Throwback Thursday #07 – He comes from a land down under!
19 de abril de 2018

Esse time ainda mata o velhinho do coração…

Em 10 de Outubro de 2017, o mundo acompanhava com interesse o play-off que decidiria a última vaga asiática na Copa. A maior parte da opinião pública torcia a favor que o conto de fadas da Síria, nação assolada por guerra civil, conseguisse carimbar sua vaga para a Copa de 2018 ao superar a Austrália. Os sírios saíram na frente, quando um erro de Milligan resultou num contra-ataque finalizado por Al-Soma. Então um veterano de 37 anos saiu do banco para empatar e, na prorrogação, virar o jogo, carimbando o passaporte australiano para seu quarto torneio consecutivo. Tim Cahill, como de costume, fazia história. E pode fazer ainda mais.

Cahill, junto com o aposentado Bresciano e também Mark Milligan, são os únicos australianos a terem participados de três Copas do Mundo (embora Milligan só tenha entrado em campo em uma partida, no Brasil). Cahill é o único jogador de uma seleção asiática que tem mais de cinco gols em Copas, e é o único australiano a marcar em três Copas consecutivas. Se conseguir deixar sua marca em campos russos, será apenas o quinto jogador a conseguir marcar em quatro Copas do Mundo – em companhia de ninguém menos do que Klose, Uwe Seeler, Gerd Müller e um certo brasileiro de Três Corações. Esta deve ser sua maior motivação, pois embora o grupo não seja particularmente difícil – França, Peru e Dinamarca – as atuações atuais dos Socceroos não animam nem os torcedores mais alcoolizados empolgados, que deverão continuar sonhando com o time histórico de 2006…

Antes mesmo da Copa começar, aquele time já havia feito história. Em seu último ano disputando pela Oceania, os australianos venceram o Uruguai nos pênaltis (graças a uma atuação magistral de Schwarzer) e carimbaram seu passaporte para a primeira Copa desde 1974, quando ainda eram oficialmente amadores – e foram devidamente despachados por alemães ocidentais e orientais, deixando como lembrança apenas o físico impressionante.

Você diria “não” a estes estivadores parrudos?

Na década de 90, os australianos começaram a constatar que reinar soberanos na Oceania talvez não fosse o suficiente. Começaram a mostrar suas garras nas Copas das Confederações, competições que disputavam sem falta por vencerem inexoravelmente todos os confrontos na OFC. Em 97, uma vitória surpresa contra o México, um empate arrancado do Brasil e uma vitória na prorrogação contra os uruguaios levou os Aussies à final do torneio, onde viriam a ser demolidos por dois hat-tricks da dupla Ro-Ro – possivelmente a melhor atuação dos dois juntos. Em 2001, viria a vingança. A Austrália mais uma vez venceu o México e surpreendeu o cabeça-de-chave, vencendo o time misto que a França mandou ao torneio. Seria eliminada pelo Japão com um gol de Nakata, mas o destino reservava o Brasil na disputa de terceiro lugar. Um gol do zagueiro Shaun Murphy, do Sheffield United, foi o bastante para ganhar o bronze sobre os brasileiros. Nós, cá, lembramos de como esse resultado pífio foi a gota d´água, causando a demissão do técnico Leão e o exílio de uma horda de jogadores medíocres como o volante Leomar, mas para os australianos, o resultado era uma honra nacional.

Para nós foi patético, para eles foi heroico.

Mas as Copas do Mundo ainda escapavam dos australianos, muito pelo fato de serem normalmente pareados contra o quinto colocado da América do Sul. Isso foi fatal em 1994, quando pegaram a Argentina, e em 2002, quando chegaram a vencer o Uruguai em Melbourne, mas Darío Silva e dois gols do gigante Richard Morales derrubaram os australianos de volta à Terra. Pior ainda foi em 1998, quando venciam o Irã por 2×0 em Melbourne até os 35 do segundo tempo, só para que dois rápidos gols de Karim Bagheri e depois Azizi empatassem o confronto, e a regra dos gols fora de casa mandasse os iranianos para a Copa da França.

Portanto, após terem sido surrados brutalmente por alemães, argentinos e tunisianos na Copa das Confederações, em Junho de 2005, ninguém esperava que o técnico Guus Hiddink fizesse em Novembro – quando mais uma vez enfrentaram o Uruguai – os milagres que fizera pela Coreia do Sul. Até porque, Byron Moreno não apitaria nenhum dos play-offs. Mas os tempos eram outros. Já com a base do time que iria à Alemanha, a Austrália perdeu em Montevidéu, mas empatou o confronto em Sydney com um gol do meia Bresciano, de longa carreira de sucesso na Itália (Empoli, Parma, Palermo e Lazio). Nos pênaltis, o gigante Mark Schwarzer, lenda do Middlesbrough, parou os pênaltis de Rodríguez e de Zalayeta (juventinos já sabiam). Não haveria Telstrazo para os uruguaios desta vez. A “magia” de Hiddink havia funcionado – A Austrália iria para a Copa.

O elenco australiano era recheado de jogadores versáteis que alternavam várias posições. Lucas Neill e Craig Moore eram zagueiros e laterais, Brett Emerton jogava nas duas laterais e também como volante aberto, o box-to-box Culina podia ir para a ala esquerda, e os laterais Wilkshire e Chipperfield podiam fazer o caminho inverso. Mas os destaques eram ofensivos. Além de Bresciano, também havia o habilidoso meia-atacante Harry Kewell e o goleador Viduka, ambos destaques no super Leeds da virada do século. Kewell estava sofrendo de lesões no Liverpool, mas Viduka era o artilheiro do Middlesbrough, que se manteve na primeira divisão pela maior parte da década enquanto contou com ele e o gigante Schwarzer. Ainda haviam Kalac, reserva de Dida no Milan, Aloisi, artilheiro que rodou pela Espanha, o incansável volante Grella e o veteranos Popovic, na defesa, e Lazaridis, meia ofensivo que organizava o time na década anterior.

Na foto, o onze inicial que estreou contra o Japão: Vince Grella, Mark Viduka, Mark Schwarzer, Brett Emerton, Scott Chipperfield, Harry Kewell; Lucas Neill, Jason Culina, Luke Wilkshire, Craig Moore e Mark Bresciano.

Assim como nos play-offs intercontinentais, os australianos eram claramente zebra num grupo que contava com o Brasil, a forte seleção da Croácia e o campeão asiático, o Japão, comandado por Zico – que seria o adversário da estreia. O primeiro jogo da Austrália em Copas no século XXI acabou sendo um dos mais épicos da história do país. Um cruzamento do craque Shunsuke Nakamura acabou entrando direto, após a interferência de Yanagisawa e Takahara na saída de Schwarzer, que o juiz inexplicavelmente não entendeu como falta. A Austrália foi pra cima em busca da fragilidade aérea japonesa. Trocou o passador Bresciano por Cahill, na época um volante com chegada na área (algo como hoje joga Paulinho).  Trocou os defensores Moore e Wilkshire pelos centroavantes Kennedy e Aloisi, num esquema insano com quatro atacantes.

E mais Cahill. Cujo posicionamento faria a diferença num lateral na ponta-esquerda arremessado na área por Neill (Rory Delap curtiu isto). Kawaguchi saiu caçando borboletas, Kewell foi travado por Komano e o então jogador do Everton aproveitou a sobra. Seria a primeira das cinco vezes que veríamos a coreografia do canguru boxeador na bandeirinha de escanteio. E a segunda não demorou. Aloisi recebeu na meia-direita, tocou para Cahill e correu para a área, no que parecia ser um 1-2 . O marcador japonês também pensou assim e seguiu o atacante, mas Cahill tinha outras ideias – ajeitou o corpo e mandou direto pro gol, com a bola tocando na trave antes de entrar. 1-2 era agora o placar. Zico tirou um zagueiro para colocar o atacante Oguro, mas o resultado foi só deixar os nipônicos vulneráveis a um contra-ataque fulminante levado a cabo por Aloisi. E assim a Austrália chegava à sua primeira vitória em Copas – e à primeira posição do grupo, pois tinha um gol a mais de saldo do que o Brasil.

A diferença logo caiu a zero quando Adriano e Fred (com seu primeiro toque na bola em Copas) venceram a resistência australiana, mas com o empate no outro jogo, os Socceroos chegavam para o confronto final contra a Croácia na segunda posição – ou seja, jogando pelo empate. Talvez pela altura do atacante Prso, o técnico Hiddink optou por substituir o goleiro Schwarzer por Kalac, o que não se mostraria uma boa ideia. O goleiro do Milan pode ser inocentado pelo primeiro gol croata – Darijo Srna convertendo uma falta cometida por Viduka – mas falhou feio no segundo, inexplicavelmente deixando passar o chute fraco de Niko Kovac.

Para sorte do camisa 18, ambos gols tiveram resposta. Primeiro com um pênalti convertido por Moore, depois que Stjepan Tomas enlouqueceu e colocou a mão na bola para cortar um cruzamento inócuo; depois, faltando pouco mais de 10 minutos, Bresciano cruzou da direita, Aloisi cabeceou pra trás e Kewell, que vinha sendo criticado pela frágil forma física, dominou e finalizou na pequena área. 2-2, Austrália classificada. Depois disso, teríamos apenas as expulsões de Simic (por rasteirar Kewell) e Emerton (por um tapa na bola), e de Simunic tomar o segundo cartão amarelo e continuar em campo, num erro absurdo do juiz Graham Poll – que viu cair por terra suas chances de apitarem a final.

Para quem precisava fazer um milagre, Guus Hiddink fez dois – classificou os australianos para enfrentar a Itália nas oitavas de final. Um terceiro milagre seria negado de forma dolorosa – jogando com um a menos desde os 5 do segundo tempo, após Materazzi matar com falta a clara chance de gol de Bresciano, a Austrália ia levando o jogo para a prorrogação até que, nos acréscimos, Grosso invadiu a área, evitou o carrinho de Neill e tropeçou no corpo do defensor. Medina Cantalejo marcou o contestadíssimo pênalti, que Totti converteu e encerrou ali a melhor campanha australiana em Copas – até hoje.

Provavelmente o único pênalti na história das Copas cometido com a cabeça

Desde então, a Austrália tomou a sensata decisão de se mudar para a AFC e disputar as eliminatórias asiáticas. Se classificou direto para 2010 – onde foi eliminada após derrotas para Alemanha e Gana – e 2014, onde não foi páreo para Chile, Holanda e Espanha. Chegou às finais da copa asiática em 2011, derrotada pelo Japão, e em 2015, onde venceu a Coreia com uma geração que completou o processo de renovação – Emerton, Culina e Kewell estavam aposentados, Schwarzer, Wilkshire e o capitão Neill foram, passo a passo, deixados de ser convocados – o último, de forma dolorosa, após um  6 a 0 redondo sofrido contra o Brasil. No entanto, a boa forma de Leckie, Kruse e Mooy – os poucos titulares que jogam em ligas de primeiro escalão – não parece suficiente para repetir a boa campanha. No fim, os australianos deverão mesmo continuar depositando suas fichas no eterno Tim Cahill.

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.