Throwback Thursday #23 – Bicampeão! Bicampeão! Não é mais não!
20 de dezembro de 2018

Em pé: Junior Baiano, Henrique, Mauro Galvão, Hélton, Márcio, Jorginho, Odvan e Nasa. Agachados: Pedrinho, Alex Oliveira, Paulo Miranda, Viola, Clébson, Jorginho Paulista, Romário. Euller, Juninho Paulista e Juninho Pernambucano.

Quando Deyverson marcou o gol do título palmeirense sobre o Vasco, em Novembro passado, os dois times não poderiam estar em situações mais distintas: o alviverde com um elenco tão qualificado que foi campeão escalando os reservas em metade dos jogos, e o cruzmaltino salvo do rebaixamento por uma combinação de desinteresse do Ceará e os gols de um centroavante acima do peso.

Nem sempre foi assim. Há 18 anos a situação era bem oposta. O Vasco de 2000 contava com um elenco estreladíssimo: Hélton, o tetracampeão Jorginho, Mauro Galvão, Odvan, Válber, o lateral Gilberto, Pedrinho, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano, Euller, Viola… e Romário. Mesmo assim, o clube da colina teve um primeiro semestre desastroso: perdeu o Mundial de Clubes de 2000 para o Corinthians e o campeonato carioca do mesmo ano, com duas derrotas – para um Flamengo cujo ataque era Reinaldo e Tuta. O time era atormentado por brigas internas entre os artilheiros Romário e Edmundo.

É o amooooor… a parceria destruiu o Manchester, mas daí foi ladeira abaixo

A decisão do clube de despachar o Animal para o banco e depois para o Santos parecia ter surtido um efeito positivo: após ficar em quinto no campeonato nacional daquele ano – a bizarra Copa João Havelange – o Vasco despachou Bahia, Paraná e o líder Cruzeiro – que tinha um timaço – para chegar à final do torneio. Também venceu Rosario Central e o River Plate na Copa Mercosul, para enfrentar na final o Palmeiras. O forte Vasco era um dos times que mais dava trabalho ao esquadrão verde montado pela Parmalat na década de 90, e o ponto alto da rivalidade – até então – havia sido a final do Brasileiro de 1997, vencida pelo Vasco. Mas o Palmeiras de 2000 não era mais o Palmeiras de 1997. Tinha alguma coisa faltando…

No primeiro ano sem a parceira que bancou a formação de supertimes durante toda a década de 90, o time vice-campeão mundial sofria para manter seus jogadores. Imediatamente após a saída da Parmalat, logo de cara saíram Junior Baiano (Vasco), Cléber, Oséas (Cruzeiro), Evair (São Paulo), Zinho e Paulo Nunes (Grêmio). Mesmo sem reposição à altura, o time contou com os milagres de São Marcos para eliminar o rival Corinthians e chegar a final da Libertadores, onde parou em Oscar Córdoba e no timaço do Boca. Graças à derrota e à janela  europeia, a debandada foi ainda maior: Rogério para o rival Corinhians, César Sampaio para o La Coruña, Roque Júnior para o Milan, Júnior e Alex para o Parma e mais Euller para o Vasco. Do elenco do Mundial, os únicos que disputaram o segundo semestre pelo alviverde eram os goleiros Marcos e Sérgio, os laterais Arce, Neném e Tiago Silva e o volante Galeano.

O time “bom e barato” do Palmeiras conquistou a finada Copa dos Campeões em Julho daquele ano e daria esperança a seu torcedor.

A combinação de um Vasco em ascensão e um Palmeiras ladeira abaixo tinha toda a cara de que ia acabar mal para os paulistas. Mas alguns fatores credenciavam o remendado renovado time alviverde: um, o desempenho surpreendente nas quartas e semi-finais, onde – ecoando a Lusa de 1996 – bateu Cruzeiro e Galo dentro e fora de casa. O segundo era o regulamento bisonho, no qual o saldo de gols não contava: caso um time vencesse o primeiro jogo por dois gols e perdesse o segundo por um, por exemplo, haveria um terceiro jogo na casa do time de melhor campanha. Que foi exatamente o que aconteceu nos dois primeiros jogos da final: o gol solitário do lateral Neném cancelou o 2 a 0 para o Vasco na primeira partida e gerou um terceiro jogo – a ser disputado no campo do Palmeiras.

O contraste entre as duas escalações era gritante. No Vasco, o técnico Joel Santana se deu ao luxo de poupar o capitão Mauro Galvão, escalando ao lado de Odvan o zagueiro “roubado” do rival, Junior Baiano. Os três já haviam defendido a Seleção, enquanto o Palmeiras recorria ao volante Galeano improvisado por falta de jogadores mais confiáveis. O meio vascaíno tinha Jorginho, mais os Juninhos, ambos craques. O do Palmeiras tinha Magrão, Flávio e o veterano Fernando, um garoto aos 33 anos. E se o ataque do Palmeiras era encabeçado por Tuta, o do Vasco tinha Euller e Viola como coadjuvantes ao pequeno gênio da grande área, Romário.

Tudo seria muito bom se não fosse o futebol – um esporte onde um lance estúpido vale mais do que mil geniais. E com Júnior Baiano em campo, lances estúpidos – como socar a bola dentro da área – eram comuns. Com 37 minutos jogados, Arce bateu e fez 1 a 0. O Vasco sentiu e o Palmeiras farejou sangue: logo após a saída de bola,  o voluntarioso Magrão a roubou, galopou livre e lançou Tuta, que parou em Hélton. Mas Magrão havia continuado – apareceu sozinho para guardar o rebote. O Vasco não sabia lidar e acabou tomando o terceiro – o ponta Juninho avançou tranquilo no abismo onde deveriam estar os volantes cruzmaltinos e tocou para Tuta chutar no canto, nos acréscimos. A torcida gritava “Bicampeão” com a satisfação de uma vitória consolidada.

A torcida do Palmeiras entrou num jogo perigoso. O Vasco voltou com o centroavante Viola no lugar do volante Nasa, que boiou no primeiro tempo. O ex-corinthiano, palmeirense e santista entrou com disposição, voltando para buscar jogo e prendendo o lateral Arce na defesa. Euller e os Juninhos, com mais espaço, agrediam a área rival. Aos 7 minutos, Márcio Rezende sonegou um pênalti claro no ponta. Mas não tinha jeito. Aos 13, Romário recebe de Viola e acha Juninho Paulista disparando na área. O veterano Fernando não conseguiu acompanhar e o derrubou. Dessa vez Rezende marcou. Romário descontou. Nem comemorou. Pegou a bola e pôs de volta no círculo central. O Palmeiras estava em apuros. O camisa 11 voltara do intervalo possesso. O Uruguai lembra. A Suécia lembra. O Palmeiras também iria…

Como se não bastasse, havia outro baixinho invocado. Juninho Paulista arranca da intermediária, deixa Flávio falando sozinho e tenta achar Romário. O corte de Magrão volta para o meia, que invade a área em velocidade e se atira frente ao carrinho imprudente de Gilmar. Um erro pelo outro, Rezende apontou o pênalti. Romário pune o pobre Sérgio de novo – 3 a 2. Ainda havia 20 minutos, mais os acréscimos, pela frente. Tínhamos um jogo.

O Palmeiras simplesmente não teve resposta a Juninho, que acelerava muito e se desmarcava com facilidade.

Eis que Júnior Baiano – o melhor jogador do Palmeiras em campo – volta a atacar. O zagueiro dá uma tesoura inconsequente em Flávio e conquista seu segundo cartão amarelo, deixando o Vasco com um homem a menos. Mas o Palmeiras não soube aproveitar. Sem o centroavante Tuta, substituído por não estar inteiro, a bola não parava no ataque verde, não chegava aos rápidos Juninho e Basílio, bem vigiados por Clébson e Jorginho Paulista. Na lateral, Mauro Galvão se aquecia para entrar no lugar de Euller, mas Joel não dava o sinal. Queria mais um pouquinho do filho do vento em campo. E tinha razão.

 

O atacante vascaíno passou como se fosse ala direito e cruzou. Romário chutou desequilibrado, a bola passou por Viola, mas não pelo imarcável e imarcado Juninho Paulista, que empatou o jogo. Já com Mauro em campo, um Vasco com dez agredia sem dó um Palmeiras atordoado. Ligação direta de Hélton pra Viola que amortece para Romário. O Baixinho sai na cara de Sérgio e exige um milagre do goleiro. Casagrande se indignava na transmissão da Globo ao ver o defensor Paulo Turra se aquecendo “ O time em casa, com um homem a mais e vai pôr um zagueiro? Vai pra cima!”. Mas o Palmeiras não sabia nem pra que lado ficava o metrô mais próximo. E talvez nunca descobriria…

Jorginho Paulista desceu lotado pela ala esquerda, tabelou sem querer com Viola e serviu seu conterâneo Juninho, que bateu e foi travado por Fernando. E a bola espirrou. E a torcida do Palmeiras gemeu. Viveu pra ver o erro grave que tinha cometido. Cutucaram a fera de pernas curtas. Irritaram aquele a quem a bola procura. A décima primeira lei do futebol diz claramente: toda bola solta na área vai encontrar Romário. Não deu outra. E o Baixinho, sozinho, executou o goleiro pela quarta vez na noite. E saiu mandando a torcida calar a boca – como se precisasse. Como se os trinta mil presentes no Parque Antarctica não estivessem mortificados, incrédulos, esperando que aqueles quarenta e cinco minutos finais tivessem sido apenas um pesadelo. E a torcida do Vasco esperando que aquele sonho não acabasse jamais…

Os piores castigos vêm nos menores frascos…

Seria o início de um longo calvário do Palmeiras, que seria rebaixado à série B dois anos depois. O Vasco, por sua vez, faturaria o título brasileiro daquele ano com um show de horrores: o alambrado de São Januário despencou, o jogo foi inexplicavelmente remarcado e um São Caetano muito menos agressivo foi facilmente despachado. Somando as presepadas de Eurico Miranda com a aura épica da virada, não é de se espantar que o vascaíno lembre com mais carinho do título da extinta Mercosul…

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.