• Seleção Brasileira Feminina: coragem e posicionamento contra o retrocesso
    29 de setembro de 2017
    Categoria: Futebol e Nacional e Seleções

    Cristiane anunciou sua aposentadoria da seleção após a demissão de Emily Lima.

    Menos de um ano – dez meses para ser mais exato. Foi esse o tempo que Emily Lima, treinadora contratada pela CBF, em novembro de 2016, para comandar a Seleção Brasileira de Futebol feminino, teve para colocar em prática seu trabalho e suas ideias. A chegada da profissional à Seleção trouxe altas expectativas, credenciadas pela sua experiência com trabalhos em grandes clubes do futebol feminino e também pelo preparo e capacitação invejável que trazia consigo, tendo no currículo cursos e licenças da própria confederação nacional.

    Após 13 jogos, um aproveitamento de 56,4% e nenhuma competição oficial disputada, toda a expectativa e trabalho foram lançados por terra. Emily Lima acabou sendo demitida pela CBF, que justificou a decisão com base nos resultados da treinadora a frente da equipe. Para seu lugar, o treinador anterior a ela, Vadão, foi o escolhido para assumir mais uma vez o cargo, numa clara demonstração do quão retrógrada a Confederação Brasileira de Futebol pode ser.

    Vale lembrar que a Seleção Brasileira enfrentou nos últimos jogos equipes como Alemanha, Japão, Estados Unidos e Austrália, ou seja, potências em constante evolução no meio do futebol feminino. Mas o que de fato chama atenção é uma estatística nada animadora que compara os últimos treinadores da seleção em paralelo à situação da treinadora: nos últimos 13 anos, todos os técnicos (homens) que estiveram a frente da Seleção Feminina tiveram mais tempo do que Emily para desenvolver seus trabalhos, fossem eles melhores ou piores que o da agora ex-treinadora.

    Tendo essa estatística como cenário fica praticamente impossível não abrir o questionamento sobre as reais motivações da CBF na demissão de Emily. Se fosse um homem, com os mesmos resultados, ele também seria demitido em tão pouco tempo? Provavelmente não, já que todos os treinadores anteriores a ela tiveram mais tempo para mostrar serviço  —  muitas vezes atuando contra seleções mais fracas, que é um outro fator importante a ser considerado nessa equação.

    Por que Emily teve tão pouco tempo para mostrar seu trabalho?

    A decisão da CBF parece impulsiva  —  e injusta  —  e tem toda a cara de ser mais uma das várias âncoras que insistem em puxar o futebol feminino brasileiro cada vez mais para baixo, beirando o amadorismo. Colocadas diante de tal situação, as demais vítimas da história, as jogadoras, não deixaram que a decisão passasse batido e logo se prontificaram a lutar em favor da ex-treinadora. Cristiane foi a primeira a se manifestar publicamente. A jogadora de 32 anos, uma das mais importantes na história do futebol feminino brasileiro, anunciou, por meio de um vídeo, sua aposentadoria da Seleção Brasileira, numa clara demonstração de apoio à Emily Lima e repúdio à CBF. Aproveitou ainda para questionar a decisão da entidade em demitir a treinadora:

    “Hoje se encerra meu ciclo na Seleção Brasileira. Muito triste saber que não vou jogar meu último Pan-Americano, última Copa América, última Olimpíada, última Copa do Mundo. Era meu sonho, o que sempre quis. Sempre sonhei em colocar medalha de ouro, levantar troféu de campeã mundial e ajudar a modalidade de alguma maneira (…) não vejo outra alternativa por conta de todos os acontecimentos e por coisas que não tenho mais forças para aguentar (…) simplesmente tiraram essa comissão em pouquíssimo tempo, todas atletas estavam gostando. Sem entender. Todas as outras (comissões) que passaram tiveram muito tempo de trabalho, um ciclo grande. E essa não teve esse tempo de trabalho. Só porque era mulher?”

    Unindo-se a Cristiane e à causa, outras jogadoras anunciaram que não mais atuariam com a camisa da Seleção Brasileira, como foram os casos das atletas Fran e Rosana. É importante ressaltar que antes mesmo do anúncio da demissão, 24 jogadoras solicitaram à CBF e ao dirigente Marcos Aurélio Cunha que mantivessem Emily Lima no cargo, apesar dos últimos resultados negativos. Como de costume, não foram ouvidas.

    E é justamente contra essas decisões arbitrárias que as atletas têm se unido de forma louvável, não só para dar um basta na série de escolhas precipitadas e descuidadas que a CBF vem tomando com o futebol, em especial com a modalidade feminina, mas também para terem voz e serem ouvidas dentro do esporte que praticam. Nada explica melhor o movimento do que a carta aberta escrita por Angélica Souza, Nayara Perone, Renata Mendonça e Roberta Nina Cardoso no excelente site dibradoras (confira na íntegra aqui):

    “A atitude delas é corajosa, é louvável, mas acima de tudo: É NECESSÁRIA. É preciso chamar a atenção para o que está acontecendo com o futebol feminino. Não dá mais para aceitar as migalhas  —  é preciso querer mais.”

    “Nós pedimos para que as jogadoras se posicionem ainda mais e que vão além: que se unam, exijam respeito e espaço para diálogo. O jogo só existe por causa de vocês, as estrelas maiores do espetáculo que é o futebol, então, vocês merecem serem ouvidas.”

    A decisão da CBF de demitir Emily é um verdadeiro atentado contra o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil, mas a união e comprometimento das jogadoras é crucial nesse momento. Para que os dirigentes passem a respeitar as atletas e seu lugar dentro do futebol, para não mais vermos falas como essas, com a autoria de Marcos Aurélio Cunha, e principalmente para que o retrocesso não mais se faça presente em um meio que clama por desenvolvimento  —  e que já demonstrou qualidades suficientes para tal.

    A CBF segue sendo uma das maiores âncoras para o futebol feminino brasileiro, mas atitudes como a dessas jogadoras podem ser a força necessária para impulsionar de vez o desenvolvimento da modalidade. Emily Lima foi a primeira mulher a treinar uma seleção feminina de futebol em nosso país. Nossa torcida é para que ela não seja a última a comandar uma equipe, mas sim a última a ser vítima das arbitrariedades e incoerências da CBF, bem como do preconceito e machismo impregnado em nossa sociedade e instituições.

    Postado por André Oliveira Estudante de História, torcedor são-paulino, clubista e corneteiro.