“Raiz” ou não, são todos humanos
21 de agosto de 2019
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

 

O poder sentimental do futebol sempre foi motivo de encanto para todos. Em uma arquibancadas, torcedores podem sorrir e chorar numa fração de segundos. Dentro das quatro linhas, porém, algumas atitudes nesse sentido passaram a ser questionadas. Sobretudo depois da Copa do Mundo de 2014, chorar virou algo inaceitável para os jogadores.

Nas redes sociais, o termo “raiz” ganhou força. Chorar é errado, dar carrinho e xingar o rival é raiz. Aos poucos, criou-se um segmento em torno disso. Páginas e mais páginas ganharam milhões de seguidores batendo na tecla das diferenças de postura. Idolatrar uns, odiar outros.

Nesse universo, poucos representam mais o jogador raiz que Felipe Melo. Volante brigador, nunca aliviou nas entradas e sempre se doou por completo em campo. Nos microfones, declarações provocativas e, algumas vezes, até violentes. Aplausos! “O futebol raiz vive com um jogador desse!”, escrevem os amantes da truculência.

Terça-feira, 20 de agosto de 2019. Um lance comum acaba ganhando contornos memoráveis por conta de todo esse cenário. Já amarelado, Felipe Melo chega atrasado e derruba Luciano. Segunda advertência, expulsão.

Não sei se pelo peso do jogo, por discordar da marcação do árbitro ou até mesmo pela dura sequência – já tinha sido expulso nove dias antes, contra o Bahia -, mas Felipe Melo chorou. Sim. O antagonista daqueles que choram. O jogador raiz. O guerreiro dentro de campo. Sim, ele também sentiu.

A expulsão não chocou ninguém, até pelo histórico do jogador. Sua reação, por outro lado, surpreendeu aqueles que, não me perguntem como, esquecem que são humanos dentro de campo. Se na arquibancada o choro é recorrente, como outros humanos estariam imunes? O salário é capaz de acabar com as emoções? Nunca.

Logo após o apito final, esperei a primeira publicação do volante para ver os comentários da torcida. Para minha surpresa – felizmente -, quase todos os comentários foram positivos. “Força, estamos contigo!”, “levanta a cabeça” e outras coisas mais foram ditas pela torcida do Palmeiras.

Não há como saber, mas meses atrás, muitos desses torcedores podiam fazer parte do grupo que abomina o choro dentro das quatro linhas. Agora, mesmo que aos poucos, podem mudar a visão. São humanos dentro de campo, não máquinas. De quebra, a cena ainda ajuda a pôr fim na falácia preconceituosa de que “homem de verdade não chora” – chora muito, na verdade!

É possível ser um líder respeitável, um jogador raçudo e chegar firme nos adversários mesmo tendo sentimentos e vivendo o jogo na essência. Thiago Silva, David Luiz ou Felipe Melo. Não interessa. Ninguém é de ferro, nem mesmo quem acumula fãs pelo estilo raiz. 

Postado por Andrew Sousa Formando em Jornalismo justamente pela paixão pelo esporte, sente enorme prazer em poder escrever sobre o que ama. Apaixonado por um bom domínio e alguns jogadores ruins, vive o futebol desde o primeiro dos seus vinte anos.