Throwback Thursday#21 – Uma história Portuguesa, com certeza
23 de agosto de 2018

 

Aviso aos leitores: para alguns, o texto de hoje é muito triste. É uma história do ponto mais alto de um time que hoje está em seu ponto mais baixo: pela primeira vez desde que existe um torneio nacional, a Portuguesa de Desportos não está em nenhuma divisão dele. O #tbt de hoje volta a 1996 para contar a história da Lusa campeã brasileira – por 136 minutos.

Fundada em 1920, o clube do Canindé sempre foi um adversário encardido para seus rivais paulistas. Chegou a ser bicampeão estadual em 1935 e 36, arrematou dois torneios Rio-SP em 1955 e 1957 – quando, graças a dificuldades logísticas, eram torneios relevantes. Mas até a década de 90, a única outra adição à sua sala de troféus foi meio título paulista – conquistado graças à escalação de um árbitro que não tinha a capacidade básica de contar. A Lusa queria títulos para se consolidar como força do futebol nacional e parecia que isso aconteceria em 1995, quando fechou uma parceria com o frigorífico Chapecó – que geraria o icônico uniforme dos dois anos seguintes.

Eu sei que você lembra…

No campeonato Paulista daquele ano, a Lusa foi a primeira na classificação geral, mas o regulamento bizarro – dividia os oito primeiros em dois grupos – acabou custando a vaga na final, perdida para o eventual vencedor Corinthians. Restou apenas o bizarro bônus de ter feito mais pontos que o campeão (68 a 58). Teve bom desempenho no Brasileirão de 1995, com seu regulamento igualmente bizarro (leia mais aqui), mas não o suficiente para o quadrangular final. E no Paulista de 1996, de pontos corridos, não foi páreo para o super Palmeiras – aquele que fez 102 gols. Acabou em terceiro, à frente de Corinthians e Santos.

O time base de 95 já tinha algumas figurinhas carimbadas: os zagueiros Jorginho, irmão mais velho (e menos bronco) de Junior Baiano, Marcelo Miguel e Émerson; os volantes Hollywood Oleúde José Ribeiro, de liderança tão destacada que junto com a faixa ganhou o apelido – Capitão, bem como seu colega e fiel escudeiro Roque. Na frente, despontavam o meia de ligação Caio – o homem das bolas paradas – e os rápidos atacantes Tico e Zinho (não o meia do Palmeiras e Seleção). O artilheiro do Paulista, Paulinho McLaren, acabou transferido para o Cruzeiro. No entanto, as joias da coroa estavam mesmo nos flancos. Na esquerda, Zé Roberto, titular desde seus 20 anos. Na direita, Zé Maria, que depois de um empréstimo para a Ponte, voltara voando, inclusive chegando à Seleção.

Um Zé de cada lado – a Lusa tinha dois laterais de seleção em 95.

Para o ano seguinte, o clube se reforçou pontualmente. Trouxe o goleiro Clêmer, bom no chão, mas inseguro pelo alto; Carlos Roberto para a reserva das duas laterais, o ponta Alex Alves, insatisfeito no Palmeiras, e o volante Gallo, vice-campeão pelo Santos. Mas foi no comando de ataque a maior mudança. Ao invés de um centroavante típico, como McLaren ou seu antecessor Bentinho, a Lusa promoveu das categorias de base o jovem Rodrigo Fabri. Rodrigo atuava centralizado entre os pontas Zinho e Tico, mas não jogava enfiado entre os zagueiros – pelo contrário, costumava recuar bastante, aproveitando os espaços para fazer belos gols de fora da área.

Jogando atrás dos pontas ou mais livre, Rodrigo era a principal referência ofensiva da Lusa de Candinho.

A Lusa começou bem a competição nacional, apesar de duas baixas importantes. Logo na estreia, Jorginho rompeu o ligamento cruzado e não jogou mais no ano. Além disso, com a ida à seleção, cubes maiores cresceram os olhos em Zé Maria, que acabou indo para o Flamengo. O técnico Candinho testou Roque e Carlos Roberto na posição até decidir finalmente por Valmir, lateral vindo do Bragantino que trazia mais estabilidade defensiva, embora o time perdesse poder de fogo. Uma sequência de quatro vitórias em seis jogos foi quebrada violentamente pelo Cruzeiro, que fez redondos 4 a 1 – o prenúncio de tempos negros. A Lusa venceu o Atlético-PR, mas fez apenas dois pontos nos SEIS jogos seguintes, despencando para a 18ª posição – perto da zona de rebaixamento. A ideia de que aquele time fosse jogar a final do campeonato era risível.

Era hora de reagir. Vitórias sobre Criciúma, Fluminense, Bahia, o poderoso Palmeiras e o Guarani devolveram o time à zona de classificação. Mas os próprios erros da Lusa voltariam para assombrá-la. Uma chuva de objetos no juiz Leo Feldman custou à Portuguesa dois mandos de campo. Em São Januário, os paulistas abriram o placar com o jovem zagueiro César – que aproveitou a contusão de Jorginho e a má fase de Marcelo para se consolidar titular. Mas Luiz Gustavo e Leandro Machado viraram para os gaúchos. As coisas ficariam ainda piores no penúltimo jogo da primeira fase: Coritiba 4 a 0 no Couto Pereira. As chances de classificação da Portuguesa eram diminutas – precisavam vencer o atual campeão Botafogo e torcer para que Sport, São Paulo e Inter não fizessem os três pontos.

O Sport tinha a missão mais difícil, vencer o Palmeiras de Luxemburgo – acabou perdendo de 4 a 1. O São Paulo foi até Curitiba e apenas empatou com o Paraná Clube. O Inter tinha a missão mais fácil dos quatro postulantes – derrotar o lanterna Bragantino – mas acabou abatido por um chutaço de Esquerdinha. Enquanto isso, uma bela falta cobrada por Gallo abria o placar contra o Botafogo. Zé Carlos empatou em uma clássica saída errada de Clemer, mas Rodrigo Fabri escapou de Gonçalves e fez 2 a 1. O time carioca parecia mais interessado em bater – ainda no primeiro tempo, o botafoguense França foi expulso e o zagueiro Gottardo o seguiupor reclamação ainda no intervalo – no meio tempo, Rodrigo fez o terceiro. Com dois a mais, a Lusa passeou. O quarto gol saiu com Caio convertendo pênalti. Pouco antes do fim, um segundo penal acabou com o jogo – Otacílio e Souza também foram expulsos por reclamação, Mauricinho desabou fingindo lesão e o juiz José Marcondes decretou o fim do jogo por número insuficiente de atletas alvinegros em campo.

 

Obviamente ninguém do Botafogo foi punido pelo espetáculo ridículo, mas o importante era que o time de Candinho estava no segundo turno – o mata-mata. O adversário seria o Cruzeiro. O Cruzeiro que liderou o turno praticamente de ponta a ponta. O Cruzeiro que oito confrontos pelo Brasileirão, perdera para a Lusa apenas uma vez. O Cruzeiro dos 4 a 1 no primeiro turno. O Cruzeiro que foi ao Morumbi para um jogo que começou atrasado por causa de um apagão, partiu para cima da Lusa, mas pouco antes do intervalo, saiu perdendo através de um belo gol de Rodrigo Fabri – recebeu de Valmir no campo de ataque, driblou o zagueiro Gilmar e finalizou sem chances para Dida.

As descidas de Valmir eram mais comuns desde a lesão do ponta Zinho. Candinho efetivou Carlos Roberto na lateral esquerda e deu ampla liberdade para Zé Roberto atacar. A movimentação constante do incansável Zé ajudou a desafogar o pobre Caio, sobrecarregado em municiar os atacantes, e permitiu que Rodrigo jogasse mais perto do gol adversário – para azar deles…

A Lusa voltou do intervalo voando. Gallo cabeceou uma bola na trave e exigiu um milagre do goleiro Dida, que também trabalhou em chute à queima-roupa de Tico. O Cruzeiro suportou o bombardeio e tentou buscar um empate – Ailton perdeu gol incrível na pequena área. Se o Cruzeiro ia atacar, a Lusa ia contra-atacar – com Alex Alves. O atacante entrou para torturar o clube mineiro – em seu segundo toque na bola, aproveitou indecisão de Célio Lúcio após recuo perigoso, tomou a bola e fez. Quatro minutos depois, um ataque do Cruzeiro morrreu no pé do imarcável Zé Roberto, que limpou dois e lançou o capoeirista. Alex disparou numa velocidade impensável para o pobre Célio Lúcio, que chegou a tempo de assistir de camarote o terceiro gol dos paulistas. O Globo Esporte resumiu bem “a Lusa Holyfield nocauteia o Cruzeiro Tyson”.

No jogo de volta, em Minas, Capitão e Gallo tiveram a companhia de Roque, que entrou no lugar do suspenso Zé Roberto e garantiu que os azuis fizessem apenas um insuficiente 1 a 0. A semi-final seria contra o outro clube de Belo Horizonte, o rival Atlético. Novamente no Morumbi, a Lusa foi melhor – Rodrigo Fabri deixou Paulo Roberto falando sozinho e cruzou forte na entrada da área. O colega Tico não alcançou, Taffarel também não, e Alex Alves – quem mais senão Alex Alves – apareceu desmarcado no segundo pau pra fazer o único gol da partida de ida.

O jogo de volta não seria tão simples. A instável defesa não lidava bem com o rápido ataque do Galo. Renaldo perdia chance atrás de chance, e quando Euller acelerou e foi derrubado por Carlos Roberto, o centroavante não perdoou da marca da cal. Comemoraram dançando o Vira, só que karma is a bitch, e quem virou foi a Portuguesa. Alex Alves achou Valmir, que foi derrubado na área por Moacir. Caio soltou uma bomba, converteu, e logo depois entregou com carinho para o possuído Alex Alves disparar por trás da zaga e chutar por baixo de Taffarel. O Atlético ainda empataria com Euller, se antecipando a Clemer como uma flecha. Mas quem dançaria dessa vez seria a Lusa, comemorando a classificação para a final.

A final seria contra o Grêmio de Felipão, que havia eliminado o Palmeiras de Luxemburgo nas quartas e era basicamente o mesmo time que havia vencido a Libertadores de 95: Danrlei, Arce Rivarola, Adílson, Roger, Dinho, Luis Carlos Goiano, Émerson, Carlos Miguel e Paulo Nunes estavam todos lá. As únicas baixas relevantes eram Arílson e Jardel, que foi encher o campeonato português de “golos” e deixou Zé Alcino/Afonso no comando de ataque. Mas naquele jogo de ida, havia outra: Arce. Suspenso, deu lugar a Marco Antônio, que não teve resposta a Rodrigo e decidiu o jogo da pior maneira possível: fez falta frontal à área, tomou o segundo amarelo e nem devia ter chegado ao vestiário quando Gallo cobrou com maestria e fez. Felipão recompôs a defesa com o veterano Mauro Galvão, que não conseguiu impedir o gol de Rodrigo, após belo cruzamento de Caio. Ao final do jogo, o Grêmio parecia feliz por perder de apenas 2 a 0…

Com certa razão, deve-se dizer. Com menos de cinco minutos, Zé Alcino achou Paulo Nunes, livre na área lusa após desatenção de Valmir. O “diabo loiro” não precisou de uma segunda chance e bateu rápido para abrir o placar. Precisando do segundo gol para ser campeão, o Grêmio amassou a Portuguesa, criando perigo especialmente nos cruzamentos de Arce. Do lado luso, Caio, Alex Alves e Rodrigo perdiam chances de definir o jogo no contra-ataque. De todas as vezes que o time rubro-verde brincou com a sorte, essa definitivamente foi a pior. A seis minutos do fim, César subiu contra Zé Alcino mas cortou fraco, para o bico da grande área, onde a bola encontrou Aílton. O autor do passe/chute para o gol de barriga de Renato Gaúcho havia entrado para decidir – com um chutaço de esquerda que derrubou o sonho da Lusa.

A derrota custou bem mais à Portuguesa do que o título em si. Custou a vaga à Libertadores, já que só o campeão brasileiro e o da Copa do Brasil iam jogar no continente. Custou um possível patrocínio, da italiana Cirio, que se interessou pelo belo futebol do clube paulista. E lentamente, foi custando o espaço entre os grandes. Eventualmente, os destaques foram saindo – Rodrigo e Zé Roberto acabaram no Real Madrid, Clêmer no Flamengo, Caio e Tico foram para o Cruzeiro ganhar a Libertadores, e (pasmem!) Alex Alves os seguiu pouco depois. Até o capitão Capitão acabou no São Paulo, e depois também passou pelo carrasco Grêmio. O time chegou a fazer boa campanha no Brasileirão de 1997 (acabou em sexto após mais uma mudança de regulamento), mas já na disputa do Paulistão de 1998, apenas Valmir, Émerson, Marcelo Miguel e César estavam no elenco – este último, mais uma vez, teve o azar de ser o pivô de uma eliminação triste: Javier Castrilli, convidado por algum motivo aleatório, inventou um toque de mão do zagueiro, gerando um pênalti que classificou o Corinthians e uma revolta generalizada que – adivinhem – não deu em nada.

1998 marca também o último ano no qual a Lusa ficou entre os oito primeiros de um Brasileirão – ironicamente, foi eliminada pelo Cruzeiro com direito a gol de Alex Alves. Acabou rebaixada em 2002, junto com Palmeiras e Botafogo. Entre subidas e descidas, o caso Héverton derrubou de vez o clube, que desde então despenca tabela abaixo – hoje está na série A2 do Paulista e não conseguiu vaga para a disputa de nenhuma divisão nacional. O que é uma pena, pois a Portuguesa é um time com uma história belíssima. Tão bela que vinte e dois anos após a derrota mais triste de sua história, continuamos a lembrar daquele time com carinho…

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P.S.: Preciso contar uma coisa pra vocês. Esse texto me veio à cabeça quando lembrei de um de seus protagonistas – o Alex Alves. O capoeirista que mandou à lona Cruzeiro e Galo acabou tendo a carreira interrompida pela Hemoglobinúria Paroxística Noturna, doença sanguínea rara e grave, mas não incurável. O rápido Alex tentou fugir correndo – nem a filha sabia da condição do pai, muito menos os amigos. Quando a doença ficou grave demais para esconder, foi a esposa quem pediu ajuda – o ex-jogador já não tinha mais como bancar o tratamento. Alex Alves faleceu em Novembro de 2012, pouco antes de fazer 38 anos, de uma doença que talvez tivesse vencido se não tivesse vergonha de pedir ajuda.

Leia mais na carta para ele que a filha publicou.

Homens morrem de câncer, de doenças do coração, de violência. Mas cada vez mais me convenço que o maior assassino do homem é o orgulho. Homem não pede ajuda, homem precisa se provar o tempo todo, homem tem que se matar um pouco todo dia para se mostrar forte sempre. Isso é triste e perigoso. Não somos super-homens. Vamos parar de nos cobrar como tal.

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.