• Throwback Thursday #06 – O Messias que se salvou
    12 de abril de 2018

    Você diria não a este homem? (Márcio Rezende, por favor não responda).

    O #tbt dessa semana não é sobre uma seleção, mas sobre uma curta passagem triste na longa vida repleta de glórias de um clube. Aos torcedores de times rivais, espero que compreendam que o aniversário do Santos FC (106 anos em 14 de Abril) não poderia passar em branco – até porque, para o time mais ofensivo da história, a única coisa que passa em branco é a camisa. No entanto, apesar das muitas lembranças felizes do alvinegro praiano, a homenagem de hoje é simbólica. É a trajetória de um time – e de um craque – cuja qualidade era tal que ultrapassou os limites do resultado e entrou para a história do clube mesmo com uma sofrida – e injusta – derrota.

    A década de 90 foi quase que certamente a pior da história do clube. Como diria o santista fanático Mano Brown, “o Santos não ganhava nem no par ou ímpar”. Conforme a geração campeã paulista de 84 foi envelhecendo e se aposentando, os sucessores foram de uma falta de qualidade monumental. Os poucos jogadores de mais talento que passaram pela Vila Belmiro na época já estavam bem longe de sua melhor forma – o craque Neto em 94, um semiaposentado Careca em 96. No entanto, no amistoso de despedida de Pita, contra a Portuguesa Santista, estreou um jovem paraense desengonçado adquirido a preço de banana junto à Tuna Luso. Giovanni Silva de Oliveira, que viria a ser o Messias da Vila, substituiu o craque que se aposentava e lentamente se tornou a referência ofensiva em lugar de matadores inconstantes como Guga e Paulinho McLaren, até chegar a seu auge em 1995.

    Que fique registrado – o time de 1995, embora tenha sido um sucesso, parecia claramente fadado ao fracasso. O goleiro Edinho, por exemplo, tinha de conviver com o peso de ser filho do melhor jogador de futebol da história – e a torcida, com a expectativa de vê-lo ou pegar tudo ou sair atabalhoadamente. A defesa não era muito melhor: Marquinhos Capixaba na lateral direita, e Marcos Adriano na esquerda, dois jogadores que apoiavam bastante, dando ao Santos aquele aspecto tão familiar de time índio que atacava em bando e defendia miseravelmente – mesmo que Capixaba pudesse jogar na zaga. Lá, o único titular era Narciso: Rápido, forte e bom no jogo aéreo, seu ponto fraco era a afobação, que o levava a cometer faltas desnecessárias. Mesmo assim, defenderia o clube com competência até sua carreira ser interrompida pela leucemia. Ao seu lado, o jovem Jean Witte ou o lento Ronaldo Marconato – cujo ponto “alto” na carreira foi receber um chapéu de Marcelinho. Protegendo estas pessoas, estavam (Alexandre) Gallo e Carlinhos – ambos bons marcadores, passe correto e possuidores de bom chute de fora da área.

    Neste momento lembramos que se o Santos FC tivesse um lema, seria “a melhor defesa é o ataque”. Sim, os laterais desciam em bando. Sim, a defesa era faltosa e exposta. Sim, o goleiro passava de bestial a besta em segundos. Sim, o ataque tinha que compensar. E compensava. Pela esquerda, a habilidade e o bom passe do meia Robert, que entre indas e vindas do Bahia e do Japão, teve os melhores anos de sua carreira com a camisa branca. Recrutados do São Paulo, os rápidos atacantes Macedo e Jamelli eram tanto capazes de fazer gols como de recuar ou abrir para as pontas, permitindo que Giovanni, na teoria um meia, avançasse como centroavante. Na prática, o time era um 4-2-1-3, com os três da frente constantemente trocando de posição e alternando entre a função de dar o passe e a de recebê-lo.

    Time-base do campeonato Brasileiro. Vágner e Marcelo Passos ainda podiam substituir Macedo, Jamelli, Carlinhos ou Robert.

    No elenco ainda estavam o veterano volante Pintado, outro ex-São Paulo; o vigoroso curinga Vágner, volante box-to-box de origem, mas capaz de fazer a lateral; Marcelo Passos, meia que fazia função parecida com a de Robert só que mais ofensivo, e o velocista Camanducaia, cuja principal função consistia em entrar no segundo tempo para punir adversários cansados. O time até conseguiu um bom desempenho na primeira fase do Paulista, ficando em terceiro lugar na classificação geral, mas na segunda fase, com os times divididos em três grupos, o Santos foi tranquilamente suplantado pelo Corinthians e a forte Lusa cujo ataque era comandado… pelo ex-santista Paulinho McLaren.

    O Brasileiro começou como o Paulista terminou: deprimente. Em três jogos, apenas um ponto: um empate pobre com o Goiás em casa, com gol de Giovanni. Depois, derrotas para o Vasco (5×3 na Vila) e o Fluminense fizeram o Santos se livrar do técnico Joãozinho e ir buscar Cabralzinho, de volta após passagem na Arábia. O novo técnico fez diferença – não só organizou um pouco mais a caótica defesa santista ao efetivar Narciso e Marcos Adriano, vindo do Flamengo, bem como promoveu a entrada do também recém-chegado Robert na vaga de Passos, garantindo maior intensidade pelo lado esquerdo. Funcionou. A ex-avenida Marcos Paulo ficou fechada pelo semestre, garantindo uma arrancada impressionante, mas que não bastou para garantir o título do grupo B na primeira fase do Brasileiro.

    O torneio daquele ano dividiu os times em dois grupos de 12. Na primeira fase, eles duelariam dentro de seu grupo e quem estivesse em primeiro no final das 11 partidas estaria classificado para a semifinal – Fluminense e Cruzeiro se garantiram nesta etapa e o Santos ficou em terceiro no grupo do tricolor carioca. Na segunda fase, os times jogariam com os adversários do grupo oposto, e novamente os primeiros dois completariam as semifinais. E o Santos fez miséria. Venceu oito de doze jogos, o que incluiu uma revanche por 2 a 0 em cima da Lusa, um 3 a 0 redondo sobre o Corinthians, um gol solitário de Vágner que praticamente eliminou o Palmeiras, mais um 3 a 0 no Flamengo em pleno Maracanã e 3 a 1 na Vila sobre o Botafogo, que vinha jogando muito bem.

    (A melhor partida da 2a fase: em homenagem a Pelé, 3×0 no rival Corinthians)

    O Peixe chegava à última rodada dependendo apenas de uma vitória sobre o Guarani para garantir a vaga nas semi-finais. O concorrente direto, o Galo, vencia o Vitória em Salvador e passava à frente, pois o segundo tempo já ia avançado e o jogo ainda no Pacaembu estava empatado. O Santos bombardeava o goleiro Leo de todo jeito e o bugrino prevalecia. Até bola em cima da linha Valdeir já havia tirado. Eis então que Marcelo Passos, recém-saído do banco, recebe um passe de Jamelli na ponta esquerda e bate de curva no canto oposto, fazendo um golaço. As ondas de alívio se espalharam até a Praça Independência, onde depois do segundo gol, de Giovanni, os santistas fizeram carreata para comemorar a classificação.

    O adversário, o Fluminense, era o atual campeão carioca – comandados pelo autor do gol de barriga do título, Renato Gaúcho. Também contava com a melhor defesa do torneio, protegida por dois volantes dos quais o corinthiano se lembra bem: Otacílio e um certo baiano famoso por causos e cambalhotas. No primeiro jogo, no Rio, o Santos começou melhor, tendo várias boas chances e indo para o intervalo em vantagem através de Giovanni, com passe de Robert. Os tricolores voltaram ligados do segundo tempo e souberam aproveitar a maior fraqueza da defesa praiana, a bola aérea. Renato apareceu inexplicavelmente livre e empatou com um toque de classe. O Santos não reagiu bem ao gol. Primeiro Ronaldo fez pênalti tolo sobre Valdeir. Depois Robert agarrou um adversário e recebeu o segundo amarelo. Ao invés de segurar o resultado, Cabralzinho substituiu Capixaba por Macedo e pressionou pelo empate, mesmo com um a menos. Que virariam dois. O rápido Leonardo partiu sozinho, e o esforçado Jamelli, ao melhor estilo Solskjaer, acompanhou até onde deu antes de fazer a falta de último homem. Com 9 contra 11, em pandemônio, o Santos sofreu mais dois – parecia acabado com 4 a 1. Mas Giovanni parecia supreendentemente calmo. Como que planejando sua vingança…

    Com Marcelo Passos e Camanducaia nas funções de Robert e Jamelli, o Santos ia para o jogo da volta num esquema bastante suicida. Mas a forte defesa do Flu – que tomara apenas 12 gols na segunda fase – não estava preparada para lidar com um homem possuído. O Messias entrou em campo com os cabelos tingidos de ruivo e muito fogo nos olhos. Esqueça o jogador macambúzio e apático que você talvez tenha visto com a camisa 7 do Brasil em 1998. Aqui estava uma fera, um predador. O Santos começou pressionando e bombardeando a meta de Wellerson, enquanto ficava vulnerável a contra-ataques – Marcos Adriano travou em cima da hora e impediu Renato de abrir o placar.

    Eventualmente, a pressão daria resultado. Camanducaia, jogando invertido na esquerda, apareceu nas costas de Ronald e sofreu pênalti de Otacílio. Giovanni pegou, bateu, converteu e pegou a bola no fundo do gol para reiniciar logo o jogo. Ele queria mais. O homem estava bravo. Tabelou com Marcelo Passos e fez o segundo, pouco antes de descer para o intervalo. Aliás – do Fluminense descer para o intervalo. Porque o Santos reconheceu a torcida gritando e pulsando como há muito não se via. Os jogadores ficaram no gramado, como se estivessem se recarregando pela força da multidão. Os cariocas começavam a notar que haviam caído numa cilada. Messias mirou Macedo atrás da linha de zagueiros e o atacante, sozinho, não perdoou. Os três gols de vantagem estavam devolvidos. O Santos se classificava.

    Por um minuto. Mais uma vez bola na área do Santos não foi apropriadamente afastada, e o rebote do chute na trave se ofereceu a Rogerinho, que não perdoou. O Peixe voltava a precisar de um gol, que sairia do jeito mais simples possível. Capixaba tenta achar Giovanni mas acaba dando um bicão a esmo, muito mais para o zagueiro Alê do que para o santista. Que obviamente ignorou este pequeno problema, caçou o defensor distraído, deu o bote, tomou-lhe a bola e chutou para Camanducaia empurrar para o gol. Com 4 a 1 e tendo que segurar a diferença contra o Fluminense com um homem a mais (Marconato foi expulso), a lógica mandava abandonar o instinto predatório e gastar o tempo. Giovanni ignorou a lógica também e gastou foi a bola. Recebendo sozinho entre três marcadores, ele simplesmente achou Marcelo Passos sozinho com um surreal passe de calcanhar. O meia deslizou, driblou Vampeta e coroou a atuação magistral. 5 a 1. Em mais uma falha bisonha da defesa, Rogerinho descontou. Mas não importava. O Santos estava na final. De brinde, o Messias recebia a primeira nota 10 da Placar sob as novas regras.

    (Aproveitem pra matar as saudades da deliciosa narração de Luciano do Valle)

    Ah, aquela final… encarar o forte Botafogo, do artilheiro Túlio, de jogadores excelentes como Donizete Pantera, o zagueiro Gonçalves, os meias Beto e Sérgio Manoel. Mas que não ficou marcada pela genialidade de Giovanni nem pela qualidade do alvinegro carioca, e sim por um chorrilho de erros crassos de Márcio Rezende de Freitas e seu trio de arbitragem. Segundo o ex-árbitro, ao notar que o gol de Túlio foi de fato anotado em impedimento, ele perdeu a confiança nas decisões do bandeira Evaristo de Souza. Nenhum dos dois tinha boa visão do toque de mão de Capixaba, mas na hora de anular o gol de Camanducaia, ele assume que a decisão foi sua.

    Rezende é enfático em dizer que recebeu vários prêmios de arbitragem (inclusive naquele campeonato) e que sua carreira teve muito mais acertos do que erros, mas analisando esta cadeia hereditária o que faz um juiz bom ou ruim, diria que decidir três campeonatos nacionais por erros bizarros de sua parte dificilmente é um bom credenciamento. Como de costume, a punição da CBF a árbitros que cometem erros crassos é dar a eles uma vaga na próxima Copa: ele apitou na França em 1998, assim como Armando Marques – um juiz que provou em 1973 que não era sequer capaz de contar pênaltis – também foi à Alemanha em 1974. E assim, com esta premiação aos responsáveis, o time e a torcida do Santos suspiram até hoje com a injustiça terrena a seu time divino.

    Achou que eu ia estragar só um Brasileiro, né? ACHOU ERRADO!

    Aliás, a seu craque divino, pois o time em si logo se desmontou. Apenas Narciso, Ronaldo, Jean e Edinho perduraram por algum tempo no clube, até a próxima boa campanha num Brasileiro, em 98. Gallo foi para a Lusa ser vice em 96, Carlinhos o seguiria no ano seguinte. Marcos Adriano foi para o Furacão, Macedo para o Cruzeiro, Capixaba para o São Paulo, Marcelo Passos para o Goiás e Camanducaia para a Portuguesa Santista, onde iniciaram os respectivos e inexoráveis processos de decadência nas carreiras. Nenhum deles teve muito êxito após deixar o clube. Vágner, Jamelli e Robert ficaram mais um pouco até irem fazer sucesso em outros lugares – São Paulo e Celta, para o primeiro, Zaragoza, para o segundo, Grêmio, Galo e São Caetano, para o terceiro. Nem o técnico Cabralzinho teve seu contrato renovado – acabou substituído por Candinho. O erro do juiz pode ter sido um crime contra a genialidade messiânica de Giovanni, mas com certeza o impacto maior foi na carreira dos pobres coadjuvantes – exceto por Robert, que voltou pra vencer em 2002, nenhum dos jogadores do elenco se sagraria campeão brasileiro.

    Quanto ao craque-mor do elenco, após liderar a artilharia do Paulistão de 96, foi vendido pela (à época) alta soma de 10 milhões de dólares, investidos na Vila (melhor do que gastar no Luizão). Após um bom início no Barça, acabou ofuscado por Ronaldo e depois Rivaldo. A má atuação na Copa de 1998 irritou Zagallo e encerrou sua carreira com a amarelinha. Após a relação com van Gaal azedar de vez, optou por ir para o Olympiacos, onde passou seis temporadas incrivelmente vencedoras. Voltou para o Santos, onde participou do deprimente 7 a 1 para o Corinthians, e saiu a perambular por clubes menores na Grécia e Arábia. No fim, com 38 anos, conseguiu enfim um título (paulista) com a divina camisa branca – embora não tenha podido entrar em campo na final pois o Santo André estava com dois a mais e Ganso precisava segurar a bola. A carreira irregular não esconde o brilhantismo. Se o Santos conseguiu atravessar os deprimentes anos 90 até o século XXI, isso se deveu em muito ao brilho solitário do Messias – e de seu time divino de 95, que jamais será esquecido.

    Time da decisão: Narciso, Carlinhos, Marquinhos Capixaba, Ronaldo Marconato, Marcos Adriano, Edinho; Giovanni, Jamelli, Robert, Camanducaia e Marcelo Passos. Gallo, suspenso, fez falta.

    Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.