Throwback Thursday#13 – Selo paraguaio de qualidade
31 de maio de 2018

Gamarra, Ayala, Chilavert – vitais para o sucesso paraguaio

Hoje o #tbt vai aqui perto falar de uma geração que foi longe no tempo. Do único país sul-americano, exceto os campeões mundiais, a participar de quatro Copas seguidas. De uma geração que começou com um goleiro artilheiro e uma defesa robusta e ficou a um pênalti de eliminar o eventual campeão. Acima de Chilavert, de Gamarra, de Santa Cruz e de Cardozo, o texto de hoje é sobre o Paraguai que marcou época por quase 15 anos.

Capítulo 1: o melhor ataque é a defesa.

Poucos sabem, mas a geração de ouro paraguaia quase tem outro quase-crime em sua história: as Eliminatórias de 1994. Num grupo com Peru, a forte Colômbia e a Argentina, apenas o vencedor iria direto ao Mundial, enquanto o segundo colocado disputaria a repescagem com a inexorável Austrália o representante da Oceania. Após segurarem um empate heroico em Buenos Aires, a situação do grupo era que o Paraguai estava a 2 pontos (uma vitória, na época) da Argentina e a 1 ponto da Colômbia. Precisaria vencer o Peru e torcer para que a Argentina vencesse os colombianos. Ou, na alternativa mais improvável, que a Colômbia fizesse 4 a 0 no Monumental de Núñez e permitisse ao Paraguai passar o saldo de gols platino com uma vitória simples.

Talvez o caro leitor já tenha adivinhado, ou lembrado, que a Colômbia fez não só 4, mas 5 a 0 nos argentinos, e o Paraguai ficou de fora da repescagem apenas por não conseguir fazer mais um gol no resoluto time peruano – seria o único ponto dos andinos no grupo. O forte do Paraguai, já nessa época, era a defesa e o goleiro-artilheiro Chilavert – o primeiro da posição a registrar um hat-trick e por um bom tempo detentor do recorde de arqueiro mais artilheiro. Carlos Gamarra ainda era um jovem no banco de Catalino Rivarola e Celso Ayala. Três anos depois de segurarem a Argentina, a defesa paraguaia – reforçada pelos cruzamentos e chutes mortais do lateral “Chiqui” Arce e da onipresença de Denis Caniza – teria quatro campeões da Libertadores: Ayala em 96, Arce e Rivarola em 95, e Chilavert em 94 (que ainda faturou o Mundial).

Com exceção de Chilavert, Caniza e o também lateral Pedro Sarabia, a primeira leva da geração de ouro paraguaia teria imensa identificação com o Brasil: Rivarola adicionaria um Brasileiro à sua Libertadores na sala de troféus do Grêmio. Seu colega Arce estaria junto e se transferiria Felipão até o Palmeiras, onde venceria a inédita Libertadores pelo clube. O feito de Arce foi o único que o compatriota Gamarra não atingiu pelo Corinthians, clube no qual ganhou um Brasileiro, um Paulista e milhões de corações. A fiel torcida ficou encantada com o excepcional jogo aéreo e desarme do zagueiro – que ainda por cima era tão leal que ficava difícil até para os adversários odiá-lo. Também passou por Inter e, mais ao fim da carreira, um ano discreto pelo rival Palmeiras. Mais ao Sul, o volante Struway teve atuações regulares pelo Coxa, enquanto seu colega de posição Enciso marcou época defendendo por quatro anos as cores do Inter – que também importou o defensor Espínola, de passagem na seleção tão discreta como a passagem dos já veteranos Celso Ayala pelo São Paulo e Tavarelli – um dos muitos reservas de Chilavert – pelo Grêmio.

Gamarra, Rivarola, Arce, Enciso – dos 15 jogadores do Brasileirão que foram pra Copa, 4 eram paraguaios

Capitalizando a ausência do Brasil nas eliminatórias, a defesa paraguaia prevaleceu nas eliminatórias. Foram apenas 14 gols sofridos, a segunda melhor atrás apenas da Argentina. Além de anotar 7 dos 21 gols da campanha. As eliminatórias sul-americanas com turno e returno, então uma novidade, privilegiavam os times mais regulares. Com mais confrontos contra Bolívias e Venezuelas, o regular time paraguaio prevaleceu a longo prazo e carimbou seu retorno ao Mundial após 12 anos de ausência.

Capítulo 2: Fechado em Copas

Na última Copa antes de 98 disputada pelos paraguaios, a tônica era o ataque. Liderados por Romerito, do Fluminense, e pelo artilheiro Roberto “Pantera” Cabañas (sem parentesco), até o Chilavert do elenco – Rolando, irmão mais velho do goleiro – era meia ofensivo. O técnico era Cayetano Ré, que liderou o ataque na Copa de 58 e marcou época na Espanha na década de 60, chegando inclusive a ganhar o Pichichi pelo Barcelona em 1965. Com quatro gols em três jogos, os paraguaios superaram o Iraque, seguraram os fortes belgas e o anfitrião México para fazer histórias e chegar às oitavas – onde caíram para a Inglaterra de Lineker.

Cayetano Ré. Ofensivo como jogador e como treinador – o primeiro técnico a ser expulso em Copas

O time que foi para a Copa da França era exatamente o oposto. As opções de frente – Miguel Benítez, José Cardozo, Hugo Brizuela – não eram exatamente o sonho do técnico brasileiro Carpegiani. O time era tão limitado do meio para a frente que o dinâmico volante Roberto “Toro” Acuña foi adiantado como meia para ajudar o limitado ataque. Também para acomodar no time o jovem Carlos Paredes, que vinha pedindo passagem. Na prática, as maiores opções ofensivas se concentravam nos menores números: 1, Chilavert, cobrando faltas e pênaltis, e 2, Arce, com lançamentos, cruzamentos e bolas paradas.

O 5-3-2 base, que podia virar 4-4-2 com Jorge Campos no lugar de Caniza.

Ou seja, a suspensão do lateral palmeirense para a estreia contra a Bulgária era má notícia e tornou o resultado mais previsível: o fraco ataque paraguaio não testou a instável defesa búlgara, enquanto a defesa guarani lidou tranquilamente com Stoichkov e companhia envelhecida, resultando no primeiro empate sem gols do torneio. O 0 a 0 se repetiria no segundo jogo, mas seria imensamente mais comemorado – segurar a forte Espanha de Raúl e Luis Enrique foi um feito e tanto. Melhor ainda, como os ibéricos haviam perdido o primeiro jogo para a campeã olímpica, a forte Nigéria, o Paraguai estava na frente – embora precisasse vencer o terceiro jogo exatamente contra os africanos para se classificar. Mas a situação era diferente. Classificados, os nigerianos pouparam Okocha, Finidi, Amokachi, Ikpeba e toda a defesa exceto o pouco confiável West. Carpegiani aproveitou para ousar escalando três atacantes e, fácil como 1-2-3, Ayala, Brizuela e Cardozo consolidaram a vitória e tornaram inútil o 6 a 1 da Espanha na decadente Bulgária.

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Nas oitavas, o Paraguai era franca zebra contra a anfitriã França. Porém, sem Zidane (suspenso por agressão insensata), o ataque gaulês – composto pelos jovens Henry e Trézéguet, o inconstante Djorkaeff e os deprimentes Guivarc’h e Dugarry – prometia ter muita dificuldade contra a muralha paraguaia. Jacquet acertou em escalar o ofensivo ponta Dioméde para agredir o flanco direito e segurar os avanços de Arce, mas de resto, não encontrou maneira de furar o bloqueio. Conforme o tempo passava, a atmosfera de tensão no estádio Félix-Bollaert tornava-se audível: os franceses pareciam perceber que um confronto nos pênaltis favoreceria o time que contava com o formidável Chilavert, e que esse time não era o deles.

Isso seria evitado apenas uma combinação de desespero francês e hesitação de Carpegiani. Gamarra sentia dores no ombro, mas o brasileiro resistia à ideia de trocar seu melhor zagueiro pelo frio (e lento) Rivarola. Arriscou e gastou sua última troca colocando Aristides Rojas, que recompunha à la Ángel Romero. Saiu pela culatra. Jogando com um desvio de dois centímetros da clavícula, o defensor não foi páreo para o jovem e forte Trézéguet, que subiu sozinho para receber de Pirès e ajeitar para quem vinha de trás. O encaixe individual da defesa sul-americana dava conta de todos os atacantes, mas não do zagueiro Laurent Blanc, que abandonou a zaga para subir e marcar o primeiro gol de ouro da história das Copas. Não adiantou a excelência de Gamarra, que terminou o torneio sem cometer faltas. O Paraguai estava fora.

Capítulo 3: Daqui não saio, daqui ninguém me tira

A história conta vários exemplos de times que fizeram bonito em um torneio e de modo geral decepcionaram dali em diante: Turquia e Senegal em 2002, Ucrânia em 2006, Rússia em 2008. Se alguém apostou que o Paraguai teria o mesmo fim após o bonito papel em 1998, errou rude. Fizeram bom papel na Copa América em casa, liderando seu grupo e caindo para o vice-campeão Uruguai nos pênaltis (com Tavarelli no gol – Chilavert boicotou o torneio que julgou um gasto desnecessário de dinheiro público).

Não teriam melhor sorte na edição de 2001, eliminados pelo Brasil na fase de grupos, mas vitórias contra Brasil, Uruguai e Colômbia permitiram aos comandados do argentino Sergio Markarián confirmar a vaga para a Copa da Ásia com duas rodadas de antecedência, ao segurar a Argentina de Bielsa, de campanha quase irretocável nas eliminatórias. O time estava mais equilibrado, para o bem e para o mal: o ataque foi reforçado pelo habilidoso e errático meia Guido Alvarenga, o ligeiro ponta Nelson Cuevas e Roque Santa Cruz, que evoluiu de um adolescente promissor do Olimpia a uma máquina goleadora depois que foi recrutado pelo Bayern de Munique.

Por outro lado, a defesa não envelheceu bem. Gamarra teve passagens apagadas por AEK de Atenas, Flamengo e Atlético de Madrid, onde acabou rebaixado. Mesmo destino teve Arce, que jogou até no meio campo do Palmeiras que caiu em 2002, e de Celso Ayala, que também estava no elenco colchonero e acumulou passagens ruins por Betis e São Paulo antes de voltar para o River Plate com 32 anos. Enciso já não era mais convocado, e Struway era reserva. Chilavert também não era mais o mesmo, e ainda perderia o primeiro jogo da Copa por cuspir em Roberto Carlos – o lateral brasileiro teria insultado o goleiro após o encontro pelas eliminatórias.

Baba, baby!

Na Ásia, Cesare Maldini substituiu Markarián, e decretou a preferência pelo 5-3-2 com a entrada de Júlio Cáceres (que jogaria no Galo), para aliviar a pressão no veterano Ayala. No meio campo, o volante e lateral Diego Gavilán conquistou a vaga pela direita, enquanto a intensidade de Cuevas se sobrepôs à preguiça de Alvarenga. A estreia foi novamente um empate, mas não por 0 a 0 – a África do Sul conseguiu vazá-los. O Paraguai vencia até os acréscimos, quando Tavarelli cometeu pênalti em Zuma, que Fortune converteu. Não era bom prenúncio para quem enfrentaria uma Espanha querendo revanche. Puyol, contra, colocou o Paraguai na frente, mas Morientes virou e Hierro selou a vingança através de outro penal.

A situação não era a ideal. Os guaranis precisavam que a Espanha derrotasse a África do Sul ao mesmo tempo que eles tiravam dois gols de saldo contra a estreante Eslovênia, e fizeram 45 minutos tão desastrosos no primeiro tempo que qualquer um que apostasse no Paraguai nas oitavas seria tachado de louco. Paredes recebeu dois amarelos nos primeiros 22 minutos, Chilavert engoliu um belo frango no chute fraco de Acimović e, enquanto isso, a África do Sul segurava uma Espanha em ritmo de treino. No entanto, Raúl marcou e tanto Maldini como Katanec fizeram algumas mudanças vitais: Pavlin, âncora do meio esloveno, se lesionou, e Acimović, que concentrava as ações ofensivas, foi inexplicavelmente sacado. Pelo Paraguai, os inoperantes Alvarenga e José Cardozo deram lugar a Jorge Campos (não esse que você pensou) e o infernal Cuevas, que mudaria o jogo.

Ele logo recebeu na ponta, driblou para dentro da área e empatou de canhota. Sentindo a insegurança da defesa, Campos também tentou de longe e fez 2 a 1 pouco depois. Enquanto isso, as arrancadas de Cuevas rendiam cartões e mais cartões aos eslovenos, culminando na tesoura criminosa que renderia o vermelho a Nastja Ceh. Ele finalmente sairia lesionado de tanto apanhar, mas não sem antes repetir a dose: recebeu pela ponta direita, driblou meio mundo e fez o gol da classificação.

Mais uma vez, o caminho do Paraguai conduziu a um gigante europeu – desta vez a Alemanha, nas oitavas. Santa Cruz, sofrendo com lesões, saiu no segundo tempo, e Cuevas ficou no banco após as muitas faltas sofridas contra a Eslovênia. Após 88 minutos de um futebol abominável, Metzelder ganhou no ar de Caniza, Schneider ligou o turbo pela direita e cruzou para Neuville, que surgiu das trevas, se antecipou a Celso Ayala e venceu Chilavert. No desespero, Maldini pôs Cuevas, mas a decisão de Acuña de agredir Ballack decretou a eliminação.

Capítulo 4: A difícil arte de rejuvenescer

Após levar o Paraguai a duas oitavas seguidas, os veteranos de 2002 começavam a dar adeus. Chilavert, Tavarelli, Arce, Ayala, Struway, Alvarenga e José Cardozo se aposentaram da seleção e, cada um a seu tempo, do futebol. Os veteranos Gamarra (agora capitão) e Toro Acuña eram os caciques de uma tribo que se baseava em Caniza, Paredes, Gavilán, Cuevas e Santa Cruz. Novos valores, como o goleiro Justo Villar, o viril lateral Delio Toledo, os meias Édgar Barreto e o cigano Julio dos Santos e o oportunista Haedo Valdez.

Uma mescla de atacantes talentosos, jovens jogadores em seu auge físico somados a uma defesa capitaneada por Carlos Gamarra poderia ser um sonho realizado – mas a realidade chegou mais perto de um pesadelo. Os resultados não chegaram a ser ruins, mas a realidade era um time burocrático e previsível. Era suficiente para se manter como uma das forças do continente: derrotaram os reservas do eventual campeão Brasil na Copa América de 2004, para subsequentemente serem eliminados pelo Uruguai nos pênaltis. Também não fizeram uma eliminatória brilhante, mas souberam se impor em casa o bastante para se classificar com uma rodada de antecedência. Porém, quando pareado contra times europeus na Copa de 2006, o time acostumado a dar trabalho e cair de pé foi eliminado quietamente por apenas dois gols.

O primeiro, ironicamente, seria de Gamarra. Toledo fez falta desajeitada e Beckham cobrou com tanto veneno que fez o capitão paraguaio jogar contra o próprio patrimônio, vencendo Villar com apenas três minutos de jogo. O que poderia significar uma abertura de gala para a geração de ouro inglesa se revelou um jogo maçante onde o estelar meio com Beckham, Lampard, Gerrard e Cole basicamente passou os 87 minutos seguintes segurando sem muitas dificuldades um estéril Paraguai. O jogo seguinte, contra a Suécia, seria ainda mais triste: os suecos precisavam ganhar após terem perdido pontos contra Trinidad e Tobago, então foram pra cima dos sul-americanos com toda a força de Ibrahimović e Henrik Larsson. O time de Aníbal Ruiz conseguiu segurá-los – até os acréscimos: o substituto Ållbäck recebeu de Larsson e achou Ljungberg sozinho vindo de trás. O meia do Arsenal cabeceou pro gol e condenou os paraguaios a faturar seus únicos 3 pontos num jogo anticlimático contra os caribenhos.

A derrocada parecia inevitável. Gamarra se aposentou, Toro Acuña se aposentou e Roque Santa Cruz entrava em decadência – em 2007, após quase dois anos longe do time titular, trocaria o Bayern pelo modesto Blackburn. Seu lugar como esperança ofensiva foi (não tão) sutilmente tomado por Salvador Cabañas, carrasco de brasileiros na Libertadores, e Óscar Cardozo, do Benfica. Essa poderosa força ofensiva foi responsável por fazer redondos 5 a 0 na Colômbia na Copa América de 2007, resultado que garantiu os paraguaios nas quartas – onde tomaram do México um 6 a 0 de perder o rumo de casa. Seria a tônica dos paraguaios. Com um time capaz de vencer o Brasil e a Argentina em casa e fazer resultados como 5 a 0 no Equador, também era o time que tomava 4 a 2 da Bolívia e perdia para o Chile em casa. A fase irregular de Argentina e Uruguai facilitou para que os comandados de Tata Martino se classificassem confortavelmente para a Copa da África.

Capítulo 5: Apogeu e queda

Denis Caniza, o único paraguaio a disputar quatro Copas do Mundo

Doze anos depois, o Paraguai ia a seu quarto mundial seguido com uma geração literalmente avessa à de 98: mesmo sem Cabañas, cuja carreira foi interrompida por um marginal, haviam atacantes empolgantes como Cardozo, Santa Cruz, Valdez e o argentino Lucas Barrios, que estava jogando o fino no Borussia Dortmund e concluiu sua naturalização em Janeiro de 2010. No entanto, na outra ponta, protegendo o bom goleiro Villar estavam jogadores medianos como os veteranos Carlos Bonet e Caniza, mais os laterais Darío Verón e Morel Rodríguez, mais os zagueiros Paulo da Silva e Antolín Alcaraz.

E foi Alcaraz quem apareceu para iniciar mais um capítulo de zebras históricas protagonizadas pelos guaranis. O zagueiro do Brugge subiu no terceiro andar e venceu ninguém menos que Cannavaro para completar para o gol o cruzamento de Aureliano Torres. De Rossi escapou do abraço de Barrios para devolver o favor no segundo tempo, mas a ofensiva italiana, desfalcada de Andrea Pirlo, não conseguiu mais do que isso. O empate já era bom para o Paraguai, mas ficou melhor ainda depois que Vera e Riveros marcaram duas vezes contra a Eslováquia e puseram o time em primeiro lugar do grupo.

O setor de meio campo – que pouco apareceu nesta história – foi a chave para o sucesso paraguaio no torneio. Contava com um homem fixo à frente da área (normalmente Víctor Cáceres) e box-to-boxes com muito fôlego: Cristian Riveros e Enrique Vera, ou Édgar Barreto. Como os laterais não apoiavam muito, o comportamento dos meias determinava se o time iria agredir a saída de bola ou absorver a pressão e sair para o contragolpe com o trio de ataque – o incansável Valdez e Santa Cruz de segundo atacante, atrás de Barrios ou Cardozo, que ganhou a posição durante o torneio.

A velocidade de Valdez e a movimentação dos meias era vital num esquema onde os laterais guardavam posição

Se o esquema produzia bons jogos contra adversários de ataque forte, o Paraguai era tedioso contra times mais fracos. No terceiro jogo do grupo, bastava um ponto contra a surpreendente Nova Zelândia, que chegava invicta com dois empates e invicta sairia, com um terceiro. Nenhum dos dois times atacou e o 0x0 se arrastou por 90 minutos. Classificava assim o Paraguai para mais 120 minutos de locaute contra o também surpreendente Japão, que contava com Honda e Nakamura em bela forma. Após 2 horas de placar zerado, japoneses e paraguaios trocaram cobranças de pênalti com sucesso até o erro do lateral Komano. Coube a Cardozo bater o quinto pênalti no gol e classificar o Paraguai para as quartas de final pela primeira vez na história.

E mais uma vez, os deuses do futebol colocavam o Paraguai frente a frente com seu colonizador. Mas desta vez não era o bando desorganizado que Javier Clemente treinava na Copa da França, e sim La Roja – que abandonou o apelido de Fúria assim como abandonara Raúl e abraçara o tiki-taka dos craques Xavi e Iniesta. E Xabi Alonso. E Fàbregas. E Busquets. O Paraguai veio com Jonathan Santana no lugar de Santa Cruz para povoar mais o meio-campo e segurar os temíveis meias espanhóis. E funcionou. Exceto um chute de fora de Xavi, a Espanha não conseguia penetrar o ferrolho guarani. Como contra os franceses em 98, tiveram a chance de cometer O crime – Piqué deu uma chave de braço Rouseyesca em Óscar Cardozo na área, mas o atacante cobrou bisonhamente e Casillas comeu com farofa.

Quando a competência falhou, veio a sorte: Villa, de longe o jogador mais agudo da Espanha, foi lançado em profundidade, ganhou de Alcaraz na corrida e foi derrubado pelo zagueiro. Xabi Alonso converteu, mas metade do time espanhol invadiu a área, de forma que o árbitro mandou voltar. Villar leu certo desta vez, defendeu a segunda cobrança e aproveitou para fazer um pênalti em Fàbregas no rebote, que o juiz sonegou. O cansaço por correr atrás dos baixinhos espanhóis começava a pesar. O Paraguai se recolheu a seu campo com apenas Santa Cruz e Cardozo isolados na frente, e foi enfim vencido pela genialidade de don Andrés. Iniesta recebeu entre Cáceres e Vera, escapou do volante, driblou Alcaraz e atraiu o resto da defesa para deixar Pedro livre com um passe obsceno. O ponta do Barcelona acertou em cheio – a trave direita. O rebote ficou pra Villa, que acertou em cheio – a trave esquerda – antes de entrar no gol. Martino trocou Cáceres por Barrios, mas Casillas salvou a chance final do atacante do Dortmund. Entre pênaltis e traves, o conto de fadas paraguaio morria mais uma vez nas mãos de um futuro campeão inédito.

 

O canto do cisne da geração seria a Copa América de 2011. Um time mais manjado, um tanto pragmático demais – com três empates em três jogos, ficou na terceira posição do grupo e só foi à segunda fase pelo saldo de gols. Segurou um empate contra o Brasil de Mano Menezes, que mostrou que era cronicamente incapaz de acertar o gol ao errar as quatro cobranças batidas na decisão por pênaltis. O time de Martino fez dois e avançou para repetir o feito contra a surpreendente Venezuela. Desta vez, 5 a 3, graças a um erro solitário de Lucena. O time conseguia a façanha (infame) de chegar à decisão sem vitórias, com cinco empates – três deles por 0 a 0 – e confiando em Villar. Não foi o bastante na decisão. Voando baixo, o Uruguai de Cavani, Forlán e do possuído Luis Suárez fez um redondo 3 a 0 para colocar ponto final na tenebrosa campanha guarani.

O time foi à Copa América já sem o sobrevivente Caniza, e de lá para cá perdeu Santa Cruz, Morel, Vera, Barreto e o infeliz Alcaraz, que vem sofrendo com lesões pelos últimos anos. Jogadores como Cáceres, Riveros, da Silva, Cardozo e Barrios ainda são convocados mesmo já tendo passado dos 33 anos, e o quarentão Villar ainda é titular. A renovação não é a ideal – de destaques, apenas o ligeiro Derlís González, o jovem goleador Tony Sanabria e o impávido zagueiro Balbuena, mais um  paraguaio a arrebatar corações corinthianos. Talvez até 2022, tenhamos novidades. Com o Paraguai, nunca se sabe. Se tem uma coisa que a geração ensinou, é a de que nunca se deve desprezá-los…

Cardozo, Villar, Verón, Alcaraz, Cáceres e da Silva; Valdez, Barreto, Morel Rodríguez, Riveros e Santana: até hoje, a melhor colocação em Copas.

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.