Throwback Thursday#24 – Salvo pelo soldado Ryan
11 de abril de 2019


Poucas pessoas tiveram um ano mais feliz – futebolisticamente falando – do que os torcedores do Manchester United em 1999. Pela primeira vez um time inglês conquistou a Tríplice Coroa, feito que rendeu ao técnico o título de Sir. A história é bem conhecida e documentada, e aquela equipe é cantada em prosa e verso. O que a história costuma omitir são as várias ocasiões que, por pouco, não impediram a conquista. O clube passou boa parte da Premier League atrás do Arsenal, e um empate contra o Liverpool na reta final quase acabou com o sonho. Na Champions, além do milagre nos acréscimos contra o Bayern, quase foram eliminados pela Juventus – Roy Keane comandou uma virada épica de 3 a 2 em Turim. E na FA Cup, esteve a um pênalti de ser eliminado, mas foi salvo por Schmeichel e pelo brilhantismo de seu ponta galês. O #tbt de hoje volta a Birmingham para homenagear o gol mais bonito da longa carreira do recordista de jogos pelo Manchester – também conhecido por Ryan Giggs.

Após derrotar o Chelsea com dois gols de Dwight Yorke, o sorteio empurrou os Red Devils para o confronto contra o Arsenal. O time de Arsène Wenger era o atual campeão da Copa, da Premier League e ainda liderava a edição atual do campeonato. O primeiro jogo, no neutro Villa Park, foi uma partida que evidenciava o cansaço dos dois times. Nenhum quis se arriscar e o jogo terminou em um opaco 0 a 0. O replay aconteceu no mesmo estádio, três dias depois. O Arsenal foi com força quase total, poupando apenas o rápido (e frágil) Overmars. O United aproveitou a força do elenco e rodou um pouco mais: Nicky Butt na vaga de Paul Scholes, Phil Neville na vaga de Dennis Irwin, Sheringham e Solskjaer encabeçavam o ataque e, como o rival, o ponta esquerda ficou no banco – o sueco Blomqvist substituiu Giggs.

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Sheringham, Solsjkaer, Yorke, Andy Cole: o United tinha um elenco muito além do 11 inicial

Os Red Devils começaram encapetados. Particularmente David Beckham parecia inspirado – como você leu aqui, a temporada estava se mostrando a redenção perfeita para o craque inglês após a expulsão na Copa do Mundo. O spice boy bombardeava a área rival com cruzamentos, um que Solskjær não conseguiu converter, e mais três escanteios seguidos com resultados estéreis. Ele não ia sossegar. Aproveitou uma rebatida ruim de Keown e foi à carga, servindo Sheringham. O veterano atraiu quatro jogadores da defesa e devolveu ao camisa 7 livre, que acertou um chutaço no ângulo de Seaman. Nem 20 minutos e o United já fazia 1 a 0.

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Sheringham e Solskjaer perdem duas chances de dobrar o placar nos minutos seguintes, e o jogo descendeu entre uma coleção de faltas, cartões, escanteios inúteis e lançamentos desperdiçados – particularmente os belos passes de Bergkamp – até o intervalo. E depois também. Com treze minutos, o norueguês perde chance clara após bela jogada de Blomqvist, e o Arsenal dava sinais de estar fazendo água: Tony Adams era mais eficiente na área rival do que em sua própria. Aos quinze, os dois técnicos fizeram a mesma mudança: Ferguson convocou Giggs, Wenger introduziu Overmars. A mudança do time londrino encaixou melhor. Mais direto que Ljungberg, o papa-léguas era agressivo demais para ser contido apenas por Gary Neville – era necessário que Beckham e Roy Keane dessem um pé atrás.

A velocidade de Overmars deixava o Arsenal mais agudo. Sem ele, um time mais previsível.

Com sete minutos, o efeito se sentiu. Bergkamp teve mais espaço do que em todo o primeiro tempo, dominou e chutou. A bola desviou em Stam e enganou o gigante Peter Schmeichel. Com mais cinco minutos, Bergkamp, de novo contra Ronny Johnsen, deixou o norueguês falando sozinho e chutou para excelente defesa de Schmeichel. Anelka converteu o rebote, que foi anulado por impedimento. Não ia durar, e não durou: com 15 minutos em campo, Overmars deixa a defesa mancuniana comendo poeira e Roy Keane chega na cobertura. O resultado é previsível: o velocista holandês catapultado, o cartão vermelho mostrado, o irlandês possesso ejetado. O capitão deixava o United com a ingrata tarefa de segurar o Arsenal com 10 contra 11.

O capitão dos Red Devils e sua cor favorita…

Ferguson reagiu. Substituiu Sheringham com Scholes e recuou o 4-4-1 com a intenção clara de esperar os pênaltis e contra-atacar em velocidade. Deu certo. O Arsenal não conseguia mais entrar na área e tentava chegar através de chutes de longe e cruzamentos. No final do tempo regulamentar, o jogo estava tão confortável que o solitário Solskjær chegou a ameaçar causar problemas para Seaman. A única forma do Arsenal chegar a algum lugar seria através de erros individuais. Para a sorte deles, do outro lado estava… Phil Neville.

Ray Parlour recebe na ponta direita e parte para cima da área rival. O não muito brilhante meia inglês abaixa a cabeça e faz uma finta em câmera lenta em direção a seu marcador, mal conservando o controle da bola no processo. Um defensor mais competente – como Maldini, Lizarazu ou Dennis Irwin – teria cercado o pobre Parlour e o encaminhado para o canto, gerando no máximo um escanteio. Mas Phil Neville, mais inglês que uma garrafa de Tanqueray, entra em pânico e se atira num carrinho desastroso que obviamente não tem sucesso. O Manchester United concede um pênalti nos acréscimos, e o frio Bergkamp se apresenta para bater. As chances de continuar na competição eram minúsculas neste ponto.

Sorte do torcedor que Sir Alex havia importado um goleiro maiúsculo da Dinamarca. Peter Schmeichel leu o craque holandês e escreveu a história. O pênalti, mal batido do lado esquerdo, parou no voo felino do escandinavo, que não queria saber de festa – pagou geral pra todo mundo que veio dar parabéns porque, afinal, a bola estava em jogo e havia uma prorrogação inteira pela frente. Yorke substituiu o cansado Solskjær, enquanto Wenger abria a caixa de ferramentas e colocava o nigeriano Kanu para servir de referência na área – ele forçaria outra defesa excelente de Schmeichel em escanteio.

Na toada “Arsenal ataca, United defende”, os quinze primeiros minutos da prorrogação escorreram rápido. Frustrados pelo pênalti, os gunners haviam, enfim, diminuído a pressão. E acabaram gerando um erro – logo do jogador menos provável. O imenso Patrick Vieira passa sem olhar para onde estaria o substituído Parlour. A bola encontra apenas Giggs na divisória de meio campo. Giggs isolado. Giggs descansado. Giggs endiabrado. Giggs acelerado. O galês engatou a quinta, fugiu do autor do passe errado e deslizou em direção ao gol sem escalas, passando por dentro dos defensores do Arsenal como moscas – Dixon, Keown, Dixon de novo, até chegar na cara do gol e mandar um canudo no ângulo que Seaman não teve tempo nem de olhar. Um golaço. Histórico. Icônico como a celebração – tirar a camisa não rendia cartão amarelo na época.

 

Não que importasse. O Arsenal estava tão entregue que a única reação de Wenger foi colocar o zagueiro Bould no lugar do meia Petit para receber chuveirinhos na área, mas com Schmeichel no gol e Stam no centro da área, nem que chovesse canhões o gol sairia pelo alto. Aos gunners restou sentar e aplaudir com inveja enquanto o United, como Giggs, galopava imparável em direção à glória. Muito graças ao brilhantismo do jogador, que permaneceria no clube por toda a carreira. Giggs seria fundamental para que o United conquistasse duas Champions League, dois Mundiais Interclubes, 4 FA Cups, 3 League Cups e nada menos que TREZE edições da Premier League – também é o jogador com mais medalhas da competição. Não à toa, apelidado carinhosamente de “Senhor Manchester”…

 

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.