• Um especialista em Copas do Mundo – Lycio Vellozo Ribas
    16 de Maio de 2018
    Categoria: Entrevistas

     

    As Copas do Mundo sempre foram fontes de curiosidades, casos históricos e grandes momentos do futebol. Lycio, como um bom fã do esporte, é apaixonado pelo torneio. Autor de alguns livros que contam detalhadamente a história escrita por este campeonato, o jornalista virou especialista no assunto. Novo regulamento, introdução do VAR e seleções históricas, conversamos com ele sobre diversos temas relacionados ao maior torneio da modalidade.

    Confira na íntegra:

    1. Qual foi a sua inspiração para escrever sobre Copas do mundo? De onde nasceu essa paixão pelo torneio?

    Minha paixão começou em 1982, com a Copa na Espanha em que tínhamos uma seleção brasileira com craques sensacionais – destaco Zico, Falcão, Sócrates e Júnior. A partir dali, comecei a juntar coisas de Copas do Mundo. Mas só comecei a escrever de verdade em 1998, quando era jornalista recém-formado e tinha que editar material sobre a Copa da França. Em 2004, minha esposa me incentivou a escrever um livro sobre Mundiais. Mas esse ‘O Livro de Ouro das Copas’ eu só comecei em 2016. Levei dois anos para digerir aquele 7 a 1 que o Brasil levou em 2014.

    2. Principalmente nas primeiras edições, as Copas eram pouco documentadas e consequentemente, se sabe pouco sobre os jogos, como foi o trabalho de pesquisa com essas dificuldades?

    Foi mais complicado, exatamente por conta da falta de detalhes, a maneira pela qual saíram gols, ou coisas mais relevantes, como a defesa de um pênalti. No livro, precisei desenhar um gol de Giuseppe Meazza na Copa de 1934 que não tinha registro em audiovisual. As três primeiras Copas foram difíceis até para identificar jogadores, já que eles não usavam números nas camisas ainda, e as fontes às vezes falavam coisas diferentes. Tem um jogo de 1930, entre Argentina e México, no qual o árbitro teria marcado cinco pênaltis. Mas só um gol de pênalti foi marcado. Foi difícil de saber certinho o que houve, um jornalista do México que me esclareceu: não havia marca de cal e as cobranças foram feitas fora da distância correta (11 metros), então tem gente que não considera pênalti. No geral, a mais difícil foi a de 1934. A de 1930 eu consegui muitas coisas ao fazer uma viagem para o Uruguai, e na de 1938 já tinha mais coisa. Para documentar 1950, fui ajudado por um exemplar da Gazeta Esportiva com todos os jogos da Copa,  a partir desta edição, já foi mais fácil.

    3. Para você, qual é o valor do revisionismo histórico no futebol? Visto que a própria FIFA revisou algumas súmulas e acabou realizando alterações nas seleções ideais. O quão importante é rever e reanalisar a historia que foi contada no maior torneio do esporte?

    Em certos aspectos, acho bom, tudo que puder dar mais precisão aos fatos é bem-vindo. Mas acho estranho quando o assunto são as seleções ideais, será que a Fifa reviu todos os jogos para mudar de opinião? Será que reviu inclusive aqueles que não têm imagens? No livro, das Copas que vi, mantenho os times que achei os ideais e apenas cito os da Fifa.

    4. Houveram seleções lendárias que não venceram o caneco, Brasil de 82, Holanda em 74, Hungria de 54. Na sua análise, qual foi o melhor time que não venceu uma Copa e porque?

    Hungria de 1954, principalmente por conta da sequência de jogos que ostentava antes da Copa, eram quatro anos de invencibilidade e 23 vitórias em 27 jogos disputados. Além disso, a equipe trazia inovações para a época, como treinos diferenciados e o aquecimento antes dos jogos, muito comum hoje, mas inexistente até então. Trago isso no livro, citando 10 grandes seleções que poderiam ter sido campeãs e não foram e detalhando o que houve com elas. Tem algumas indiscutíveis, como Hungria de 1954 e Holanda de 1974, e algumas controversas, como Inglaterra de 2006 ou Iugoslávia de 1994.

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    O livro relata diversas situações em Copas do Mundo.

    5. As Copas do mundo também são meios de popularizar novas medidas, como os cartões, que hoje são essenciais. Como você vê a introdução do VAR no torneio?

    Pode ser que faça algum mal ao espetáculo, por causa daquele tempinho de espera nos momentos cruciais. Mas acho que fará bem para a arbitragem. É sempre importante que cada decisão de árbitro seja o mais correta possível.

    6. Você também é autor de outras obras que falam das Copas, quais são os seus projetos para o futuro? Está trabalhando em um novo livro?

    Cheguei a fazer um livro apenas da Copa de 2014, que foi bastante peculiar, e não apenas por causa do 7 a 1. Mas ainda não pensei em publicar. Penso em fazer um livro da Copa Libertadores, mais ou menos nos moldes de ‘O Livro de Ouro das Copas’.

    7. A Copa do Mundo sempre foi o evento mor do esporte, entretanto, há algumas pessoas que já afirmam que a Uefa Champions League tomou ou poderá tomar este posto, a competição a cada dia que passa, ganha mais alcance e audiência. É uma tendência a se levar em conta? A Copa tem seu trono ameaçado?

    A UCL tem a vantagem de reunir praticamente os melhores jogadores do mundo todos os anos, vem ganhando relevância no Brasil por isso, e porque os times brasileiros perdem os craques para a Europa. Mas não vejo a Copa do Mundo ameaçada, é um torneio bem mais curto, no qual não se pode errar e é mais global, temos mais identificação. Hoje as crianças brasileiras gostam do Real Madrid, Barcelona ou do PSG em razão do que mostram na Champions,  mas não vão preferir a Espanha ou a França ao Brasil em função disso. Além de que, a Copa é uma máquina de fazer lendas bem maior que a Uefa Champions League, se considerássemos apenas a Champions, ninguém cogitaria a ideia de Maradona ter sido um craque tão grande ou maior que Messi.

    8. Nos primórdios, o torneio era disputado por pouquíssimas seleções, hoje em dia já são 32 nações divididas em diversos grupos. Para as próximas copas, este número deve aumentar, como você enxerga essas alterações?

    32 equipes é o número ideal, a fórmula de disputa está perfeita. Pelo que a Fifa quer (16 grupos de 3 times cada, com dois se classificado à fase seguinte), pelo menos 32 seleções ficariam um intervalo muito grande de tempo sem jogar. Isso ocorreu e 1982 e foi motivo de chiadeira (do Brasil inclusive). Além disso, 48 seleções é muita coisa, mas sabemos que as questões políticas mandam na Fifa.

    9. A Alemanha é a seleção que mais vezes chegou à final e entre os 4 melhores colocados, apesar de ter 2 copas a menos, jogou mais jogos que o Brasil no torneio, além de possuir o maior artilheiro da historia da competição. É plausível dizer que a Alemanha é uma seleção do mesmo tamanho do Brasil mesmo com um título a menos?

    Muitos brasileiros podem rechaçar esse raciocínio, mas ele é plausível, sim. Principalmente nos tempos mais recentes, em que os alemães somam quatro semifinais seguidas – algo que o Brasil nunca conseguiu. Em Copas, na média, a eficiência alemã é maior que a brasileira. A Alemanha, por exemplo, só caiu na primeira fase uma vez (em 1938), já o Brasil tem três quedas precoces (1930, 1934 e 1966). Nas Copas em que ambos participaram, eles tiveram campanha melhor que os brasileiros em 10 delas (1934, 1954, 1966, 1974, 1982, 1986, 1990, 2006, 2010 e 2014). Os alemães fizeram até mais gols que os brasileiros (224 a 221) no torneio. O currículo alemão está bem próximo do Brasil e bem acima da Itália, outra tetracampeã.

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    Alemanha tem um peso gigantesco na história da competição.

    10. Obrigado pela atenção dada a nós, faça suas considerações finais!

    Espero que as pessoas gostem do livro na mesma medida que eu gostei de fazê-lo, grande abraço a todos.

    Postado por Renan Castro Jovem de 22 anos, formando em administração, torcedor do Flamengo, natural do Rio de Janeiro e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.