Um “brazilian coach” na Europa – Gil Paulista
8 de fevereiro de 2017
Categoria: Entrevistas

Cria da base da Portuguesa, o atacante Gil Paulista rodou bastante no futebol. Francana, Corinthians Prudente, Canoas (RS), Olhanenses, Mahindra &Mahindra (Índia), União de Mogi, onde fez dupla com o pai de Neymar, e, por último, o Lages Esporte Clube, de Santa Catarina. Sua carreira dentro dos gramados seria excelente para escrevermos no Longe dos Holofotes, outra seção do site. Porém, o que chama atenção é a “segunda parte” de sua trajetória no futebol: a de técnico.

Isso por que, ao contrário da maioria dos profissionais do país, Gil já começou na Europa. Tudo aconteceu depois de um torneio sub-17, na África do Sul, onde comandou a equipe de uma ONG brasileira. Com o título e o bom trabalho, contatos surgiram e ele foi parar no Metalurg Zaporizhzhya, da Ucrânia, onde trabalhou com garotos entre oito e dezesseis anos de idade. Porém, não demorou muito para que as portas se abrissem para uma carreira profissional:

“Logo depois, antes da pausa de inverno, fui chamado pela direção da base, dizendo que o dono do time pediu a minha transferência para o time principal. Ali verdadeiramente começou minha carreira profissional. Como já conhecia alguns garotos, levei comigo Eduard Sobol, na época com 15 anos, por conhecer o jogador. Disputávamos a segunda divisão 2011/12, onde ele foi entrando aos poucos e terminou a competição como titular, fazendo, inclusive, gol na partida do acesso a primeira divisão. Não demorou a ser vendido ao Shakhtar Donetsk. Hoje é o titular absoluto da seleção principal da Ucrânia.”

Gil e Eduard Sobol, seu pupilo que hoje é titular da seleção ucraniana.

Cada vez mais a vontade com a posição de assistente e interessado por evoluir ainda mais, o brasileiro resolveu fazer o curso de treinadores da UEFA, visando se preparar para, num futuro próximo, assumir clubes como principal profissional. Além da facilidade por morar no continente, reconhece a falta de atrativos nos cursos do Brasil justamente por não serem reconhecidos na Europa:

“A opção pelo curso UEFA é por ser um curso que te credencia a trabalhar em qualquer lugar do planeta. Sobre os cursos do Brasil, vejo que tem muita qualidade, principalmente os ministrados pela CBF, o ponto crucial é que estes cursos hoje não são reconhecidos na Europa. Até já existe um movimento da entidade para que no futuro possa ser”

Além do curso de preparação técnica, tática e psicológica de um clube, é claro que um profissional brasileiro que tem o interesse de trabalhar no “melhor futebol do mundo” tem de buscar a fluência em idiomas “básicos”, como o espanhol e o inglês. Gil crê que essa busca dependa única e exclusivamente do profissional e analisa como necessários ao menos dois idiomas. Ele, por exemplo, fala inglês, espanhol e russo.

Primeiro brasileiro a trabalhar na primeira divisão ucraniana, Gil permaneceu como auxiliar do Metalurg por cinco temporadas. Durante esse período, tentou retomar o prestígio que profissionais do Brasil tinham tempos atrás. “O resultado da Copa de 2014 fez com que os clubes optassem por treinadores europeus”, destaca o técnico.

No Metalurg, brasileiro foi pioneiro no país ucraniano.

Mantendo contato com o mundo árabe, Gil conta que por lá as coisas também mudaram muito, afinal, o mercado do futebol é reflexo do momento. Se outrora 90% dos times do oriente tinham técnicos brasileiros, hoje são os europeus que dominam o cenário por lá, principalmente portugueses, atuais campeões da Eurocopa. (Luis Antonio Zaluar falou sobre a realidade brasileira no oriente, confira clicando aqui)


“Com o Brasil campeão olímpico e com o inicio arrasador de Tite a frente da seleção, vejo que o olhar aos poucos vai mudando. Assim como o respeito. Além disso, observo uma safra rica de jovens treinadores no Brasil (com resultado), isso me alegra muito e me faz acreditar que logo teremos o treinador brasileiro em destaque no cenário mundial”

Os problemas para que brasileiros despontem são inúmeros, segundo o treinador. Um deles, principalmente, é a “facilidade” de ser técnico em terras tupiniquins. “Se não me engano é o único lugar do mundo que não precisa de diploma para exercer de fato a profissão”, destaca Gil Paulista.
Por conta dessa falta de profissionalização, é difícil para os europeus enxergarem o técnico brasileiro como um dos melhores no futuro. Apesar disso, Gil acredita em nomes como Jair Ventura e Roger Machado, por exemplo. Segundo ele, o que falta é mesmo a busca por conhecimento.


“Os cursos da UEFA estão aí, creio que quem quer, investe e faz. No meu grupo de 25, tínhamos gente do Brasil, da Tunísia e da Nigéria. Tem em todos os países europeus. Vejo que o que implica é o tempo: são quatro anos estudando”.

Apesar do “conselho” de que procurem os cursos da Europa, Gil tem consciência de que, mesmo no Brasil, é possível se capacitar. Segundo ele, alguns amigos falam muito bem dos cursos da CBF. O que pesa, no entanto, é a diferença de realidades dentro do futebol. “Aqui se respira tática e estratégia”, conta o brasileiro para destacar que, além dos treinadores, os jovens atletas também são educados nesse sentido.

“Os cursos da UEFA abrangem tudo. Administração, montagem de elenco, contratação de profissionais, medicina esportiva, marketing, tática, técnica, com fazer uma boa pré temporada, treinamentos adequados, administrar pessoas, campo de jogo e campo físico. O treinador aqui é manager. Quando é contratado, praticamente recebe o clube em suas mãos. No período em que permanece, fica responsável por administrar com zelo desde a saúde financeira até os resultados finais”.

Agora técnico, Gil já teve experiências no Brasil e no “mundo árabe”.

Preparado e cada vez mais pronto para ser um técnico de futebol, o brasileiro que fez o “caminho inverso” agora busca por oportunidades, até mesmo no Brasil. Depois dos primeiros trabalhos como principal treinador no Osvaldo Cruz e no Gizan, da Arábia Saudita, Gil Paulista segue estudando para o seu próximo desafio, quem sabe em um grande clube.

Brasileiro, Gil não teve medo de se arriscar na Europa. Tudo isso visando um só objetivo: se tornar um excelente profissional.

Postado por Andrew Sousa Formando-se em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.