Throwback Thursday#04 – O Maradona que elevou os Cárpatos
29 de março de 2018

Aqui, uma bola buscando refúgio no lugar mais seguro em campo – o pé esquerdo de Hagi

O #tbt de hoje é sobre um homem que forjou uma geração à base de talento. Em 10 de Agosto de 1983, aquele que seria o melhor jogador da história da Romênia estreava pela seleção nacional contra a Noruega, em Oslo. Desde então, foram 3 EuroCopas e 3 Copas do Mundo. Ele também é o recordista de partidas (125, empatado com Munteanu) e de gols (35, empatado com Ilie). Falamos, é claro, de Gheorghe Hagi – carinhosamente apelidado de “Maradona dos Cárpatos” pela imprensa mundial, “Comandante” pela torcida do Galatasaray ou simplesmente “Rei” pelos romenos aficionados por futebol.

Hagi era o camisa 11 – não 10 – do time que ficou em 1º Lugar no Grupo 5, superando Suécia e Tchecoslováquia, para se classificar à Eurocopa de 1984 (o que era bem difícil, dado que apenas 8 times se qualificavam). O time estava longe de ser brilhante e acabou na lanterna no grupo com Espanha, Portugal e Alemanha Ocidental, sem fazer pontos. Também não teve melhor sorte na qualificação para o Mundial de 1986 – uma derrota em casa para a Irlanda do Norte significou que os britânicos acabariam um ponto à frente dos romenos na briga pelo segundo lugar. Para a Euro 1988, apenas um time por grupo se classificava, e a Espanha confirmou o favoritismo – também por apenas um ponto.

A sorte eventualmente sorriria. O grupo das eliminatórias europeias não tinha nenhum cabeça de chave forte, e a Dinamarca que seria campeã europeia em 1992 foi batida por um ponto, qualificando a Romênia para sua segunda Copa do Mundo, onde cairia num grupo com a campeã Argentina, a URSS e os camaroneses – que protagonizaram a maior zebra da Copa ao segurar os Hermanos e vencer mesmo com dois jogadores a menos. Enquanto isso, a Romênia estreava com o pé direito após vencer os soviéticos por 2 a 0, com dois gols do atacante Marius Lacatus.

A base do time era o Steaua vice-campeão europeu em 1989 – já estavam no time o goleiro e capitão Silviu Lung, o jovem e ofensivo lateral direito Dan Petrescu, que podia jogar no meio (como faria por muito tempo no Chelsea), mais Lacatus, mais o ponta esquerda Gavril Balint – estes dois, participantes da glória máxima do futebol de clubes romeno, a conquista da Europa pelo Steaua Bucareste sobre o Barcelona, em 1986. Além deles, já despontavam o zagueiro e volante Gica Popescu, capitão do Craiova que se destacaria no PSV, Barcelona e Galatasaray, o box-to-box Ioan Lupescu, o ligeiro atacante Ilie Dumitrescu e o jovem goleador Florin Raducioiu – que apesar de uma carreira decepcionante por clubes, é até hoje o único jogador a fazer gols nas ligas italiana, espanhola, inglesa, alemã e francesa.

O segundo jogo seria o duelo das surpresas, com os romenos encarando Camarões e sucumbindo a um Milla inspirado, que saiu do banco para fazer dois gols. Precisavam agora segurar a campeã Argentina para se classificar – uma derrota poderia significar a eliminação. Após perderem um caminhão de chances, os romenos saíram atrás num escanteio convertido por Monzón (aquele mesmo que se tornaria o primeiro a ser expulso em uma final de Copa). Mas os romenos eram melhores. Lacatus cruzou para Raducioiu ajeitar pro meio, onde Balint converteu. A Romênia ficava em segundo no grupo – à frente da Argentina – e encarava outra surpresa da Copa, a Irlanda, que baseou sua campanha em segurar empates. Inexoravelmente, o miserável 0x0 se arrastou até os pênaltis, onde o erro solitário do meia Timofte significou a eliminação.

Após uma campanha decepcionante onde não se classificaram para a Eurocopa de 1992, o time que disputou as eliminatórias para 94 viu algumas mudanças. Balint não fazia mais parte do elenco, bem como Lung, que deixou a vaga no gol para Bogdan Stelea e a faixa de capitão para Hagi – tornando-o oficialmente, “10 e faixa”. Também chegariam ao time outras figurinhas carimbadas – o incansável médio Dorinel Munteanu, o lateral esquerdo Tibor Selymes, o imponente zagueiro Daniel Prodan e o líbero Miodrag Belodedici – campeão europeu com o Steaua em 1986, o excelente jogador de ascendência sérvia decidiu jogar no Estrela Vermelha em 1988. Infelizmente para ele, o regime do ditador Nicolae Ceaucescu considerava isto deserção, o que fez do jogador um criminoso. A federação romena acionou a UEFA, que impediu Belodedici de fazer partidas oficiais até 1989 – quando Ceaucescu foi removido a balas. A má forma resultante do ano parado custou ao zagueiro uma vaga em 1990, mas quatro anos depois, credenciado por vencer novamente a Copa da Europa pelo Estrela Vermelha, o jogador faria um torneio brilhante em gramados americanos – os romenos se classificaram direto.

Time que iniciou a Copa de 1994: Stelea, Popescu, Prodan, Belodedici, Mihali, Raducioiu; Lupescu, Munteanu, Hagi, Dan Petrescu e Dumitrescu

Neste ponto, deve-se dizer que em 1990, Hagi era uma estrela em ascensão, credenciado pelo relativo sucesso continental do Steaua e uma boa Copa do Mundo. Após a execução de Ceaucescu, os romenos podiam novamente sair do país, e o Real Madrid se interessou e o trouxe logo após a Copa. A partir daí a carreira do craque desandou. Duas temporadas sem títulos em Madrid o levaram ao Brescia, onde acabou rebaixado no fortíssimo Calcio da época. Quando ele chegou na Copa, sua galeria de títulos contava apenas com algumas Supercopas e títulos de liga romena – ele ainda não estava no Steaua na final de 1986 – e havia acabado de retornar o Brescia à primeira divisão. De forma que quando chegou na Copa, ninguém além dos romenos dava muita bola para o habilidoso, porém errático, Hagi.

Se ninguém lhe dava bola, Hagi resolveu comê-la. Começou o torneio destruindo a forte Colômbia– duas enfiadas pornográficas para Raducioiu, e entre elas, uma obra de arte. Após receber de Mihali na meia esquerda, Hagi aproveitou a marcação à distância de Perea e o fato do goleiro Córdoba estar adiantado e chutou forte no ângulo oposto do arqueiro. Golaço. De craque. A Romênia mostrava suas credenciais na Copa em grande estilo.

Hagi marcaria novamente contra a Suíça, mas não seria suficiente. Um show de horrores da defesa amarela decretou a amarelada, e os suíços deram chocolate – um redondo 4 a 1. Stelea perdeu sua vaga para Florin Prunea até o fim do torneio, tamanho show de horrores. Com apenas 3 pontos, precisariam no mínimo empatar com os donos da casa para garantir que não seriam ultrapassados pelos colombianos. Após um começo turbulento, Hagi achou Dumitrescu que achou Hagi de novo que achou Raducioiu que achou Petrescu que achou o espaço que Meola deixou junto à trave, para fazer o gol que decretou que os romenos passariam em primeiro no grupo. O bônus que viraria ônus – os primeiros colocados pegavam os terceiros colocados de pior classificação, o que no caso da Romênia era ninguém menos que a Argentina – do Maradona original.

Infelizmente para o futebol, o hábito de don Diego de usar o que não devia – desta vez, efedrina – significou que ele passou o jogo todo assistindo das tribunas aquela que talvez seja a partida mais importante da história do futebol romeno. Com Raducioiu suspenso, a Romênia efetivou um 3-5-2, com Petrescu e Selymes jogando de alas, Popescu, Lupescu e Munteanu povoando o meio e Hagi e Dumitrescu com total liberdade para aterrorizar a defesa argentina. O atacante do Steaua abriu o placar logo no início, em cobrança de falta da ponta-esquerda. Batistuta empatou 5 minutos depois num pênalti cavado em cima de Prodan. Mas não iria durar. Hagi recebeu na ponta direita, levou Chamot na conversa e achou Dumitrescu, que finalizou de perto. No segundo tempo, uma falha de Basualdo deixou Dumitrescu livre mais uma vez para correr o campo todo e retribuir o favor a Hagi, que fez 3 a 1 e explodiu a torcida amarela no Rose Bowl (um prenúncio, talvez?).

Jogando de vermelho, os romenos saíram atrás no confronto com a Suécia – cobrança de falta no segundo tempo, Mild achou Brolin atrás da barreira, que não perdoou. De volta à equipe, Raducioiu empatou pouco depois – Hagi bateu falta que desviou na barreira e sobrou para o centroavante finalizar. Na prorrogação, Raducioiu atacou de novo – a defesa sueca desarmou Dumitrescu e a bola sobrou para Florin chutar de primeira. Seria o gol de ouro, se houvesse – como não havia, deu tempo para Kennet Andersson empatar, em lançamento longo que acertou o alto do 1,95m do atacante. O jogo acabou indo para os pênaltis, onde Ravelli pegou os pênaltis de Petrescu e Belodedici e acabou com a bela Copa dos romenos.

O time parecia em decadência. Mesmo tendo ficado à frente da França nas classificatórias para a Euro 96, o envelhecido time romeno não foi páreo para espanhóis, búlgaros e os próprios franceses, perdendo as três partidas. Conseguiram a vaga para a copa de 1998 após superar a Irlanda, mas pareciam carta fora do baralho por não ter muitas caras novas: por problemas de inatividade, o zagueiro Iulian Filipescu substituía Prodan, Raducioiu e Lupescu foram preteridos por seus reservas Viorel Moldovan e Constantin Galca. Popescu, lento, jogava de líbero. Dumitrescu, ainda mais lento, era reserva. Não parecia o bastante para encarar as fortes Inglaterra e Colômbia. Mas a Romênia já tinha despachado os colombianos antes. Hagi achou o jovem e habilidoso atacante Adrian Ilie, que deixou Serna sentado para marcar o único gol da partida.

O vencedor de Inglaterra x Romênia carimbaria o passaporte para a próxima fase. Logo no início do segundo tempo, Hagi achou Moldovan para abrir o placar. A Inglaterra foi pra cima e empatou com Owen. Quando parecia que sairia empatado, Petrescu tinha outras ideias. O ala apareceu como centroavante para receber um lançamento nos acréscimos, mesmo marcado pelo colega de Chelsea, Le Saux. Classificados, os romenos pouparam Popescu, Ilie e Moldovan e apareceram para o confronto contra a Tunísia com todos os jogadores com o cabelo tingido de loiro (exceto o calvo goleiro). O penteado não deu muita sorte. O jogo contra os africanos resultou um empate chocho, e nas oitavas, contra a Croácia, foram dominados durante o jogo, exigindo o máximo de Stelea. Eventualmente os croatas venceram quando Suker converteu um pênalti cometido pelo volante Gabriel Popescu.

E aí Dobos, o que você achou do penteado?

Reforçados pelos jovens laterais Cosmin Contra e Christian Chivu, os romenos se classificaram direto para a Euro 2000, mas pareciam absolutamente sem chance num grupo com Alemanha, Inglaterra e Portugal, que dominou o grupo. Após empatar em 1×1 com os germânicos e perder para os lusos numa cabeçada de Costinha nos acréscimos, a Romênia precisava torcer para que a Alemanha não derrotasse Portugal e vencer a Inglaterra. Parecia difícil – ainda mais com Hagi suspenso – mas já haviam feito antes, e fariam novamente.

Os romenos saíram na frente – Chivu enganou o goleiro Martyn e seu cruzamento foi direto em gol. A Inglaterra foi pra cima, Shearer empatou de pênalti e Owen virou num lance típico, apostando corrida contra a lentidão do zagueiro. Mas a Inglaterra era frágil na defesa. Um cruzamento para Moldovan foi mal afastado por Martyn, e Munteanu empatou de primeira. Parecia que os ingleses segurariam o empate que lhes favorecia, mas a tolice de Phil Neville prevaleceu e ele cometeu pênalti em Moldovan, convertido por Ganea. Com a surra de Portugal – 3×0 para cima da Alemanha – a Romênia carimbou sua vaga nas quartas, contra a Itália. Seria o derradeiro ato da carreira de Hagi. O time italiano era superior, e foi para o intervalo vencendo por 2 a 0. Uma falta que acabou com o torneio de Antonio Conte, e depois uma tentativa de simulação geraram dois cartões amarelos que garantiram que, como Zidane, Hagi terminasse sua genial carreira internacional indo ao chuveiro mais cedo.

Ele havia feito o mesmo cerca de um mês antes, na final onde seu clube, o Galatasaray, vencera o Arsenal de Wenger na final da Copa UEFA. O agressivo Hagi jogaria mais uma temporada ao lado de seu cunhado Gica Popescu no time turco, e se aposentaria num belo evento chamado Gala Hagi, uma partida entre lendas romenas e um time de all-stars. Sem seu principal jogador, os romenos fariam feio nas eliminatórias para 2002: após perderem o grupo para a Itália, seriam eliminados nos play-offs para a Eslovênia. Era o fim de uma geração. Até hoje, a Romênia não voltou a se classificar para um Mundial – apenas para as Eurocopas de 2008 e 2016, de onde saíram sem deixar rastros (exceto um vexame ao perder para a Albânia).

Talentosos, ofensivos e inconstantes, a geração de ouro romena foi uma força que embelezou os gramados e aproveitou as fraquezas de times menos concentrados para marcar época na década de 90 – sempre comandados pelo maior craque que o país já produziu. Com seus dribles curtos, seus passes longos e seus chutes precisos, sua perna esquerda temível, seu temperamento terrível, Gheorghe Hagi escreveu seu nome – e o de tantos colegas – na história do futebol.

 

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.