• Soccer Time #02 – NASL e a luta contra o cartel do “soccer” americano
    12 de novembro de 2017
    Categoria: Soccer Time

     

    Para começar a compreender, é necessário saber que a United States Soccer Federation – mais conhecida como USSF – adota uma divisão de ligas/divisões entre suas ligas sancionadas. Elas estão dispostas, atualmente, da seguinte forma:

    Explicarei o porquê da mudança entre as ligas do Division II mais em breve.

    Para o ano que vem, o Los Angeles FC entrará na MLS. Três expansões da USL também estrearão em 2018: Fresno FC, Las Vegas Lights FC e o Nashville SC. A NASL está marcada como “?” porque, diante de muitas saídas e algumas expansões, ainda não se sabe quantos clubes irão disputá-la. Sobre os times que jogarão a primeira temporada da NISA – National Independent Soccer Association, irei “passar à limpo” tudo que já está definido, e os clubes que ainda são incógnitas.

    Primeiramente, a franquia de Miami pode ou não entrar em 2019. Sabe-se que, em 2020 teremos duas expansões, mas antes disso, ainda falta definir. Novas franquias de Austin e Birmingham (Alabama) ingressarão na USL 2019, e nesse mesmo ano, deve-se iniciar a USL Division III (também negocia expansões com cidades). A terceira liga na Division III pode ou não existir. Isso porque a NASL corre sérios riscos de acabar. Sobre isso, conto-lhes o imbróglio entre a liga e a federação dos EUA nos próximos parágrafos.

    Essa história começa em setembro de 2015. Nesse mês, a NASL enviou uma carta ao presidente da USSF, Sunil Gulati, acusando-os de violações antitruste (estrutura empresarial em que várias empresas, que já detêm a maior parte de um mercado, se ajustam ou se fundem para assegurar o controle) caso eles adotassem os critérios propostos pela USSF para uma liga da Division I. As mudanças questionadas pela NASL foram: aumento da capacidade mínima do estádio para 15.000, aumento do mínimo número de equipes para 16 e aumento da população mínima em 75% das cidades de equipes da liga. Com base nisso, a NASL acusou a USSF de coniviar com a MLS para proteger o monopólio da MLS, tornando-a única liga da Division I.

    Naquele momento, a NASL já sofria com a possibilidade de fechar as portas (isso se intensificou com a quantidade de equipes especulando sair da liga – em 2016, 5 expandiram-se para USL/MLS ou acabaram), e a USL apresentava enorme ascensão, principalmente do público, levantado principalmente por clubes independentes, caso do FC Cincinatti (média superior à franquias da MLS) e Louisville City, por exemplo. Colocando a poeira pra debaixo do tapete, a USSF, em 2016 (valendo para a temporada 2017), deu status de Division II para as duas ligas que a visavam. Detalhe que, na época, a USSF disse que nenhuma das ligas atingiu todos os seus requisitos mínimos necessários para se operar na Division II. Essas exigências incluem: requisitos financeiros dos proprietários, tamanho dos mercados para as equipes envolvidas, número de equipes (NASL tem 8, 4 a menos que o mínimo) e a distribuição geográfica das equipes.

    Protesto da Cross Island Crew, torcida do Cosmos.

    A NASL também alegou que a USSF está envolvido em uma conspiração, juntamente com a MLS, Soccer United Marketing – o braço de marketing da liga – e a USL, e que a USSF aplicou e alterou os Padrões da Liga Profissional (que soletram os critérios para as designações das Division I, II e III) para prejudicar a NASL, principalmente o critério de número de equipes.
    “Depois de um processo exaustivo trabalhando com ambas as ligas, no melhor interesse do esporte, o Conselho de Administração de Futebol dos EUA decidiu conceder o status provisório da Division II à NASL e à USL”, disse o presidente da Futebol dos EUA, Sunil Gulati. “A US Soccer criará um grupo de trabalho interno que trabalhará com cada liga para definir um caminho para atender aos requisitos completos da Division II e permitir o objetivo maior de criar um futuro sustentável. Esperamos outro ano produtivo para futebol profissional neste país.”.

    A decisão de atuar como Division II agradou a NASL, que a ocupava desde a sua fundação, em 2010. Entretanto, esse posto estava ameaçado e o fato de dividir o status com a USL não contentava os dirigentes e proprietários responsáveis pelas equipes ou pela liga.

    Dois anos depois da acusação por parte da NASL, ficou relatado que, depois de ter concedido o status provisório da Division II para as duas ligas, a US Soccer votou em não continuar buscando a concessão de status permanente da Division II à NASL (mas essa já era a intenção [secreta] dela). Em nota oficial da NASL, a liga afirmou que estava “desapontada com a decisão e não acredita que a federação tenha atuado no melhor interesse do esporte. A decisão do US Soccer afeta negativamente muitas partes interessadas no futebol: torcedores, jogadores, treinadores, árbitros, empresas parceiras e proprietários de clubes da NASL que investiram dezenas de milhões de dólares promovendo o esporte. A decisão também põe em risco os milhares de empregos criados pela NASL e seus clubes membros “.

    No dia 19 de setembro de 2017, a NASL apresentou uma ação contra a USSF na justiça. Dias depois, fora relatado que algumas equipes não estariam apoiando essa atitude da liga: o FC Edmonton, clube formador da liga, em 2011, afirmou não estar envolvido no processo. Posteriormente, o North Carolina FC disse “não apoiar” a decisão.

    A NASL levou o caso ao tribunal, alegando intenção da USSF de beneficiar a MLS e o monopólio no futebol dos EUA e no dia 31 de outubro foi realizada a audiência. A liga entrou na justiça para anular a decisão da USSF de deixar a Division II exclusivamente com a USL. Resultado: a juiza Margo K. Brodie recusou o pedido da NASL, constatando, dentre outros fatores, que a liga não conseguiu comprovar a conspiração a que se sustentava.

    “Estamos muito desapontados com a decisão do Tribunal de negar a nossa proposta de injunção preliminar”, afirmou a liga em nota oficial. “Continuamos firmes na busca de reivindicações antitruste contra a Federação de Futebol dos EUA e estamos confiantes de que a justiça será atendida. “À luz do prejuízo extremo que esta decisão representa para a NASL e nossas equipes, jogadores, treinadores e fãs, começaremos imediatamente a rever todas as nossas opções legais, incluindo o processo de apelação da decisão de hoje”.

    No tribunal, também foi revelado que o San Francisco Deltas – que está estreando em 2017 – não continuará, com possibilidade de o time não existir mais. O FC Edmonton, que localiza-se no Canadá, sairá da liga e voltará suas atenções para a CanPL (Canadian Premier League). O North Carolina, que anteriormente tinha alegado não estar do lado da NASL, vai ingressar na USL em 2018. O Puerto Rico FC ainda não decidiu o que vai fazer, mas não se descarta a possibilidade de jogar o campeonato porto-riquenho pela primeira vez na história (contando também o Puerto Rico Islanders). Com isso, restaram as seguintes equipes: NY Cosmos, Miami FC, Indy Eleven e Jacksonville Armada. Junto a eles, as duas expansões: San Diego 1904 FC e California United.

    Times da NPSL prometem filiar-se à NASL caso a liga continue.

    O futuro da NASL é muito incerto. Quase todas as chances que lhe restavam para não ter que acabar (e junto dela, dois clubes tradicionalíssimos, Miami FC e Cosmos, onde jogaram Romário e Pelé, respectivamente) estavam depositadas nessa audiência. Times da NPSL (outra liga, não sancionada pela USSF) possivelmente irão ingressar na NASL, caso ela permaneça viva por, pelo menos, um ano. São eles: Boca Raton FC, Boston City FC, FC Arizona, Virginia Beach City FC e o Hartford City FC para 2018. New Orleans Jesters já confirmou que entrará na liga em 2019, caso ela ainda exista.

    É claro que há uma ligação envolvendo monopólio, entre a USSF, o SUM e a MLS, e a NASL ainda lutará muito para provar isso, para enquadrá-los na Lei antitruste.

     

    Sobre a política da MLS

    Navegando por artigos de opinião de jornalistas estadunidenses, descobri um ótimo texto de Chris Kivlehan. Segundo ele, há duas possibilidades da NASL seguir firme (ou pelo menos seguir): a primeira é que NASL e NISA fundem-se, formando uma liga da Division III com novos times atendendo mercados promissores, misturado com a tradição vindo dos anos 70, com Cosmos, e mais recentemente, com Miami FC. A segunda é bem menos provável, diz que a USL deva comprar a NASL.

    Outro ponto a se destacar é a estrutura da USL. O público das equipes “B” da MLS na liga é péssimo. Enquanto que a média da liga é de 4326, a média contando apenas essas equipes é de apenas 1521. O Bethlehem Steel FC, clube de melhor público médio entre esses ocupa a 22ª posição (de 38) num ranking de público considerando clubes da NASL e da USL em 2017. Portanto, mais torcedores são atraídos para um clube independente do que para um time “B”. Por que, ao invés de disputarem como equipes “B”, esses times não fazem parcerias com clubes independentes?

    A estrutura do futebol estadunidense é um modelo de negócios em primeiro lugar, e um modelo de futebol em segundo lugar. Por esse motivo, defensores da deslocalização do Crew para Austin podem chamar o movimento de negócio infeliz, mas inteligente. A MLS não dá a mínima para a tradição do clube, a paixão dos torcedores, a cidade, apenas a felicidade dos investidores. Assim é levado o esporte nos EUA, seja na NBA, NFL, NHL ou MLB. Acontece que, no futebol, quando um jovem está no ensino médio e tem potencial para ser um grande atleta, ele raramente escolhe praticar o futebol, como é na maior parte do mundo.

    Nos EUA, uma liga diferente da Division I é considerada naturalmente uma liga “menor”. Por esse motivo, a MLS precisa ser forçada a abrir-se para o sistema de promoção/rebaixamento.

    Destaques da NASL divulgados

    Reprodução: nasl.com

    O brasileiro Stéfano Pinho venceu o prêmio Golden Ball,entregue ao melhor jogador da temporada regular – MVP. Ele foi o jogador com mais votos da mídia e de torcedores, depois de um ano memorável, vencendo também o Golden Boot, como artilheiro do campeonato (17 gols). Nascido em Minas Gerais, ele foi melhor jogador da semana duas vezes, tendo sido nomeado ao time da semana em 6 oportunidades. Revelado pelo Fluminense, passou por alguns empréstimos no Brasil e na Finlândia, até chegar aos Estados Unidos, em 2015. Nesse ano, disputou a NASL pelo Fort Lauderdale Strikers, e também foi MVP da temporada. No ano seguinte, venceu o Soccer Bowl pelo Minnesota United, mas não ficou com o clube depois da expansão para a MLS.

    O gol do ano foi para o meio-campo do Jacksonville Armada Zach Steinberger, marcado na semana 7 do Spring Season, contra o NY Cosmos, quando a equipe perdia por 1 a 0 nos acréscimos. Na oportunidade, Steinberger acertou um voleio no ângulo esquerdo.

    O treinador do ano foi Marc dos Santos, do San Francisco Deltas, apesar da equipe não ter sido a melhor na temporada regular, e nem perto disso. Ele mesmo já havia vencido o prêmio em 2015, pelo Ottawa Fury. Jack Blake, do Jax Armada foi o melhor jogador jovem. O restante dos prêmios está listado abaixo:

    • Humanitarian of the Year: Austin da Luz (North Carolina FC)
    • Golden Glove: Daniel Vega (Miami FC)
    • Fair Play Award: North Carolina FC

    Time do ano.

    GK: Daniel Vega (Miami FC) – 15 clean sheets
    DEF: Reiner Ferreira (San Francisco Deltas) – 86 interceptações em 31 jogos
    DEF: Mason Trafford (Miami FC) – Melhor aproveitamento de passe: 92.41%
    DEF: Mechack Jérôme (Jacksonville Armada FC) – 4 vezes no time da semana
    DEF: Connor Tobin (North Carolina FC) – 40 interceptações
    MID: Emmanuel Ledesma (New York Cosmos) – 10 gols e 6 assistências
    MID: Nazmi Albadawi (North Carolina FC) – 56 chances criadas
    MID: Richie Ryan (Miami FC) – 90.7% de aproveitamento nos passes
    MID: Dylan Mares (Miami FC) – 8 gols e 5 assistências
    FWD: Vincenzo Rennella (Miami FC) – Vice artilheiro: 11 gols e 5 assistências
    FWD: Stéfano Pinho (Miami FC) – 17 gols, Golden Ball

    Sobre a NISA, nova liga para 2018 ou 2019

    A NISA – National Independent Soccer Association deve começar em 2018, e deverá se conciliar como Division III na estrutura de futebol dos EUA. Atualmente, a liga busca novos mercados e negocia com equipes já existentes.

    “Estamos satisfeitos com os candidatos, bem como com as pessoas e a visão por trás de cada aplicação”, disse Peter Wilt, co-fundador da NISA. “O passo crítico para investigar completamente cada mercado agora passa a uma fase importante, para que possamos ter certeza do sucesso dos candidatos e da Liga. Cada candidato bem sucedido precisará mostrar a nós e à US Soccer que têm um local apropriado, modelo financeiro, plano de negócios, administração e propriedade para garantir a sustentabilidade “, disse Wilt.

    A NISA anunciou, em 7 de junho que recebeu cartas de intenção para se juntar a dez mercados. Essa lista cresceu para 15 enquanto as discussões continuam com um total de 45 mercados diferentes. As aplicações foram simultaneamente submetidas à USSF, que examinará as apresentações junto com a NISA para avaliar a prontidão, à fim de começar na próxima primavera. Para temporada de estreia, os dirigentes esperam 8-10 equipes, e novos devem integrá-la em 2019.

    Dentro da perspectiva atual, do caos na organização do futebol, a NISA promete revolucionar nacionalmente, colocando o sistema de rebaixamento (de alguma forma) na sua estrutura. Por isso o número tão elevado de buscas por mercados.

    Dois dos clubes já anunciados já existiam há alguns anos. O Chattanooga, do estado de Teennessee, é o mais bem sucedido time da NPSL. O público médio do clube é o melhor da liga. O Miami United, fundado há 5 anos atrás, também joga a NPSL.

    Postado por Caio Morais 14 anos, mora em Fortaleza-CE, gosta de qualquer futebol, mas principalmente o acreano e o "soccer". Torcedor do Ferroviário-CE e do Galo mineiro, além de todos os clubes do Acre.