Throwback Thursday#22 – El Zandonazo
1 de novembro de 2018
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O #tbt de hoje é um soco na cara. Literalmente. Embora o autor desaprove completamente a violência – dentro de campo e fora dele – é difícil desprezar uma boa história, mesmo uma que gire em torno de um murro. E poucas histórias são um retrato tão fiel de sua época como este… encontro acontecido há 23 anos – em 03 de Outubro de 1995. Hoje é dia de rivalidade sul-americana. Hoje é dia de Edmundo x Zandoná.

O torcedor do século XXI se acostumou a assistir a Libertadores com 4, 5, até 6 times brasileiros – isso antes da exclusão dos times mexicanos, que resultou na classificação de metade dos times do Brasileirão no torneio continental. Porém, até 1999, apenas o campeão brasileiro e o da Copa do Brasil chegavam ao torneio, e mais um possível vencedor da edição anterior. Isso não era um problema na década de 60 e 70, quando o futebol continental sul-americano dava mais agressões do que prêmios, mas na década de 90, já haviam times suficientes com a Libertadores na bagagem, e a Conmebol começou a criar torneios alternativos que eventualmente se tornariam a Copa Sul-Americana, em 2002– após o aumento da Libertadores para 32 times. Daí temos torneios breves e de memória obscura, como a Copa Mercosul – que os palmeirenses lembram bem por confrontos épicos com Flamengo e Vasco; a Copa CONMEBOL –  uma das poucas alegrias do Santos na década de 90 – para aqueles que não se classificavam para a Libertadores. E, no meio disso, entre 1988 e 1997 foi disputada a SuperCopa Libertadores, que reunia times que já haviam sido campeões continentais.

Embora fosse um torneio conquistado por mérito histórico, e não recente – o Flamengo, finalista em 1995, terminou o Brasileiro anterior em 14º lugar – era o segundo torneio em importância, tanto é que o vencedor disputava a Recopa Sul-Americana contra o vencedor da Libertadores. (Ironicamente, como era no segundo semestre, era possível um time ser campeão da Libertadores e da SuperCopa no mesmo ano. Nunca ocorreu, no entanto). Ou seja, por mais que tenha nome de torneio de dois jogos, a Supercopa era um torneio relevante na época. E mais ainda para o Flamengo, naquele ano.

Veja, estávamos em 1995, ano do centenário do clube rubro-negro. O Flamengo havia passado por um 1994 miserável, no qual perdeu o campeonato carioca por 1 ponto (insira piadas de vice aqui), e patinou no Brasileirão, como você leu acima. Para garantir um centenário digno, o clube trouxe ninguém menos que o melhor jogador do mundo – Romário – para fazer companhia à jovem revelação Sávio. O Baixinho, cansado de seu “exílio financeiro” na Europa, forçou a saída do Barcelona para voltar ao querido Rio de Janeiro. Além disso, o clube também acertou com ninguém menos que o técnico bicampeão brasileiro com o Palmeiras, Wanderley Vanderlei Luxemburgo, o popular Pofexô.

“Na Europa, eu trabalho. Eu vivo no Rio” – A frase é da época de PSV, mas o Baixinho já deixava claro suas prioridades na vida.

 

O início era promissor: conquistou a Taça Guanabara sobre o Botafogo, com direito a dois gols do 11 flamenguista e expulsão do artilheiro rival, Túlio. Mas o regulamento bizarro do Carioca permitiu a zebra: jogando o último jogo contra o empata contra o Fluminense, Romário, Sávio, Nélio e cia. foram abatidos pela barriga do veterano Renato Gaúcho, de 32 anos. O presidente Kléber Leite reagiu à decepção de forma calma e ponderada: torrou todo o dinheiro que não tinha para tirar Edmundo – o melhor jogador do Brasil em 1993 e 1994 – do Palmeiras. Também demitiu Luxemburgo, na época o melhor técnico do Brasil, para dar o comando do time a Edinho. Nas palavras do então jovem Sávio ao Resenha ESPN, em 2017: “Você tinha de um lado o melhor jogador do mundo. Do outro o melhor jogador do futebol brasileiro da época. Ao mesmo tempo, não é fácil. E ali não tinha como dar certo. Porque quando se falta gestão, administração, estrutura, organização, um padrão, não só no clube, mas o estilo de jogo, não vai acontecer nada”.

O time, armado num esquema 4 suicida – com os ofensivos Nélio e Djair no meio campo, Sávio espetado na ponta esquerda, e Edmundo e Romário com liberdade ofensiva total – naufragou miseravelmente no Brasileiro daquele ano, chegando a brigar para não cair e terminando em 21º lugar entre 24 clubes. Edinho também não resistiu e foi substituído pelo radialista Washington Rodrigues, o Apolinho. Enquanto isso, os rivais Fluminense e Botafogo voavam – como você pode ler aqui. A torcida até adaptou um comercial da finada Varig para criar a música pela qual o trio de ataque ficou famoso:

“Pior ataque do mundo, pior ataque do mundo, pare um pouquinho, descanse um pouquinho, Sávio, Romário e Edmundo”.

 

Era nesse contexto, tomando raquetada de todo lado e vendo os rivais voarem, que o Flamengo estreou na Supercopa contra o Vélez – atual campeão mundial – na Argentina. E, mesmo estreando um técnico que não era técnico em condições bastante adversas, o Mengo trouxe de volta um excelente resultado – uma vitória por 3 a 2, com direito a virada no final – perdendo por 2 a 1, Sávio converteu pênalti aos 44 do segundo tempo e Rodrigo Mendes fez o gol da vitória nos acréscimos. A maltratada nação e o criticado elenco viram no torneio continental a chance de salvar a temporada. E no jogo de volta, a ideia era mais do que confirmar a vaga para a fase de grupos – era dar um show para levantar a moral.

E de fato, foi. Um abatido Vélez não foi páreo para o Flamengo, jogando em Uberlândia. Em uma das raras ocasiões que os três integrantes do “pior ataque do mundo” deixaram sua marca num mesmo jogo, o Flamengo fez 2×0 no primeiro tempo com tranquilidade. O mapa da mina era claramente as costas dos laterais platinos – deixados constantemente no mano a mano com os habilidosos brasileiros, os lentos Flávio Zandoná e Raúl Cardozo eram incapazes de conter Sávio ou Edmundo quando arrancavam por seus setores, e foi assim que Sávio entrou livre e chutou cruzado, Pellegrino interceptou antes de Romário mas fez contra. O Vélez entrou em parafuso e foi pra cima, cedendo acres de espaço para os infernais rubro-negros. Depois de meia dúzia de chances cara a cara com Chilavert perdidas, Romário serviu o futuro desafeto para fazer 2×0. Pouco depois, no lance mais bonito da noite, Rodrigo Mendes substituiu Sávio e foi pra cima de Zandoná, aplicando-lhe um belo drible que o deixou estatelado tristemente no chão, assistindo o cruzamento para o terceiro gol, de Romário.

Hoje, um time brasileiro vencendo um rival argentino por 4 gols de diferença no agregado vai tocar a bola para evitar desgaste ou tentar fazer mais gols para evitar a reação do rival. Mas estávamos em 1995 – época dos bad boys, como Romário e Edmundo cantaram na apresentação do último no clube carioca. Naturalmente os brasileiros optaram por provocar os rivais. Particularmente o Animal – além de seu vasto repertório de dribles, ainda ensaiou na frente do torturado Zandoná uma “dança da bundinha”, como faria com o zagueiro Gonçalves na final do Carioca de 1997. A bola passou, Edmundo não, graças ao cotovelo do argentino. Crônica de uma briga anunciada…

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O lance provocou um corte nos lábios do atacante, que optou por dividir isso de forma pouco ortodoxa. Enquanto o Vélez se preparava para bater falta para a área do Flamengo, Edmundo passou a mão na ferida e deu um tapa provocativo no rosto do defensor, que devolveu. Só que eram 46 do segundo tempo de uma derrota consolidada, na qual o lateral tinha comido o pão que o diabo amassou. Edmundo havia transbordado o copo. Zandoná esperou o atacante se afastar, se aproximou por trás e encheu o punho esquerdo no rosto do Animal, que apagou.

Romário disparou e acertou uma voadora no argentino, que preferiu esperar reforços – por mais que tivesse menos de 1,70m, Romário era extremamente violento na hora da briga – e o jogo naturalmente evoluiu para uma batalha campal. O técnico Apolinho bradava que “Na bola não ganham, na porrada não ganham. Se quiserem jogar mais, a gente joga. Se quiserem dar porrada, vamos briga até amanhã de manhã. Não vão ganhar da gente nem no grito nem na porrada!”. O espetáculo deprimente terminou com zero (ZERO!!!!) jogadores expulsos e punidos pela Conmebol, um Animal com a cara inchada e um Flamengo classificado. O Fla ainda despachou Nacional, do Uruguai, e o Cruzeiro, antes de fazer a final com o Independiente – acabaram derrotados por 2 a 1 no agregado, coroando assim o ano miserável que foi o do centenário rubro-negro.

Zandoná, você é grande mas eu sou mau!

Poucos jogos reúnem em tão pouco tempo o futebol da década de 90: taticamente desordenado, beleza com a bola no pé e selvageria sem ela. Zandoná, após o jogo, não se mostrava arrependido “Uma a favor e uma contra. A favor, é que eu bati nele no Brasil. Contra, é que acertei pelas costas. Gostaria de tê-lo acertado de frente”. A carreira do zagueiro ainda contaria com entreveros com um torcedor – também resolvidos no soco. Após deixar o Vélez em 2000, com 33 anos, teve passagens relâmpagos pelo Cerro, América-MG e Avispa Fukuoka, sem entrar muito em campo.

 

Perto de fazer 50 anos, em 2016, Zandoná – que vive tranquilamente no interior platino – reconhece o mau exemplo que deu:  ”O futebol sempre busca a rivalidade, não? Ela sempre existe, aqui na Argentina ela é bem clara nas disputas entre cidades, províncias ou países vizinhos. A rivalidade é interessante, mas a violência não. E olhe quem está falando…”. A torcida, no entanto, ama o ex-zagueiro de paixão. Considerando o hábito do Animal de provocar e debochar de jogadores rivais – e depois sair na mão com quem se irritasse – os hinchas do Vélez consideram que o brasileiro finalmente teve o que mereceu. Tales Torraga, no blog “Patadas y Gambetas”, deixa isso bem claro: “É claro que foi animalesco, mas me diz, já viu soco mais merecido que aquele?” – é o que se ouve de qualquer torcedor do Vélez que venha te comentar aquele lance.

Alguns mais exaltados vão lembrar com saudade dessa época onde achava-se graça nesse tipo de agressão. Felizmente hoje já temos diversos torneios de artes marciais amplamente difundidos na mídia para quem quer ver violência, então definitivamente estamos melhor com as coisas separadas. Fica apenas a lembrança de uma boa história – e o que de fato foi uma senhora bordoada…

Pesquisa complementar:

https://uolesporte.blogosfera.uol.com.br/2016/10/28/romario-e-edmundo-contra-o-velez-9-detalhes-que-voce-nao-lembrava-da-briga/

http://patadasygambetas.blogosfera.uol.com.br/2016/10/26/lateral-do-velez-que-socou-edmundo-faria-de-novo-nao-me-arrependo/

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.