Um boleiro estudioso – Tiago Real
8 de novembro de 2018
Categoria: 4-3-3 e Entrevistas

 

Poucos são os jogadores de futebol que fogem do estereótipo “boleiro”: Religiosos, ativos nas redes sociais e sempre com roupas novas, para ficar “bem na foto”. Contudo, atletas de personalidade e opiniões fortes, como Paulo André, Zé Elias e Alex tem ganhado espaço com o passar dos anos, por uma variedade de razões.

Numa mistura de “boleiro” com “estudioso”, Tiago Real do Prado aparece como uma possível referência. Apenas Tiago Real nas escalações da Ponte Preta, o meia-armador teve uma carreira sólida em clubes do Brasil, participando de vários Campeonatos Estaduais e as Séries A, B e C desde 2009, quando iniciou sua carreira no Coritiba. Com o passar do tempo, foi percebendo como a vida de jogador no Brasil pode trazer muitas dificuldades sem o cuidado apropriado. E com base nisso, buscou conhecimento, estudou, pediu ajuda e hoje cuida de suas próprias finanças com segurança e abriu até uma empresa para ajudar os atletas, fazendo uma assessoria integrada, que ele explicou com detalhes nessa entrevista, tudo isso sem perder o foco nos gramados.

Este que vos escreve teve a oportunidade de conhecer o atleta em um simpósio em Campinas, e posteriormente conversou com Tiago sobre vários assuntos, que você confere na íntegra a seguir:

Você nasceu em Curitiba, em 1989, hoje já tem 29 anos. Quais são as suas primeiras lembranças como criança? Quais delas eram ligadas ao futebol?

Cara, tenho muitas lembranças de ir com meu pai para o futebol dele de final de semana… E com o tempo passando, eu crescendo, ia entrando nas peladas dele aos poucos… Essas lembranças sempre foram muito vivas pra mim! Tirando o futebol, me lembro muito do meu convívio com avós maternos. Praticamente cresci com eles, pois meu pai e minha mãe tinham que trabalhar e eu ficava com eles.

Como era o Tiago na escola? Você ia bem ou aprontava como todo mundo? (risos)

Então… até entrar no futebol pra valer (entrei na categoria de base do Coxa com 12 anos) eu era top 3 na classe. Depois do futebol, talvez tenha relaxado ou perdido o foco total na escola e derrapei um pouco, mas continuei estudando até concluir o ensino médio. Ah, e sempre gostei de uma bagunça viu… Gostava de ficar com a turma do fundão hahaha!

Estive com Tiago Real no Simpósio Nacional de Direito do Trabalho Desportivo, realizado em Campinas

Tiago iniciou na base do Coritiba, numa geração que revelou bons nomes pro futebol brasileiro, como Keirrison, Marlos, Lucas Mendes e Willian Farias. E ele tem boas lembranças dessa época e desses companheiros de resenha –  revela até que Marlos era o mais “resenha” entre a molecada. Mas ao mesmo tempo, rasga elogios ao meia que hoje joga no Shakhtar Donetsk e se naturalizou ucraniano, dizendo que “é craque, talvez um dos 5 melhores jogadores com quem já joguei”. Tiago, Marlos, Lucas Mendes (atualmente no Catar) e Willian Farias (hoje no Vitória) jogaram juntos desde os 12 anos na base do Coxa e depois criaram carreiras sólidas no futebol profissional, algo de que ele se orgulha ao falar: “É muito legal vê-los bem e conseguindo vencer numa profissão tão difícil e concorrida”. E quando perguntamos sobre alguma história engraçada que viveu nas categorias de base, cita novamente o meia do Shakhtar:

“Uma vez na categoria infantil estávamos num ônibus tipo esses de linha, voltando de um treino. O Marlos e o Teixeira (jogava conosco) estavam fazendo muita bagunça no ônibus e o treinador na época, o Pachequinho, fez eles irem pra frente e sentarem atrás dele! Eles pegaram uma casca de banana e arremessaram pra trás para acertar em alguém… E lá vai eu tentar acerta-lós devolvendo a casca de banana. O que aconteceu?! Mirei no Teixeira e arremessei, o Marlos puxou ele na hora e a casca foi no pescoço do treinador Pachequinho!! Pensa numa cara de cachorro que fiquei… E como consequência, lá vai eu sentar por 2 semanas na frente, do lado da comissão técnica.”

No começo da carreira você se espelhava em alguns jogadores pra tentar moldar seu estilo de jogo e tentar “imitar” a maneira de jogar? Também relacionado a isso, quem são seus maiores ídolos dentro do futebol?

Sempre gostei muito do Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho! Queria ser igual eles, mas minhas características não eram e nem são parecidas com a deles. Mesmo assim, os admirava demais, eles eram as referências quando comecei!

No Coritiba você não teve muita oportunidade no início, e acabou emprestado pro Joinville em 2011. O JEC estava numa crescente, e vinha fazendo anos muito bons nas divisões inferiores do futebol nacional. Quais memórias você tem do seu tempo no JEC? Gostou da cidade e do clube?

Cara, pra minha vida pessoal e carreira, o JEC foi fundamental. Foi umas das melhores coisas da minha vida e carreira ter ido pra lá! Em Curitiba eu morava na casa da minha mãe, então tinha comida quentinha, roupa lavada, não precisa arcar com todas as contas, e outras facilidades a mais em morar com os pais. Quando fui a Joinville, tive que aprender na marra a me virar sozinho em tudo. Não tinha ninguém pra me ajudar, era “eu e eu” num hotel bem precário. Enfim, tive que evoluir, sofrer…

Já no time foi incrível! Formamos um time de amigos, guerreiros, caras que na sua grande maioria precisava vencer ou sobreviver, então todos lutavam muito, além de sermos amigos. Fui muito feliz lá, porque de lá minha carreira decolou… Fomos campeões da Série C e da Copa Santa Catarina em 2011, e em 2012 até eu sair fazíamos uma campanha espetacular, dentro do G4 da série B. Amo as pessoas de lá, a cidade, o clube. Pretendo um dia voltar a jogar lá!

Com boas atuações pelo Joinville, chamou a atenção do Palmeiras em 2012

O Palmeiras foi o primeiro clube da grande mídia/grande centro que você teve a oportunidade de jogar. Na chegada, você sentiu algo muito diferente? Sentiu a pressão ou algo do tipo?

É, fui vendido do Joinville direto para o Palmeiras em 2012. Não digo pressão, mas ali na minha apresentação senti que estava virando um “jogador de verdade” (risos). Estava acostumado a dar entrevistas para 3, 4 repórteres e ali na apresentação tinham 50, 60 pessoas, 15 câmeras etc… Então pensei: “caramba, aqui o negócio é outro!” Mas foi uma sensação muito gostosa. Porém, tudo isso não me atrapalhou na adaptação não, não senti pressão, pelo contrário, estava tão motivado e feliz com aquilo que estreei 3 dias após ser apresentado sendo o melhor em campo numa partida contra o Grêmio e no segundo já marcava meu primeiro gol na nova casa contra o Sport!

Quando você chegou no Palmeiras, o treinador era o Felipão, que acabaria demitido poucos dias depois da sua chegada. Um tempo depois trouxeram o Gilson Kleina, que hoje trabalha com você na Ponte Preta. Entre os jogadores, como vocês veem as constantes trocas de comando técnico que ocorrem no futebol brasileiro?

Trabalhar com o Felipão para mim era algo mágico. Queria aprender e viver muito com ele, até porque ele foi o responsável principal da minha ida ao Palmeiras. Porém durou pouco a permanência dele após minha chegada, infelizmente. Essas trocas de treinadores são benéficas para alguns no grupo e outros não, justamente porque com um treinador às vezes você não está tendo espaço e quando chega outro você começa a atuar. Porém eu vejo isso ruim para o clube, porque nunca se mantém um planejamento de trabalho! Por exemplo, determinado treinador chega e pede 3 jogadores que ele gosta e depois de um tempo ele vai embora. Esses 3 jogadores permanecem ali, não vão junto com o treinador, e muitas vezes eles não são do agrado do futuro treinador, fazendo com que o elenco fique inchado, gerando custos ao clube… Isso é só um exemplo, mas teriam vários outros para o lado negativo.

2013 foi um ano atípico para o Palmeiras. Em 18 de abril, vocês estavam no Peru jogando a última rodada da fase de grupos da Libertadores. 3 dias depois vocês enfrentaram o Ituano fora de casa pelo Campeonato Paulista. No dia 30 do mesmo mês, vocês estavam em Tijuana pelas oitavas da Libertadores. E aí praticamente um mês depois, estavam em Arapiraca jogando contra o ASA pela Série B (você inclusive fez um gol nesse jogo). Como essa maratona era vista por vocês dentro do elenco, tendo que jogar três competições praticamente ao mesmo tempo?

Essa maratona foi difícil, pela distância das viagens e porque eram todos jogos decisivos e nosso elenco não era numeroso, fazendo com que o desgaste fosse alto. Além disso, existia a obrigação de sermos campeões da Série B, e conseguimos. A verdade é que infelizmente o atleta está em segundo plano quando as tabelas são feitas…

Você teve um vínculo longo com o Palmeiras, mas acabou sendo emprestado várias vezes nesse período. Sente que poderia ter mostrado mais do seu futebol com a camisa palmeirense?

Sim, tive praticamente 5 anos de vínculo! Acho que o período que fiquei realmente jogando no Palmeiras foi de muita turbulência. Talvez se estivesse hoje por exemplo com o clima mais ameno, teria tido mais sucesso, apesar de que individualmente fui muito bem nas oportunidades que tive… Quanto aos empréstimos, foram todos muito bons para mim no quesito de experiência, vivência e até mesmo financeiramente.

Tiago ganhou projeção nacional atuando no Verdão

Tiago atuou em três times do Nordeste até hoje na carreira: Náutico, Bahia e Vitória. Na equipe de Pernambuco, teve um contrato curto no fim de 2013, quando o Timbu buscava a permanência na Série A. A experiência, no entanto, não foi das melhores:

“Aceitei pois queria jogar a Série A, precisava de visibilidade pois havia um bom clube de fora que estava interessado em mim e pensei que jogando a Série A as coisas aconteceriam. Além de ter sido até aqui o maior salário (entre luvas, bonificações e salário) que recebi na minha carreira, por incrível que pareça. Eles estavam desesperados e me ofereceram um caminhão de dinheiro. Enfim, não aconteceu como eu queria, o time foi mal, o clube de fora não prosseguiu com o interesse em mim e não recebi no Náutico o bom salário (está na justiça até hoje)… São escolhas que temos que fazer todos os dias nas nossas vidas, umas dão certo outras nem tanto! Mas não me arrependo, em Recife fiz amigos, conheci lugares legais…”

Depois, em 2015 atuou pelo Bahia e no ano seguinte pelo rival Vitória. Foi bicampeão baiano consecutivamente, um ano em cada clube. Ele conta que a experiência em Salvador foi muito boa, nos dois anos, e rasga elogios para a Bahia:

“Bom, amo Salvador! Amo as pessoas que lá estão… Minha filha inclusive nasceu lá. Como são receptivos, prestativos e amigos as pessoas da Bahia! A rivalidade da cidade é bem grande mas com muito respeito. Tamanha rivalidade não é traduzida em violência como vemos em outros centros. Lá os torcedores de ambos clubes vão juntos para o clássico, isso é lindo de se ver. Vejo a torcida do Bahia mais presente e apaixonada. Eles realmente empurram o time. A do Vitória comparece mais no momento bom do time.

Ainda falando de Bahia e Vitória, qual foi o melhor momento para você em cada clube?

No Bahia destaco o futebol que apresentamos no primeiro semestre de 2015. Um time extremamente ofensivo e que jogava bonito! O time era muito bom e envolvente, inclusive até hoje torcedores do Bahia falam daquele time que marcou muita gente. Fomos campeões Baiano e vice da Copa do Nordeste. No Vitória, destaco o primeiro Ba-Vi, que fiz um golaço de fora da área. A torcida do Bahia ficou louca, pois havia ido para o rival de um ano para o outro… Também destaco o título Baiano de 2016, que me consagrou bicampeão consecutivo, em ambos os clubes.

Em 2017 você retornou ao Coritiba. Infelizmente o Coxa acabou caindo ao sofrer a virada da Chapecoense praticamente no último lance do jogo, em Chapecó. Pode se dizer que ali, foi um dos momentos mais duros da sua carreira como jogador? O quanto os jogadores e a comissão técnica sentiram esse baque?

Sim, talvez tenha sido o momento mais triste da minha carreira. O sentimento de fracasso naquele último lance do jogo me tomou conta, ali pra mim foi uma vergonha perante ao clube que me revelou, aos amigos da minha cidade que são torcedores do clube e de minha família que pôde acompanhar de perto tudo que se passava. A tristeza foi grande. Como foi meu último jogo por lá, não tenho como falar do sentimento dos demais envolvidos, mas eu fiquei muito chateado mesmo, queria vencer ou no mínimo não fracassar no meu clube, na minha cidade, enfim… Mas também me confortei dias depois porque sei que deu meu máximo, me dediquei e o futebol é coletivo, não depende de uma pessoa. Além do mais porque a vida continua e precisamos olhar à frente…

Revelado no Coxa, Tiago passou novamente por lá em 2017

Nessa temporada, você está jogando na Ponte Preta, disputou o Paulista, Copa do Brasil e agora está na reta final da Série B. Quais foram os motivos que levaram você a mudar de clube e acreditar no projeto da Macaca?Vim para a Ponte porque é uma camisa forte em termos de projeção e também porque recebi a proposta por duas temporadas, algo que agora começa a pesar por causa dos meus filhos, sem eles não me preocupava em ficar um ano aqui outro ali… E também porque Campinas é ótima para se viver, só tive bons motivos para aceitar esse desafio.

Numa recente entrevista ao Globoesporte.com, você disse que é um cara que estuda sobre economia, investe em ações. De onde surgiu essa vontade de estudar uma área que é bem incomum entre os boleiros?

Pois é, tomei gosto após ganhar o livro “Casais inteligentes enriquecem juntos” em 2015. Após isso comecei a devorar todos conteúdos que acho sobre economia e planejamento financeiro, algo que realmente gostei! Hoje invisto em vários produtos financeiros, incluindo ações.

Também nessa entrevista, você contou que criou uma empresa para auxiliar jogadores. Como ela funciona? Em que áreas especificamente vocês ajudam outros jogadores?

Exatamente, ela se chama Planner Sports! Ela é estruturada justamente para auxiliar os atletas em lacunas que eu identifico como jogador, muito atleta é mal assessorado ou sem apoio em coisas que são fundamentais para o seu desenvolvimento no campo. Começamos pelo apoio na instalação na cidade/clube que o atleta está indo, desde a mudança, transporte do veículo, escola para os filhos, apoio e integração da esposa ou família, imóvel dentro do perfil para se instalar, etc… Chamamos isso de Concierge! Depois temos os demais serviços carentes para a profissão e vida pessoal que são a assessoria financeira, patrimonial, contábil, jurídica e de imagem do atleta, que é a assessoria de imprensa. Além disso estamos terminando a estruturação da assessoria cambial, para os atletas que jogam fora do país trazerem o dinheiro pro Brasil de uma maneira legal, correta sem precisar pagar tantos impostos. Procuramos a maneira mais vantajosa para o atleta, e tudo isso são serviços que os atletas não possuem e muitas vezes o rendimento dentro do campo não é bom por conta desses problemas fora dele. Por isso a Planner foi criada!

Agora, responda de sem-pulo:
Melhor jogador que jogou junto e o melhor que enfrentou

Melhor com quem joguei foi o Valdívia, capacidade impressionante de fazer a diferença. E contra, o Ronaldinho Gaúcho, não preciso nem comentar né…

Jogador mais inteligente que conheceu dentro de campo e fora dele

Dentro de campo foi o Kléber Gladiador, tinha uma leitura de jogo e noção de espaço incrível. Fora de campo, o Tcheco, atuamos juntos no Coritiba em 2010.

Ainda sonha em jogar fora do país?

Sonho sim, e acredito que em breve essa oportunidade apareça!

Quais os principais planos após pendurar as chuteiras?

Pós carreira quero fazer muitas coisas, começando por me entregar de corpo e alma a minha empresa, que hoje divido atenções entre ela e o campo.

Nós do Blog 4-3-3 agradecemos a sua disponibilidade e atenção em nos atender, desejamos toda sorte do mundo na sua carreira, tanto dentro dos gramados quanto fora deles, e gostaríamos que você desse um conselho aos meninos que estão começando a trilhar sua carreira no futebol. Além disso, esse espaço também fica aberto caso você queira falar sobre algo que não abordamos e que você ache interessante de falar pra galera. Grande abraço, e muito obrigado!

Eu agradeço o espaço, confesso que falei de coração aberto sobre várias coisas, algo que no dia a dia não faço! Deixo  mensagem para os jovens não só do futebol, mas como um todo: Não há vitórias sem suor, você não atinge o objetivo sem sofrer, sem lutar. Vejo muita gente hoje querendo conquistar, ter as coisas, ser um grande jogador, jogar em times grandes, mas sem lutar, sem plantar… Então pessoal, lute, dê tempo ao tempo que você pode chegar! Mas lembre, nunca é imediato! E mais, tenha fé em Deus. Um grande abraço, fiquem com Deus

Colaboração: Leonardo Tudela Del Mastre

Postado por Guilherme Bonilla Colomé Goleiro, colorado doente, chora toda vez que vê o famoso 'Gol do Gabirú'. Fã do Liverpool desde 2005 e do PSG muito antes do Sheik sonhar em comprar o clube. Gosta de musica velha, cerveja, boa companhia e viajar. Simpático ao Belgrano de Córdoba e ao San Lorenzo de Almagro, sem esquecer também do Internacional de Santa Maria.