Throwback Thursday#17 – A camisa pesada do Norte
5 de julho de 2018

You! Shall not! PASS!

Graças ao confronto emocionante entre Inglaterra e Colômbia, é muito fácil deixar passar que no mesmo dia, a Suécia voltou às quartas-de-final de uma Copa do Mundo. Um feito muito importante de um time que, apesar de abdicar de seu melhor jogador no século, venceu a Suíça com competência e fez os suecos sonharem – e com razão. Para quem já sobreviveu à Itália e Alemanha, a Inglaterra é um desafio factível. Enquanto ele não acontece, o #tbt volta 24 anos, até a Copa de 1994 – a última boa campanha sueca em um Mundial.

Quem vê futebol apenas pelos últimos 12 anos pode ser perdoado por não acreditar, mas a Suécia é uma seleção muito tradicional no futebol. Jogou sua primeira Copa em 1934; foi quarta colocada em 1938, terceira em 1950 e vice-campeã no torneio realizado em seu território, perdendo apenas para um time alienígena que continha Pelé e Garrincha. Não contente, teve uma geração excelente que foi a três Copas seguidas na década de 70. Encabeçadas pelo temível arqueiro Hellström, o onipresente capitão Bo Larsson e a perigosa dupla de ataque formada por Edström e Sandberg, a Suécia de 1974 segurou a Laranja Mecânica e passou perto de complicar a vida da Alemanha de Beckenbauer, terminando o torneio em quinto.

Na foto, um muro – e mais 10 jogadores de linha.

O problema da Suécia – como da Escandinávia inteira – é que talento não dá em árvore, e muito menos na tundra típica da geografia local. Gerações excelentes como as citadas costumam alternar com outras menos brilhantes e passar quase uma década sem times relevantes. E não me refiro apenas às ausências em 2010 e 2014. O time medalha de bronze em 1950 nem chegou a ir ao Mundial de 1954. Foi assim também após 1958 – Gren e Liedholm se aposentaram e doze anos se passaram até que Bo Larsson e cia. se classificassem para o torneio no México. E quando esta geração se aposentou, ficariam mais doze anos sem chegar a no mínimo uma EuroCopa.

Por isso, a classificação para a Copa de 1990 foi muito comemorada. Seguraram a eterna freguesa Inglaterra (nunca foram vencidos pelos britânicos em jogos oficiais) por 0 a 0 em Londres e obrigaram a defesa inglesa – especialmente Terry Butcher – a dar o sangue para parar o ataque escandinavo. O time capitaneado por Glenn Hysén, do Liverpool, conseguiu a vaga após fazer o que a Inglaterra falhou em fazer: pensar o jogo vencer a Polônia. Jogando fora de casa, Johnny Ekström e o zagueiro Peter Larsson carimbaram a passagem para o mundial da Itália.

Não perdemos da Suécia hoje!!

Era um time jovem, baseado no elenco sexto colocado nas olimpíadas de 1988. Apenas três jogadores tinham mais de 30 anos, dentre eles o zagueiro Hysén e o fantástico goleiro Thomas Ravelli. O arqueiro havia estreado em 1981 na seleção, amargando uma longa e triste década pela seleção nacional mas deixando claros seus predicados – sua saída agressiva no alto e principalmente pelo chão, seu excelente posicionamento – o que o tornava um pesadelo para Álvaro Morata qualquer atacante no 1 contra 1. Tudo isso coroado por excelentes reflexos.

Além de tudo, era famoso pelo seu senso de humor… exótico

À sua frente, além de Hysén e Peter Larsson, havia o confiável lateral Roland Nilsson e seus excelentes cruzamentos, o zagueiro e lateral pela esquerda Roger Ljung, o volante, meia e lateral canhoto Stefan Schwarz e o já capitão (com 26 anos) Jonas Thern – o equivalente sueco a Dunga, bom no desarme, passe correto, um tanto brusco às vezes. Na seção ofensiva, o ponta Anders Limpar, o articulador meia-esquerda Klas Ingesson e o jovem e impetuoso atacante Tomas Brolin – carinhosamente conhecido como “Brinquedo assassino”, por sua cara redonda de criança contrastando com seu estilo impetuoso de atacar o lado esquerdo da defesa rival em direção ao gol.

E comemorar com seu tradicional soco no ar giratório, o popular Shoryuken.

Quem reconheceu esses nomes pode pensar que um time desse fez boa figura na Copa de 1990. Mas o desempenho dos comandados do técnico Olle Nordin – que era jogador da última vez que os suecos iam a um Mundial, no caso 1978 – foi mais constrangedor que a média de gols do torneio. No primeiro jogo, Careca fez dois e o Brasil prevaleceu. Isso não seria tão desastroso – perder para o Brasil é sempre aceitável – mas derrotas subsequentes para a Escócia e para a estreante Costa Rica deixaram a Suécia sem pontos e na última posição do grupo e vigésima primeira posição dentre vinte e quatro times. Nordin foi substituído temporariamente pelo técnico da seleção sub-21 e, no ano seguinte, assumiria o homem que transformaria a moral daquele time: Tommy Svensson.

A renovação de Svensson seria notada já na Eurocopa de 1992, disputada em casa. Ele rejuvenesceu a defesa, trocando Hysén e Larsson pelos jovens Joachim Björklund (de longa carreira no Valencia e Rangers pré-falência) e o central Patrik Andersson. O filho de Roy Andersson, que também disputou o mundial de 1978, seria peça fundamental na zaga da Suécia pelos doze anos subsequentes, arranjando também tempo para disputar mais de 150 partidas pelo Gladbach e para atuar por duas temporadas pelo Bayern de Munique – no qual fez de falta, nos acréscimos, o gol que deu um título alemão aos bávaros em 2001.

As maiores novidades – literalmente – estavam no ataque. Brolin era uma realidade, titular absoluto da ponta direita, seu ímpeto ofensivo compensado por Thern e pelo fato de que o meia oposto, Ingesson, era praticamente o terceiro homem do meio campo. E Svensson faria mais. Trocou o meia Glenn Strömberg (uma espécie de Fellaini de Valhala) e o já não mais tão velocista Johnny Ekström pelo possante Martin Dahlin, o primeiro negro a defender a seleção sueca. Mais do que isso, ele ainda era rápido, forte, habilidoso e goleador. Sua agilidade e capacidade de jogar como segundo atacante eram complementadas pela presença gigante de Kennet Anderson à sua frente. O centroavante sabia fazer excelente uso de seu metro e noventa e cinco, sendo um excelente alvo para cruzamentos de qualquer lugar, e sabia se virar com a bola nos pés.

O técnico Tommy Svensson entre Dahlin e Andersson.

O ataque renovado fez sucesso no torneio continental, embora o primeiro ponto tenha sido conquistado graças à defesa – ou melhor, à cabeça do zagueiro Jan Erikson, que abriu o placar contra a França, que empataria com Papin. No duelo contra a vizinha Dinamarca, a diferença foi o talento. Dahlin escapou pela direita, deu um drible da vaca no lateral e cruzou. A zaga evitou que chegasse a Thern mas deu de graça para Brolin, que decretou a vitória. A Suécia entrava assim pelo empate contra a Inglaterra no último jogo. Lineker escapou e cruzou para Platt abrir o placar, mas Erikson empatou com outra cabeçada. O empate servia, mas Brolin queria mais. Recebeu de Ingesson, acelerou, entregou para Dahlin e recebeu de volta, um toque delicado que o atacante aproveitou para encobrir o veterano Shilton.

Infelizmente não duraria muito. Os suecos falharam além da conta nas semi-finais contra a Alemanha, e acabaram eliminados por dois gols de Riedle e uma bela cobrança de falta de Hässler. Brolin, de pênalti, e Kennet Andersson, numa bola levantada por Ingesson da intermediária, descontaram. Brolin, Björklund e Patrik Andersson ainda se juntariam ao time que disputou as Olimpíadas de 1992. Mais uma vez, a Suécia passou de fase e caiu na etapa seguinte – um surpreendente 2 a 1 para a Austrália, com gol do zagueiro Shaun Murphy – a outra zebra protagonizada por ele você lê no link abaixo.

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A classificação para o Mundial de 1994 foi mais difícil do que parece. Num grupo com a Bulgária e a França de Cantona e Papin, a Suécia parecia estar condenada a disputar a segunda posição com o time de Stoichkov. Faltando duas rodadas para o fim, os franceses pareciam ter a faca e o brie na mão para se classificar: tinham 13 pontos contra 12 da Suécia e 10 da Bulgária. Porém, a França inexplicavelmente perdeu para Israel em casa, e a Suécia despachou a vizinha Finlândia para chegar a 14 pontos e deixar França e Bulgária batalhando pelo segundo lugar na última rodada (spoiler – os búlgaros prevaleceram). Um empate contra a Áustria, com gol do volante Hakan Mild – novidade pinçada do time olímpico – garantiu o primeiro lugar e a passagem para os Estados Unidos.

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Em seu último jogo em 1990, a Suécia abriu o placar cedo e acabou tomando a virada, sendo punida no final do jogo pelo camisa 7 da Costa Rica, um negro ligeiro de nome Hernán Medford. E em seu primeiro jogo em 1994, a Suécia abriu o placar cedo (com Ljung, após falha do goleiro Bell) e acabou tomando a virada, sendo punida pelo camisa 7 de Camarões, um negro forte que adorava aprontar em estreias de mundial, de nome François Omam-Biyik. O homem que derrubara a Argentina em 1990 não desistiu após ser desarmado por Nilsson e bloqueou o chutão de Patrik Andersson, entregando a Embe o gol de empate. Depois fez ele mesmo o segundo, em belo lançamento longo de Mbouh – a zaga da Suécia era lenta demais para conter lances em profundidade.

Se você me acha bonito agora, espera até eu ter as manhas de dar um passe pro Belletti na final da Champions

Eis que surge o segundo jogador negro da história da Suécia. O jovem de rastafáris loiros e pele morena, filho de um cabo-verdiano com uma sueca, que jogava até os 21 anos no semiamador Högaborg. Que depois de uma temporada estelar pelo Helsingborg (50 gols em 56 partidas), chegou à seleção ainda em 1993 e fez seu primeiro gol no confronto decisivo contra a Finlândia, nas eliminatórias. Que ficaria conhecido por seu faro de gol, inteligência sem a bola e profissionalismo exemplar, e defenderia a Suécia por 16 anos. Henrik Larsson foi colocado às pressas no lugar do inócuo ponta Blomqvist (Sir Alex anotou isto) e, 15 minutos depois, aproveitou o espaço para acertar um chutaço de mais de 20 metros. Infelizmente, foi no travessão – Dahlin precisou aparecer sozinho e concluir o rebote. A Suécia mostrava força e tentou a virada, com Kennet Andersson substituindo Ingesson, mas ficou por isso mesmo.

O próximo passo seria enfrentar os herdeiros da União Soviética – o primeiro torneio da Rússia como nação independente. Mas se os suecos vinham completos, o mesmo não se poderia dizer dos rivais – como você leu aqui, os métodos do técnico Sadyrin causaram revolta em alguns jogadores, e seis titulares acabaram fora do Mundial – incluindo o astro do Manchester United, Andrei Kanchelskis. No primeiro tempo, apenas troca de gentilezas – leia-se um agarrão em cada área que geraram pênaltis convertidos por Salenko e Brolin. Mas no segundo, a “gentileza” excessiva do zagueiro Gorlukovich – leia-se um chute no tornozelo de Dahlin – rendeu ao russo seu segundo cartão amarelo. Com um a mais, a Suécia foi pra cima. Ljung avançou de trás e abriu para Thern, que cruzou para o camisa 10 fazer de peixinho. Faltando 10 minutos para o fim do jogo, Nilsson achou Kennet Andersson (milagrosamente pelo chão), e o gigante cruzou alto para o belo cabeceio, desta vez voador, de Dahlin.

O resultado praticamente classificava a Suécia para a segunda fase – a única possibilidade seria se perdessem do Brasil e Camarões vencesse a Rússia por dois ou mais gols. Para evitar essa possibilidade, trataram de abrir o placar contra os canarinhos (que jogavam de azul). Aldair deu o bote em Brolin, mas o sueco escapou e fez lançamento longo para Kennet. O centroavante adiantou de peito um metro à frente de si, longe do alcance de Mauro Silva mas perfeito para sua perna gigante, que deu um golpe de tae kwon do à la Ibra e encobriu Taffarel. O volante brasileiro se vingaria liberando Romário com espaço na entrada da área. Bebeto e Raí distraíram a zaga sueca tempo o bastante para o Baixinho avançar e tocar de bico no canto de Ravelli. O 1 a 1 era ótimo para os dois, que fizeram um segundo tempo chato e se classificaram (enquanto a Rússia eliminava Camarões, demolindo-os por 6 a 1).

Por uma dessas atrocidades da FIFA com o corpo humano, os suecos foram obrigados a pegar a Arábia Saudita – segunda colocada do grupo F – em pleno meio dia de Dallas. Esperava-se que o calor pudesse afetar o time acostumado a jogar na neve em benefício dos sauditas, mas a Suécia não deu sopa para o azar. Logo aos 6 minutos do primeiro tempo, Andersson mostra que não é só um poste e faz belo lançamento para Dahlin, que volta de suspensão com outro belo cabeceio voador. E aos 6 do segundo tempo, apronta de novo: Al-Khilaiwi não corta direito o lançamento e é predado pelo gigante, que lhe toma a bola, dribla Madani e vence Al-Deayea com um chutaço de fora. Faltando cinco minutos, Al-Ghesheyan recebe nas costas de Ljung e faz um belo gol para dar esperança ao jogo, apenas para Dahlin achar Kennet Andersson, que dá números finais à partida dois minutos depois. A Suécia se garantia entre os oito melhores do mundo.

Em mais uma partida inexplicavelmente marcada para o meio dia do verão americano, desta vez na Califórnia, Romênia e Suécia fizeram um dos melhores empates da história das Copas. Ironicamente – ou possivelmente por causa do calor – os primeiros 78 minutos tiveram pouco a registrar. O meio de campo romeno, comandado pelo genial Hagi, sufocava o da Suécia, que sentia a falta do lesionado Thern. E foi Mild, seu substituto, quem tirou um coelho da cartola – na cobrança de falta ensaiada, ao invés de chutar ele passou rasteiro para Brolin, estrategicamente escondido atrás da barreira, que fuzilou Prunea da pequena área. A Suécia precisava se defender bem por 12 minutos – mas durou só 10. Hagi bateu falta, a bola desviou na barreira e sobrou para o centroavante Raducioiu, que escapou do zagueiro Pontus Kamark e garantiu a prorrogação.

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Após um primeiro tempo com mais chances romenas do que suecas, um desastroso intervalo de um minuto e meio quase pôs tudo a perder. Hagi cobrou falta curta para Dumitrescu. Schwarz e Patrik Andersson tentam desarmá-lo e a bola se oferece faceira para o artilheiro Raducioiu, que mais uma vez ilude Kamark e vence Ravelli. Menos de um minuto depois, o mesmo Schwarz interrompe o contra-ataque romeno e recebe seu segundo cartão amarelo, o que parecia selar o destino sueco. Não fosse a presença colossal de Kennet Andersson. Nilsson cruza quase do meio-campo, Prunea sai muito mal e o gigante intercepta a bola, cabeceando em voo para o gol vazio. O jogo iria para os pênaltis, e desta vez a Romênia teria que enfrentar Ravelli.

Antes mesmo da primeira tentativa de defesa do veterano, a Suécia já estava em desvantagem – Mild abriu a série com um field goal digno de futebol americano, mas que não contou pontos aqui. Raducioiu, K. Andersson, Hagi, Brolin, Lupescu e Ingesson trocaram acertos até a vez de Dan Petrescu. O lateral, que fazia um torneio esplêndido, bateu à meia altura no centro da meta, e o goleiro esticou um braço felino para bloquear o pênalti (e sair fazendo graça). Roland Nilsson e Dumitrescu fizeram suas cobranças e levaram a disputa para os chutes alternados. O primeiro a bater pela Suécia foi o jovem Larsson, que fez sua parte. A Romênia escolheu o veterano Belodedici, que bateu forte no canto direito. Para azar dele, o imenso Ravelli estava atento e esticou a mão para impedir o chute e impelir a Suécia às semi-finais.

Pela terceira vez em quatro anos, havia um grande rochedo amarelo no caminho da Suécia, que conhecemos carinhosamente como Seleção Brasileira. Enfrentar os brasileiros em Copas nunca foi boa notícia para a Suécia, que nas seis partidas até então, conseguira apenas dois empates e quatro cacetadas, a menos pior delas o 2×0 em 1990. Thern retornou e ocupou a vaga do suspenso Schwarz, mantendo a formação do torneio inteiro. Mas não o espírito. Brolin parecia quieto, Dahlin pouco acionado, Kennet Andersson sumido, e a Suécia inteira se defendendo com Ravelli.

O Brasil atacava, pressionava, mas a bola não entrava. Zinho perdeu chance cara a cara com o goleiro, Romário teve um gol salvo em cima da linha por Andersson e Mazinho chutou para fora o rebote sem goleiro. O apoiador acabaria trocado pelo meia Raí, numa tentativa de Parreira de ter presença de área. Nem os chutaços de Branco entravam. Mesmo com um a menos – Thern foi expulso direto por falta forte em Dunga – Ravelli, que fazia partida monumental, se deu ao luxo de brincar quando uma bola de Zinho saiu pela linha de fundo. Eis que, faltando 10 minutos, o lateral Jorginho faz o cruzamento de sua vida. Ele recebe livre na ponta e cruza no segundo pau, bem atrás do alto Patrik Andersson, bem à frente do alto Roland Nilsson, bem na cabeça do baixinho Romário. 1 a 0. Mesmo perdendo, Tommy Svensson optou por não colocar mais atacantes e apenas assistiu à eliminação. (Teria Dunga anotado a tática para usar em 2010?).

Fala pra eles que eles são grandes mas eu sou mau!

Ao contrário de seleções exuberantes como Bulgária e Romênia, não era do feitio sueco chamar a atenção para si – talvez por isso as exibições brilhantes de Hagi e Stoichkov recebam mais destaque do que o belo time coletivo escandinavo, que ficou à frente de todos eles na classificação. O jogo de terceiro lugar, considerado um anti-clímax, foi mais uma vergonha alheia por parte da Bulgária, que claramente não queria estar ali. O goleiro Mikhailov pediu para ser substituído no intervalo, e o cult hero Trifon Ivanov teria dito ao técnico que se continuasse em campo, arranjaria uma expulsão. A Suécia, que não tinha nada com isso, fez um jogo de exibição de suas melhores armas – cruzamento de Kennet para alguém dar uma cabeçada voadora (desta vez Brolin), falta rápida que pega a defesa desprevenida (desta vez Brolin devolveu para Mild) e bola longa para Andersson ganhar de cabeça do goleiro. Ainda houve tempo para Larsson vencer a linha de impedimento, driblar Mikhailov e Ivanov para fazer seu primeiro gol em Copas. Tudo isso no primeiro tempo, embora não fariam mais no segundo – talvez por dó.

O ataque possante e a jovem defesa pareciam destinados a fazer um papel bonito no cenário mundial por um bom tempo, mas a vida tinha outros planos. Empates em casa com Turquia, Suíça e Islândia custaram aos suecos a vaga na Euro 1996. Jogadores chave como Dahlin e Brolin estavam sofrendo com lesões, das quais nunca se recuperariam e encerrariam as respectivas carreiras antes de completarem 30 anos, assim como o lateral Ljung, que optou por virar agente esportivo. Derrotas logo no início das eliminatórias para as não muito brilhantes Áustria e Escócia foram demais para o envelhecido time com talentos quebrados, que acabou fora da Copa do Mundo de 1998 – resultado que levou à aposentadoria nacional de Ingesson, Thern, Limpar e principalmente de Ravelli, beirando os 40 anos.

Welcome to the Premier, we’ve got lots of cake! – Após as lesões, Brolin sofreu com excesso de peso até o fim da carreira.

A geração se reconstruiria em torno de dois pilares: Patrik Andersson na defesa e Henrik Larsson, voando no Celtic, no ataque. Um time que ainda tinha remanescentes de 1994 conseguiu classificação para a Euro 2000, onde foram surrados por Itália e Bélgica e acabaram eliminados em último lugar no grupo. Isso acelerou a saída dos veteranos remanescentes – Roland Nilsson, Björklund, Schwarz, Mild e Kennet Andersson. Os responsáveis pelo relativo sucesso nas Copas de 2002 e 2006, mais a Euro 2004, seriam os dois pilares mais novos nomes: o goleiro Magnus Hedman, o vigoroso defensor Mellberg, o zagueiro e lateral Teddy Lucic, os volantes Linderoth e Daniel Andersson (irmão mais novo de Patrik), o ala direito Alexandersson, o incansável meia Anders Svensson e duas caras conhecidas: a lenda do Arsenal Freddie Ljungberg e um certo atacante narigudo de descendência balcânica…

Na União Soviética, a seleção sueca se aposenta de você, Zlatan.

Podemos não apreciar o futebol atualmente apresentado pelos suecos – até porque, é bem difícil gostar desse jogo defensivo, físico e um tanto tosco – mas é uma loucura desprezá-los por isso. Enquanto seleções com mais talento – Holanda, Itália, Alemanha, Argentina, Portugal, Espanha – ficam pelo caminho, o jogo quadrado dos suecos os mantém firmes em seu curso desde a aposentadoria de Ibrahimovic. Pode ser que a defesa da Suécia seja pesada, seu ataque idem, mas uma coisa Ravelli e cia. nos provaram: a camisa também é.

Nilsson, K. Andersson, Ljung, Ingesson, Brolin, Ravelli; Thern, Dahlin, P. Andersson, Schwarz e Björklund. Larsson era reserva.

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.