginho. Houve uma sinergia muito grande entre eles, foi fundamental esse espírito de grupo, o próprio Gilmar Rinaldi deu um depoimento no meu livro “Uma Bela Jogada” citando esse fator.

O álbum de figurinhas por exemplo, tinha espaço para apenas 17 jogadores, na negociação com a Panini e outras empresas do ramo, demos nossa condição: ou apareciam os 23, ou ninguém aparecia. Com a Brahma foi a mesma coisa, essa campanha do “Número 1” que se repetiu em 2018, naquela época a empresa só tinha fechado com os atacantes do time, convencemos eles a fechar com praticamente todo o resto do plantel, a Brahma ajudou muito fora de campo.

Então, acredito que seja importante ter um relacionamento com o público e a imprensa de forma organizada, mas sem o oba – oba.

5. Hoje em dia é cada vez mais raro ver alguém pedir a volta do mata-mata no Brasileirão. Como um dos que lutou pela mudança, você pode afirmar que enfim o brasileiro entendeu e reconheceu a superioridade do formato? A mudança veio tarde?

Eu participei da quebra de dois tabus, em 1987 foi a primeira vez que uma emissora de TV transmitiu ao vivo todo o campeonato brasileiro. Antes disso só se vendia a final do campeonato, quando o estádio esgotava, os dirigentes tinham medo da TV, achavam que tirava público do estádio, não gostavam.  Pra se ter ideia, quando trouxemos o contrato da TV Globo viabilizando a Copa União, eu ouvi o Altemar Dutra de Castilho, presidente do Botafogo na época, falar que “não se venderia para a televisão”. Também ouvi um sonoro “quebro, mas não envergo” do presidente do Internacional, o já falecido Gilberto Medeiros.

Eu particularmente até prefiro mata-mata, é muito mais emocionante, porém é inviável que um clube não esteja em atividade na maior parte do ano. Nós fizemos a proposta em 2002, eu morava em Madrid e fui convidado para defender duas teses: o formato de pontos corridos e a mudança do calendário, se adequando ao da Europa. As duas foram aprovadas por unanimidade. No ano seguinte, a TV Globo argumentou que a mudança no calendário iria prejudicar ela, que é a maior financiadora do nosso futebol. O pedido foi acatado pela CBF.

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O Brasileirão passou por mudanças e, ainda necessita delas.

6. Essa questão do calendário perdura desde então…

7. O clube dos 13 se dissolveu faz alguns anos. Sendo ativo por vários anos em diversos setores do futebol, qual era o objetivo central do clube dos 13? Da pra dizer que a missão foi cumprida de alguma maneira?

8. Você foi sócio da Pelé Sports e Marketing, empresa criada pelo Rei na década de 90. O negócio foi dissolvido posteriormente, em meio a certa polêmica. Como conhecedor do caso, porque não deu certo?

Eu realmente ajudei a criar a Pelé Sports, mas depois de um ano e meio na empresa, eu acabei saindo. O que aconteceu foi simples, não havia concordância entre o Hélio Viana e eu, não havia mais condições de trabalhar com ele, tínhamos pensamentos muito diferentes. Convoquei uma reunião com o Pelé e o Hélio e expus tudo, devolvi minha parte da empresa. Depois houveram aqueles problemas na justiça entre o próprio Pelé e o Hélio.

Entretanto, tenho uma boa relação com o Rei, ele inclusive deu um belo depoimento no meu livro, sempre que nos encontramos ele é carinhoso comigo, com o Hélio acredito que ele nunca mais tenha voltado a falar.

9.Fairplay financeiro, consciência de orçamento, foco na gestão, é certo dizer que alguns clubes brasileiros estão enfim se organizando para o esporte? Em alguns anos a liga brasileira poderá ser mais relevante mundialmente

Não sei se isso acontecerá rapidamente, o Flamengo vem dando um belo exemplo, torço para que este modelo continue. Inclusive terá eleição este ano no clube carioca. O Palmeiras é muito elogiado também mas eu não conheço, talvez ali tenha algo um pouco mais pessoal da presidente da Crefisa (Leila), tenho um pouco de medo desse tipo de parceria, confesso. Fluminense com a Unimed e Palmeiras com a Parmalat não terminaram muito bem.

Se o Flamengo tiver dentro de campo os resultados que vem tendo fora dele, os outros serão forçados a se organizarem, espero que isso aconteça.

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Um novo horizonte para o esporte.

10.Hoje, quais são os nomes que para você, se destacam entre os cargos de gerência do futebol pelo país? Porque?

É uma pergunta complicada, existem bons gestores mas não vou nominar ninguém agora porque eles tem uma dificuldade enorme, que é trabalhar com uma grande ingerência do dirigente voluntário, ou seja, o modelo continua sendo o antigo. O Rodrigo Caetano por exemplo, o Bandeira e o Fred Luz gostavam muito dele, por eles acredito que ele nem teria saído. Eu como torcedor não vi uma identificação grande do Rodrigo com o Flamengo, então é preciso conhecer bem a entidade.

Eu trabalhei com todos os clubes do futebol brasileiro na época do clube dos 13, trabalhei também com federações. É um mundo muito diferente, é preciso chegar, entender e ouvir para chegar bem.

11.Obrigado pela atenção e disponibilidade, faça suas considerações finais!

Eu que agradeço pelo espaço, queria dizer que eu estou lançando agora a nova academia de gestão e marketing esportivo, junto a cursos e especializações que estão todas disponíveis no meu site (www.jhareias.com.br), mais uma vez obrigado!

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.