Throwback Thursday#19 – De Baixinho a baixinho
26 de julho de 2018

 

O #tbt de hoje é um pouco mais pessoal que a média. Ele volta a um tempo longínquo para contar a primeira memória do autor no que diz respeito à Copas do Mundo, e devo admitir, eu comecei com o pé direito. Não foi um jogo de Copa em si, embora tenha sido tão decisivo quanto: foi o jogo que classificou o Brasil para a Copa de 1994. Hoje voltamos a 1993 – ao primeiro passo de Romário – e de todos nós – em direção ao tetra.

Minha primeira lembrança de Copa do Mundo, tecnicamente, é um pouco anterior, e bem menos feliz. Data de 1990, quando eu tinha quatro anos e passei algumas semanas bem tristes porque os adultos ficavam todos ao redor da televisão ao invés de brincar comigo – imagino que não deva ter ajudado muito o mal-estar geral fruto da eliminação causada por Maradona, e Caniggia (e alguém com tranquilizantes que inexplicavelmente nunca foi preso). Isso tudo passou graças a um antídoto muito simples: um campo de futebol de botão e dois times: o Santos FC e a Seleção Brasileira.

Meu pai levou algum tempo para me explicar alguns conceitos: por que, afinal, o Santos e o Brasil não podiam se enfrentar? Como o Santos podia ser o melhor time se não era campeão? Como a Seleção brasileira podia ser o melhor time se não era o campeão? Como podia ser que tínhamos tantos bons jogadores (segundo ele) mas estarmos ameaçados de não ir à Copa? Aliás, como assim precisa se classificar pra ir à Copa, não é todo mundo que vai? E, afinal, se o São Paulo é o campeão do mundo, como o campeão do Paulista era o Palmeiras? E por que eles não jogavam no lugar da seleção brasileira – se precisávamos ganhar, nada mais lógico que escalar o campeão mundial ou o time que derrotou o campeão, não?

Ué gente, põe os caras em campo que ganhamos de novo… algum problema?

Ele me explicou pacientemente todos esses porquês (exceto o do Santos – precisei esperar até 2002 por essa resposta). Me ensinou a diferença entre um time e uma seleção. Me ensinou que o Brasil estava decadente, e que era o melhor quando tinha Pelé, Garrincha e Zito, mas que não conseguia o mesmo desempenho com Raí, Müller e Zinho – que jogavam nos times que eu citei. Me ensinou que futebol (ao contrário do que muita gente pensa) não se joga só aqui, e por isso o goleiro do Brasil não era Zetti, que os meninos da escola achavam ótimo, mas um cara chamado Taffarel, que jogava na Itália. E que o tal de Branco, que tinha um chute fortíssimo, estava ficando velho – sim, acontecia com jogadores! – e por isso ele preferia um cara chamado Leonardo. Minha mãe também gostava do Leonardo, mas por outros motivos.

E foi assim que eu, que até aquele ponto da minha vida, só assistia ao programa da Xuxa, parei para assistir com ele o que seria o primeiro jogo da minha vida: Brasil x Uruguai. Eu não sabia, mas o Brasil jogava pelo empate – uma partida desastrosa, particularmente de Taffarel, resultou na primeira derrota brasileira em Eliminatórias (2×0 para a Bolívia em La Paz), o que por sua vez deu ao Uruguai chances de nos eliminar caso vencesse no Maracanã. Também não sabia da imensa pressão que o técnico Parreira estava sofrendo – sequer sabia quem era Parreira. O que eu sabia é que meu pai estava apreensivo, mas feliz com uma coisa: Romário ia jogar.

O diminuto atacante cor de café não vestia a camisa do Brasil fazia quase um ano. Ele havia feito uma Olimpíada magnífica em 1988 em Seul, saindo com a prata e um contrato com o PSV – Guus Hiddink interceptou o Baixinho em pleno Galeão. Ele passaria os próximos 5 anos fazendo hordas de gols na Holanda, mas com a camisa amarela principal, sua contribuição ia um tanto aquém. Foi vital para a conquista da Copa América de 1989, mas lesionou-se e assistiu a toda a Copa de 90 do banco. Com a emergência de Müller e Evair como parceiros do confiável Bebeto, mais a revolução promovida por Paulo Roberto Falcão após a derrota no Mundial, Romário passou a maior parte do período entre Copas na reserva. Até que no final de 1992, se recusou a aceitar a convocação caso não fosse titular.

“Não vou voltar da Europa para ficar no banco”.

Parreira respondeu deixando-o de fora dos jogos do ano seguinte, e Romário por sua vez respondeu fazendo ainda mais gols – ou melhor, gols mais importantes. Foi artilheiro da Champions League daquele ano, e chamou a atenção do Barcelona (clube que, segundo o meu pai, era o time da minha bisavó espanhola. Jamais saberei). Estreou pelo time catalão fazendo miséria, incluindo o gol da vitória sobre o São Paulo de Palhinha, Raí e seu concorrente Müller, no troféu Teresa Herrera. O São Paulo, além de atual campeão do mundo, era o atual campeão deste torneio amistoso, e nas duas ocasiões vencera o Barcelona – motivo pelo qual o jogo foi transmitido no Brasil. O país inteiro viu a fome de gols de Romário, e Parreira – que jura que já planejava convocá-lo de toda forma – acabou por promover o retorno do atacante na partida crucial contra os rivais celestes. Eu não sabia de nada disso. Eu assisti ao jogo, e apenas muito depois tive consciência de que vi um evento raro e maravilhoso.

Vejam, Romário voltou ao Brasil em 1995, e fora passagens irrisórias pelo Valencia e Melbourne City, nos acostumamos a ver o Baixinho fazendo gols e mais gols em gramados brasileiros por doze anos, sempre daquele jeito: na malandragem, oportunista, aproveitando seu posicionamento e a desatenção dos defensores. Mas o camisa 11 daquele jogo de eliminatórias não era esse homem. Era muito mais cruel. Era um predador. Era Romário possesso, Romário possuído, Romário sangue nos olhos. O pior Romário possível para o Uruguai, dos talentosos Francescoli, Fonseca e Rúben Sosa, ter pela frente.

Boa sorte pra me parar hoje.

O Uruguai começou pressionando, de modo que Romário teve que voltar ao campo de defesa para dar seu primeiro toque na bola. Ele não deve ter ficado muito feliz, pois em menos de um minuto aplicou um chapéu de boas-vindas em Diego Dorta. Pouco tempo depois, deixou Dorta falando sozinho de novo, tabelou com Raí e de bico, encobriu o goleiro Robert Siboldi – a bola bateu no travessão. Logo depois, recebeu de Branco, colocou entre as pernas de Oscar Herrera e chutou para fora. O Uruguai não tinha resposta ao atacante brasileiro, que se mexia muito e requeria a cobertura constante do amarelado líbero Ricardo Canals. Raí, Bebeto, Branco e Zinho aproveitavam os espaços, mas também não tinham sucesso e o primeiro tempo, apesar das mais de 10 chances criadas (e do pênalti em Romário sonegado pelo juiz), acabou 0 a 0.

Nada mudou no segundo tempo – o Brasil continuou metralhando a meta celeste. Mesmo jogando pelo empate contra um adversário que não conseguia atacar, o enorme Maracanã estava tenso – já imaginou o Uruguai apronta das suas de novo? Na transmissão, Galvão ecoava o nervosismo, desesperado a cada nova defesa de Siboldi. Foram setenta minutos infernais até que Jorginho achou Bebeto, que escapou de Kanapkis, disparou na ala esquerda vazia e cruzou para o segundo pau. O goleiro não saiu e apenas pôde assistir o voo do desmarcado Romário, que subiu sozinho e testou para o fundo do gol. O Brasil tinha a faca e o queijo na mão.

 

Mas o Baixinho não queria saber de parar pra comer – tinha fome apenas de bola. Dentro da área uruguaia, bateu a carteira de Herrera e chutou para fora o que seria o segundo gol. Com os uruguaios cansados e acuados, era questão de tempo. Ele enfim viria num lance que começou quando o imenso Mauro Silva, que nem parecia já ter jogado oitenta e três minutos, intercepta um passe de Gutiérrez, avança e faz um passe longo por trás da zaga. Romário escapa da blitz, alcança o passe, dribla Siboldi, que nem derrubar o atacante consegue, e empurra para o gol vazio. Pronto. Nas palavras do próprio Baixinho “eu disse que ia acabar com o jogo, e acabei”. O Brasil estava na Copa. E meu pai estava feliz…

Mim acher, Siboldi

Minhas lembranças do jogo em si são basicamente a tensão, o nervosismo e os dois gols, especialmente o segundo, que é maravilhoso. Mas Romário cumpriu sua missão. Eu assisti a todos os jogos da campanha na Copa, que como sabemos, resultou no tetra. Vi Romário atormentar a Rússia, com um gol e um pênalti sofrido; vi seu belo gol contra Camarões, e seu ainda mais belo gol que salvou nossa pele contra a Suécia. Vi sua maravilhosa jogada para deixar Bebeto livre num jogo difícil contra os anfitriões americanos, sua atuação monumental contra a Holanda, e também sua participação no “nana neném”. Vi o dia no qual ele se fez mais gigante do que os altos zagueiros suecos – leia mais aqui. Só a final que não lembro – um jogo muito mais tedioso do que o tolerável pela a paciência de uma criança de 8 anos – até chegarem os pênaltis. Mas de alguma forma, nada daquilo parecia surpresa. Como criança, pensava que o Brasil, enquanto tivesse aquele tal de Romário, jamais perderia a Copa.

E, olha só, não é que eu estava certo?

 

Nota: este texto, na verdade, é o de número #19. O #18 sempre foi o #18, por razões que você pode ler no próprio, e por um equívoco este foi postado antes como um segundo #17. Podemos consertar o título, mas jamais a ordem cronológica. Que o Baixinho me perdoe…

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.