Sobre Cuca, David Braz e anseios do torcedor santista
2 de agosto de 2018
Categoria: Futebol e Nacional

 

O Santos, no papel, não tem um time que justifique a atual 17ª posição ocupada no Campeonato Brasileiro. O Santos, no papel, é mais forte que, pelo menos, nove ou dez clubes dentre as 20 equipes que compõem a principal divisão do futebol nacional. Mas o Santos é, atualmente, um time e um clube com uma fraca autoestima, rachado politicamente e quase à deriva no mar do futebol brasileiro. E quando um clube gigante entra em uma maré desse tipo é muito mais difícil conciliar a pressão por uma resposta rápida e a falta de tranquilidade para a tomada de decisão juntamente com a (im)paciência do torcedor. É nesse cenário que a contratação de Cuca ganha um peso imenso, provavelmente um dos últimos suspiros para evitar uma catástrofe ao final do ano.

A partida de ontem pela Copa do Brasil escancarou dois dos principais problemas do Santos em 2018: a presença incontestável e desastrosa de David Braz na zaga e a ausência de um setor de meio campo minimamente decente e capaz de ganhar um jogo grande. Braz, ontem, falhou na marcação de Raniel e concedeu ao cruzeirense a chance da finalização que foi convertida no tento que definiu o placar do jogo. Braz também falhou contra o Palmeiras no Allianz Parque (em derrota por 2×1) pela primeira fase do Paulistão, falhou contra o Palmeiras no Pacaembu (em derrota por 1×0) pela semifinal do Paulista, falhou contra o São Paulo no Morumbi (em derrota por 1×0) no Brasileirão, falhou contra o Cruzeiro no Pacaembu (em derrota por 1×0) no Brasileirão e falhou contra o mesmo Palmeiras, pela terceira vez no ano (em empate por 1×1), no Campeonato Brasileiro. Só de cabeça vieram todos esses erros mencionados, todos em jogos grandes. É inadmissível a permanência desse sujeito como titular tendo Veríssimo, Luiz Felipe e Gustavo Henrique no elenco, três zagueiros claramente superiores ao atual camisa 14 CAPITÃO do Santos (inclusive a dupla Gustavo Henrique e Luiz Felipe foi capaz de segurar o líder Flamengo na semana passada, no empate de 1×1 na Vila).

Não menos importante que isso está a ausência de meio de campo do Santos desde o início do ano. Jair Ventura teve sete meses para driblar as deficiências do elenco que carecia de um meia-armador. Não mudou o esquema, não tentou variar a equipe de modo a minimizar o problema e achou que colocar quatro atacantes seria a solução. Insistiu nessas condições – e entre tantas outras – até ser mandado embora semana passada. A grata surpresa no setor foi o achado de Diego Pituca em meio ao caos, um meia de bom passe que não é um criador nato, mas que desafoga o time em várias situações no jogo. De resto, vemos Alison sobrecarregado na marcação, Renato, que vez ou outra tenta tapar um buraco que ele não dá mais conta, e Jean Mota, este último tão irregular que tira o sono do torcedor santista. O resultado: atacantes isolados que não conseguem receber a bola em condições propícias para afunilar jogadas, forçando-os a cada vez mais buscarem a bola na faixa defensiva de campo e tentar decidir em uma jogada sempre no talento individual. Desde o início do Brasileirão esse método não funcionou nem sequer em um único jogo contra um adversário bom ou minimamente organizado.

Que fase…

Não é segredo para ninguém o racha político dentro do clube. O reflexo das intromissões de tantos membros divididos em chapas ou lados culminou no desperdício da pausa da Copa do Mundo e a seguinte demissão de Jair Ventura uma semana depois do Brasileirão ser retomado, e até mesmo a escolha de Cuca teve que ser minuciosamente pensada para não desagradar A ou B. No meio disso tudo as recentes contratações de Bryan Ruiz e Carlos Sanchez não tiveram seus documentos regularizados a tempo e estão fora da disputa da Copa do Brasil. O torcedor é quem paga o pato diante de tanto amadorismo.

Eis que a figura de Cuca emerge como o bombeiro responsável por apagar esse incêndio que só aumenta. O torcedor clama por resultados que tirem o time da zona do rebaixamento no nacional e espera, também, um resgate na identidade do time. Hoje não sabemos e não reconhecemos o Santos em campo. Insosso, desestimulante, monótono, de passe para o lado ou para trás, de pouca agressividade. Vale à pena modificar o previsível 4-3-3, sacar um ou dois atacantes e fortalecer o meio de campo, principal setor de desequilíbrio do time. As chegadas de Sanchez e Ruiz permitem esse teste, com Derlis González centralizando um pouco mais se for possível. Fato é que pior do que está pode ficar, por isso é necessário ousar em mudar. E pra já!

O resgate psicológico não pode deixar de ser mencionado: Dodô, Gabriel, Sasha e Bruno Henrique podem jogar muito mais do que estão jogando, e a fase ruim colabora para que os erros martelem mais em suas cabeças e na mente do torcedor. Talvez um leve chá de banco para um ou dois dos três atacantes minimize as críticas momentâneas. A torcida, ontem, poderia ser melhor do que foi: míseros 7 mil espectadores na Vila Belmiro é para se lamentar, ainda que pese a atual fase alvinegra. O São Paulo no ano passado mostrou a simbiose clube-torcida que resgatou o time da provável degola e eu espero ver algo semelhante da torcida do Santos nesse sentido.

Em 2008 Cuca comandou aquele que pode ser considerado o pior elenco do Santos de todos os tempos. Não teve material humano para trabalhar decentemente, demorou para engrenar, não conseguiu se manter no cargo e entregou o time pior do que quando havia o recebido. Hoje, 10 anos depois daquele pífio ano, Cuca pode dar a volta por cima e corrigir o resultado final de seu saldo frente ao comando técnico santista. O torcedor quer resultado, mas também clama por mudanças urgentes, porque a mesmice nos acompanhou o ano todo e está nos levando para o buraco. Título é algo impensável para o momento, então o jeito é arrumar a casinha e somar pontos no certame nacional o quanto antes. Não podemos perder gol com goleiro deitado, correr como um bando desorganizado ou ficar à mercê da sorte da bola bater na trave e entrar lá na frente ou não cair próxima de David Braz lá atrás.

Que todos os santos ajudem o rezadeiro Cuca e o combalido Santos. Estamos precisando.

Postado por Bruno Ferreira Santos Paulistano, 22 anos, jornalista em formação. Tem Santos no nome e no coração. Pivô de futsal nas "horas vagas". Ama jogadas ensaiadas e fintas de corpo.