Um café e um livro sobre futebol, por favor! – Bruno Rodrigues
20 de dezembro de 2017
Categoria: Entrevistas

“Acho que o café é uma desculpa para pararmos o que estamos fazendo e começarmos uma boa leitura sobre futebol. Uma xícara ou caneca de café combina com um livro futebolístico”. É assim que Bruno Rodrigues explica a escolha pelo nome do seu blog na plataforma Medium, o Futebol Café. Jornalista formado pela PUC-SP em 2013, Bruno foi estagiário do Diário LANCE!, onde atuou como setorista do São Paulo Futebol Clube durante dois anos e desde então vem prestando serviços como freelancer para diversos veículos, como Globoesporte.com, IG Esporte, Trivela, Placar, Rede Globo, MSN, entre outros, nacionais e internacionais – você pode conferir alguns de seus trabalhos clicando aqui – além de escrever o blog.

Assim como a maioria dos torcedores ao redor do mundo, Bruno também tem na intervenção paterna a maior parcela de responsabilidade no gosto pelo futebol. “Se sou apaixonado por futebol, devo isso ao meu pai. Foi ele que me levou ao estádio, que me incutiu a vontade de jogar, de assistir e de saber sobre futebol. Então devo muito a ele essa iniciação”, conta o jornalista de 24 anos, que aponta o amor pelo esporte como o fator de influência decisivo na escolha de sua formação e consequente carreira profissional. “Claro, como todos, comecei como torcedor. Mas ao longo dos anos fui desenvolvendo um verdadeiro amor pelo esporte e por vários de seus aspectos, o que fez com que eu escolhesse o Jornalismo como carreira. Confesso que não sou jornalista por amor à profissão, sou por amor ao futebol. O Jornalismo Esportivo, portanto, foi o caminho natural. Aprendi também a gostar de jornalismo, mas em primeiro lugar vem o amor pelo futebol e suas histórias”.

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O ano de 2000 foi marcante para o jornalista, que agora começava a acompanhar o futebol com outros olhos, com mais fervor. Foi também uma época de vacas gordas para o Boca Juniors, clube argentino que empilhou algumas taças importantes entre 2000 e 2003, conquistando assim o apreço de Bruno, não só pelo clube, mas pela cultura futebolística em terras hermanas. “A paixão por futebol argentino vem de quando comecei a acompanhar futebol com mais afinco, no início dos anos 2000. Naquela época, o Boca Juniors era uma máquina e faturou três Copas Libertadores e dois Mundiais entre 2000 e 2003. Com esse sucesso, o Boca de certa forma virou a cara do futebol argentino para mim. E desde então passei a acompanhar mais, a me interessar por outros clubes, pelos jogadores (muitos deles fazendo sucesso na Europa, como Verón, Claudio López, Batistuta, Hernán Crespo, o próprio Riquelme). O futebol argentino me encanta”.

A paixão pelo futebol argentino faz com que Bruno consiga não só acompanhar, mas também refletir sobre as grandes diferenças entre o nosso futebol e o esporte praticado nos campos argentinos, bem como das diferenças e semelhanças culturais que acabam sendo refletidas nos estádios e nas torcidas. “Acho que temos na parte negativa muitas coisas em comum, como o êxodo de jovens talentosos, a violência no futebol, corrupção na federação e nos clubes. Uma diferença entre nós e eles é que, na minha opinião, os argentinos sentem o futebol de forma distinta, especial. Eles são tão fanáticos quanto nós na hora de torcer, mas o ato de torcer carrega um sentimento diferente. Mexe com o dia a dia do argentino, com a vida dele. O argentino é muito passional e dramático e essa característica é levada para o futebol. Fora o espetáculo nos estádios, que infelizmente vemos cada vez menos por aqui.”

Matéria escrita por Bruno para a revista chilena De Cabeza.

Quanto ao blog, a ideia de escrever sobre a literatura produzida em cima do futebol parece ser muito original, o que, de fato, é. No período em que esteve desempregado, Bruno decidiu levar a sério a ideia que já carregava há um tempo e assim deu início ao Futebol Café. No entanto, ele conta que tudo começou bem antes, ainda em 2014, quando escreveu uma matéria sobre alguns projetos de jornalismo impresso para o extinto Impedimento, que hoje ainda atua, não mais como site, mas como um perfil sobre futebol nas redes sociais. “Fiz um freela para eles (Impedimento) em 2014 e sugeri escrever uma matéria falando sobre projetos de jornalismo impresso que estavam surgindo ou que já estavam em curso há algum tempo. Eles gostaram, me incentivaram a ir atrás e pude publicar dois textos, nos quais entrevistei os editores de algumas revistas para que falassem sobre esses projetos.”

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Tocar o projeto do blog exige de Bruno muito tempo, dedicação e trabalho duro, até porque não dispõe de uma equipe para dividir as tarefas. É apenas ele e, por vezes, sua namorada, que dá aquela mãozinha com montagens, logos e as demais partes gráficas do site. Já o trabalho de leitura, pesquisa e escrita recai todo sobre Bruno. “Eu brinco que sou CEO, editor, repórter, social media e faxineiro. Toco o Futebol Café sozinho, os textos são todos meus. A pesquisa surge basicamente do que eu leio, do que acompanho nas redes sociais – foi por meio delas que cheguei a muitos dos projetos que conheci”. Contudo, não descarta a possibilidade de abrir o site para futuras colaborações. “Seria legal contar com mais gente que topasse fazer parte do projeto, até para aliviar um pouco a minha obrigação de estar sempre postando, mas ao menos nesse início eu queria cuidar de tudo, dos detalhes, da forma como os textos são feitos, etc. Sou bastante chato com essas coisas, mas vejo que mais para frente o blog poderá ter gente colaborando.”

Além das dificuldades de pessoal, Bruno também aponta a falta de hábito para leitura do brasileiro como um dos problemas que, se não impedem o crescimento do site, conseguem ao menos atrasá-lo. “Infelizmente, escrevo para um público muito restrito. A leitura sobre futebol, especialmente a leitura mais longa, não é um hábito nosso, do brasileiro. Em geral, o torcedor está preocupado apenas com as notícias do seu clube, com o nome da próxima contratação, com quem está apto para jogar a próxima partida. Aliás, não é um problema só do futebol. Sabemos que o brasileiro não tem o hábito de ler, seja lá o que for. Então é muito complicado nesse sentido. Escrevo para pouca gente, consequentemente tenho menos visualizações e menos chance de o trabalho ser difundido”, conta Bruno, que ainda assim, não se deixa desanimar com o projeto. “Mas não posso reclamar. O retorno tem sido bem legal. Mais do que muita gente lendo, eu gostaria de ter muita gente comentando, discutindo, sugerindo. A interação dos leitores é o que mais busco e é o que enriquece de verdade o trabalho.”

O site contém uma coletânea com várias revistas sobre futebol que são disponibilizadas de forma gratuita mundo afora.

Para os que já acompanham o trabalho de Bruno no Futebol Café, e também para os que irão passar a acompanhar, o ano de 2018 promete ser especial em termos de novos projetos dentro do site. Quando perguntado sobre os planos para o futuro do blog, Bruno afirma: “O que eu sei é que quero ver o blog crescendo. Talvez criando outros projetos a partir dele ou me juntando mais a outros projetos independentes de conteúdo futebolístico. Uma pequena revista impressa está na pauta, pode ser uma novidade para 2018.”

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Não poderíamos deixar a oportunidade passar e pedimos para o autor do Futebol Café uma lista de seus livros favoritos e você pode conferir o resultado, bem como a opinião do autor sobre as recomendações logo abaixo:

O Negro no Futebol Brasileiro – do Mario Filho, é uma obra essencial para entender os inícios do futebol no Brasil e como a questão racial foi tratada desde esses inícios, com times que não aceitavam negros, outros que começaram a escalar jogadores negros em seus quadros, a relação entre a mestiçagem e a culpa pela derrota em 1950, o ‘Maracanazo’. É literatura básica para quem quer compreender o nosso futebol como um todo.

Guardiola Confidencial – Digo que esse livro, do espanhol Martí Perarnau, é o sonho de qualquer jornalista: acesso total a uma das mentes mais brilhantes da história do futebol. Guardiola permitiu que Perarnau descrevesse com detalhes sua primeira temporada no Bayern de Munique. E o autor se aproveitou bem dessa liberdade, entregando um relato muito detalhado de como Guardiola pensa o futebol, a vida, como ele age, como ele treina. Até então ele era um mistério, pois só o conhecíamos de vê-lo no campo, nos jogos. Com “Guardiola Confidencial”, conseguimos conhecê-lo mais de perto, inclusive suas fraquezas e seus erros.

Livro sobre Guardiola é um dos preferidos de Bruno Rodrigues

Futebol Contra o Inimigo – de Simon Kuper, é outro livro fantástico de futebol, mas que infelizmente não temos em português. Tive acesso a ele em espanhol e é um livro-reportagem que marca um antes e depois em literatura esportiva, pela qualidade dos relatos, o trabalho de investigação e de entrevistas do autor… Espero que algum dia tenhamos ele em português, para que mais pessoas tenham acesso ao livro.

Febre de Bola – do Nick Hornby, é outro livro que todo fã de futebol deveria ler. Ele fala direto com o torcedor, e o torcedor diretamente se identifica com ele. Hornby é um fanático pelo Arsenal e conta como sua vida foi sempre pontuada por jogos do Arsenal misturados a acontecimentos pessoais. Por exemplo, associando uma namorada a uma determinada época ou jogo dos Gunners, entre outros casos. E temos esse livro em português, o que é ótimo.

Gostaríamos de agradecer a disponibilidade e atenção com as quais o Bruno nos atendeu, desde a solicitação da entrevista até as respostas e demais detalhes. Foi uma ótima experiência poder conversar com a cabeça por trás de um projeto tão diferente e único como o Futebol Café. Que possamos estar sempre lendo mais e mais, e claro, sempre com aquele café por perto, se possível.

Postado por André Oliveira Estudante de História, torcedor são-paulino, clubista e corneteiro.