Throwback Thursday #05 – Uma “Hristória” de sucesso
5 de abril de 2018

Com Hristo, por Hristo, vai Hristo!

Exceto pela peculiar dança típica, não existe nada mais búlgaro do que o nome Hristo – que significa, não surpreendentemente, Cristo. De forma que fica difícil contar a história do futebol do país sem soar um pouco como pregação religiosa – é difícil não dividi-la em Antes de Hristo e Depois de Hristo.

A Bulgária é um pequeno país de cerca de 7 milhões de habitantes na península balcânica. Por sua posição geográfica estratégica, teve breves momentos de soberania de seu povo intercalados por muito tempo de dominação sob gregos, bizantinos, turcos e mais recentemente, a URSS. Futebolisticamente falando, o esporte cresceu enormemente no pós-guerra, como a vasta maioria dos estados-satélites soviéticos – Hungria, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Romênia. Os búlgaros, particularmente, conseguiram uma senhora façanha: se classificaram para quatro Copas do Mundo seguidas entre 1962 e 1974 – sem nunca conseguir passar de fase. Na ocasião em que chegaram mais perto, precisavam segurar o empate contra a Laranja Mecânica de Cruijff – só para tomar um sonoro 4 a 1. Até hoje, o búlgaro com mais participação em Copas do Mundo é o defensor Dobromir Zhechev, que esteve no elenco nas quatro vezes, jogando em três.

O futebol de clubes búlgaro, por sua vez, teve seu auge na temporada 81-82, quando o CSKA eliminou o campeão espanhol, a Real Sociedad, e o Liverpool, campeão da edição anterior, chegando a abrir 3 a 0 em cima do Bayern – que eventualmente diminuiria o prejuízo e os eliminaria com um redondo 4 a 0 em Munique. O CSKA dominaria o futebol búlgaro da década, e em 1985 recrutaria da terceira divisão um jovem de 19 anos que mudaria a história – ou melhor, a Hristória – do futebol do país.

Hristo Stoichkov tinha possivelmente a melhor perna esquerda já produzida no pequeno país eslavo, e a utilizava sem cerimônias para fazer gols de diversas formas – inclusive muitas vezes em cobranças de falta. Stoichkov era muito rápido e também forte, capaz de ganhar as disputas com os zagueiros. Seu estilo direto e objetivo o credenciava a jogar também como centroavante, segundo atacante e até como meia-atacante, no vértice ofensivo do losango tão popular na década de 90. Mas fez suas melhores partidas na carreira como ponta-esquerda, pareado com outros atacantes rápidos – como Emil Kostadinov e o brasileiro Romário.

Sua maior qualidade, sua agressividade, era também sua maior fraqueza – em seu primeiro El Clasico, na SuperCopa de 1990, Stoichkov se irritou com as repetidas faltas que sofria e decidiu devolver – agredindo o árbitro. Em 1985, na final da Copa da Bulgária, a tensão entre o CSKA e o rival Levski Sofia chegou ao ponto de ter os dois clubes dissolvidos pela federação devido a uma batalha campal, e alguns jogadores suspensos pela vida toda – adivinha só se Stoichkov não estava entre eles? A decisão foi revertida poucos meses depois, mas a inatividade durante o primeiro semestre de 1986 garantiu que o jovem atacante não seria convocado para a Copa de 1986, para qual os búlgaros conseguiram classificação superando as vizinhas Iugoslávia e Alemanha Oriental.

O desempenho no torneio foi irregular. O time era capaz de empatar com a campeã Itália, gol do meia-atacante Nasko Sirakov – alto, forte, que sabia jogar de centroavante mas também recuar como quarto homem de meio-campo – mas ceder o empate aos frágeis coreanos. Uma derrota contra os argentinos deixou os búlgaros com apenas dois pontos, o suficiente para classificá-los entre os quatro melhores terceiros. Mas não foram páreo para o forte time da casa, o México. Um acrobático voleio de Manuel Negrete não deu chance ao goleiro Mihaylov – que seria o titular da meta búlgara por 15 anos – e o time foi pra casa com 2×0 nas costas.

A decepção nas eliminatórias para a EuroCopa de 1988 – precisando apenas de um empate, perderam em casa para a Escócia e ficaram um ponto atrás da Irlanda – eclipsou o fato de que Stoichkov finalmente estreou pela seleção, em 1987, numa vitória sobre a Bélgica. A derrota acelerou a incorporação dos jovens talentos que despontavam no CSKA tricampeão búlgaro entre 87 e 89; Dentre estes se destacavam o ligeiro e artilheiro ponta-direita Kostadinov, bem como o excelente goleador Lyuboslav Penev – que perdeu a Copa de 94 por causa de um tumor nos testículos, mas se recuperou e voltou a jogar, tendo sido o artilheiro do Atlético de Madrid na campanha de título dos Colchoneros em 95-96.

Além deles, faziam parte do time o habilidoso e errático meia Letchkov, famoso pela careca e o excelente passador Krasimir Balakov, ambos responsáveis por municiar os atacantes, o volante Zlatko Yankov, que ancorava o meio búlgaro e ainda saía jogando, o imponente zagueiro central Petar Houbchev (treinador da atual seleção do país), e mais o icônico líbero Trifon Ivanov – o “Lobo Búlgaro”. Feio, barbudo, olhos de ressaca, mullet típico da década de 90. Era duro na marcação, bom no jogo aéreo e ainda tinha um forte chute de longe – que muitas vezes resultava em gols. O jogador, que faleceu recentemente de ataque cardíaco, virou cult hero de quem colecionava as figurinhas da Copa de 94 e até nome de torneio de várzea.

Você acha que é bonito ser feio?

Para 1990, a geração ainda estava verde e amarelou nas eliminatórias europeias – ficou em último num grupo com Romênia, Dinamarca e Grécia. Mas já dava seus frutos. O time superofensivo do CSKA havia exportado Lubo Penev para o Valencia, Kostadinov para o Porto, e Letchkov para o Hamburgo. O habilidoso Balakov também achou vaga no Sporting, antes de encontrar sua casa em Stuttgart. E em 1989, disputando a finada Recopa, Stoichkov aterrorizou o Barcelona treinado por Cruijff. Como em 74, os búlgaros não resistiram ao craque holandês, mas a impressão deixada pelo genial e genioso atacante deu a Johan a fé em Hristo. Em 1990, Stoichkov já era do Barcelona, e agressões à parte, teve lá uma passagem estelar. Num time com Laudrup, Begiristain e depois Romário, comandado por Koeman na zaga e regido pelos pés educados de Pep Guardiola, Stoichkov fez parte do Dream Team que conquistou a Europa e quase o mundo – não fosse pelo São Paulo de Raí e Ronaldão, responsável por uma marcação não muito delicada no craque búlgaro naquele jogo.

Era com o brilhantismo de seu craque que a Bulgária contava para sair viva do difícil grupo 6, com França, Suécia e Áustria. Os búlgaros disputavam a segunda posição com os suecos quando a França perdeu inexplicavelmente para Israel em casa, escorregando eles mesmos para a vice-liderança – e a Bulgária em terceiro. Desta forma, para se classificar, Stoichkov e cia. precisavam “apenas” derrotar a França  em Paris. Em 17 de Novembro de 1993, o Parc-des-Princes viu um passe de cabeça de Papin deixar Cantona livre para fazer 1×0. Mas a Bulgária não sabia o que era impossível. Num escanteio da esquerda, Kostadinov se antecipou a Petit e empatou. No fim do jogo, Ginola errou um cruzamento para a área, o lateral Kremenliev puxou o contra-ataque, Lubo levantou para o mesmo Kostadinov vencer Guerin na corrida e selar a zebra. Enquanto os franceses se culpavam mutuamente – o técnico Gérard Houllier chegou a chamar Ginola de “assassino”, sem levar em conta exatamente por que seu time foi incapaz de matar um contra-ataque – os búlgaros comemoravam a classificação para o Mundial de 1994.

Como de praxe, o grupo não era exatamente fácil. O primeiro gol de Hristo em Copas, uma bela cobrança de falta, foi anulado por ter sido batida antes do apito. Yekini, Amokachi e Amunike garantiram que o forte time da Nigéria saísse vencedor. O próximo jogo era contra aquela que seria a pior seleção do Mundial, a miserável Grécia. Stoichkov converteu dois pênaltis. Letchkov e o meia-atacante Daniel Borimirov – o super-sub búlgaro daquele torneio – completaram a goleada – a primeira vitória búlgara nos cinco mundiais que disputara. E foi assim que os búlgaros se viram novamente na posição de ter que derrotar um adversário fortíssimo para ir em frente – no caso, a Argentina de Maradona. Eles precisariam rezar muito. E a prece funcionou.

Desta vez, a ajuda divina veio em dobro. Diós deu (de novo) uma mãozinha ao destino ao falhar o teste antidoping e ser suspenso pelo uso de efedrina, enquanto o milagre em campo ficaria novamente por conta de Hristo. O craque interceptou um cruzamento da direita e lançou o contra-ataque para o parceiro Kostadinov, que devolveu o passe em perfeitas condições para que Stoichkov apenas tocasse por baixo do goleiro Islas. O lateral Tsanko Tsvetanov quase pôs tudo a perder sendo expulso seis minutos depois, mas os búlgaros souberam se defender e foram recompensados pelo gol de Sirakov nos acréscimos, após cobrança de escanteio. A Bulgária se classificava para reencontrar outro velho nêmese – o México.

Desta vez, o milagre não viria de Hristo – embora ele tenha feito o gol búlgaro, logo aos seis minutos. García Aspe empatou em um jogo cuja maior atração no tempo normal foi a substituição da TRAVE, quebrada pelo mexicano Bernal. Nas cobranças de pênalti, quem brilhou foi o goleiro Mihaylov, que chocou o mundo ao pegar três chutes sem deixar cair sua inconfundível peruca. A Bulgária se classificava para enfrentar nas quartas ninguém menos que os atuais campeões do mundo – os alemães. Se alguns times surpreendentes tiveram seu trabalho facilitado por tropeços alheios, este definitivamente não era o caso da Bulgária.

O envelhecido e pouco brilhante time alemão não estava particularmente bem no torneio. Veteranos sofriam com o calor americano e com a pouca inspiração ofensiva. De fato, após um primeiro tempo estéril, a Alemanha precisou de uma dose de malandragem para abrir o placar: Klinsmann se atirou na área após choque mínimo com Letchkov e quem caiu foi o juiz Torres Cardena. Matthäus converteu e tudo parecia estar nos conformes. Mas quem tem fé em Hristo acaba recompensado. Stoichkov trombou com o defensor e caiu a três metros da área (e naturalmente Klinsmann se arrastou do ataque para protestar contra a simulação). Falta com ele era pênalti – e Illgner não ajudou muito ficando parado no meio do gol. Os búlgaros farejaram sangue, e com a imprudência que Deus lhes deu, foram pra cima. Um lateral na ponta direita foi a chave. Com o jogo concentrado ali, Kostadinov recuou para Yankov. A zaga alemã ficou olhando para o Hristo e não acompanhou a aparição surpresa de Letchkov, que se antecipou a Strunz para virar de peixinho. A Bulgária cometia o crime. No Cup for you, Deuschtland!

Mais uma vez, um bicho-papão se colocava no caminho dos búlgaros. Mas desta vez, nem Hristo pôde parar Il Divino Codino. Roberto Baggio marcou dois em dez minutos e deu a Stoichkov a missão de fazer três gols numa zaga composta pelos diavolos Costacurta e Maldini – o que, sabemos, precisa vender a alma pra conseguir. Ele conseguiu um, de pênalti, pouco antes do fim do primeiro tempo, mas não foi o suficiente. A saga de Hristo e seus apóstolos acabava aqui. O jogo de terceiro lugar, contra a Suécia, nem deveria contar – os búlgaros não estavam lá. Um time apático e completamente desorganizado foi massacrado por uma grande atuação de Brolin (possivelmente a última) e Henrik Larsson. Trifon Ivanov, que havia pedido para não jogar, ameaçou ser expulso para conseguir ser substituído pouco antes do fim do primeiro tempo. Mihaylov e sua peruca se recusaram a voltar do intervalo. A única consolação para seu reserva, Plamen Nikolov, é que a Suécia tirou o pé e não fez mais gols.

Até hoje, seria a última vez que uma seleção da Bulgária passa da primeira fase em algum torneio internacional. Na Eurocopa de 1996, perderam para a França e venceram a Romênia de Hagi, mas acabaram perdendo a vaga para os espanhóis, que também superaram os romenos mas fizeram um ponto a mais contra os franceses. Para 1998, o grupo fraco ajudou e os já envelhecidos búlgaros superaram a Rússia por um ponto. Mas Hristo, ao contrário de Cristo, não é bom em duas coisas: dar a outra face e ressuscitar. O time estava envelhecido. Sirakov e Houbtchev já estavam fora, Mihaylov e Kostadinov eram reservas, Letchkov entrou na justiça para cobrar o pagamento de seu time, o Besiktas, e acabou suspenso pela FIFA impedido de ir ao mundial. Trifon e Yankov eram os mesmos, só quatro anos mais velhos. Stoichkov, por sua vez, tinha brigado com Cruyff, saído do Barcelona, voltado, saído de novo e retornou ao CSKA. Mas não era sombra do jogador que havia conquistado a Chuteira de Ouro pelo time búlgaro.

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Stoichkov – e a Bulgária – fizeram uma Copa miserável, empatando em 0x0 com o Paraguai e perdendo (de novo) da Nigéria. Poderiam sonhar com a classificação caso os africanos derrotassem os sul-americanos e eles ganhassem da Espanha. Para um time que derrotou a França em Paris, a Argentina, a Alemanha, era possível sonhar. Mas esse não era mais aquele time, assim como Stoichkov não era mais aquele. Kostadinov marcou o único gol búlgaro na Copa, claramente insuficiente contra SEIS da Espanha. Que nem fizeram diferença, pois a Nigéria escalou um misto frio que o Paraguai comeu com farofa. A Bulgária encerrava assim sua história até agora em Copas do Mundo. Uma nova geração, liderada pelo centroavante Dimitar Berbatov, pelo ponta Martin Petrov e pelo médio Stiliyan Petrov, conseguiu apenas se classificar para a Euro 2004, onde foi devidamente eliminada após perder todos os jogos.

E dessa forma, os búlgaros aguardam ansiosamente um novo Hristo surgir para que possa conduzi-los a dias melhores. Enquanto isso, o que podem fazer é rezar mesmo…

Time-base: Trifon Ivanov, Daniel Borimirov (na vaga de Sirakov), Zdravko Yankov, Borislav Mihaylov, Yordan Letchkov e Hristo; Petar Houbtchev, Krasimir Balakov, Tsanko Tsvetanov, Emil Kremenliev e Emil Kostadinov

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.