Quando os anjos choram
16 de julho de 2018
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Seleções

 

Quando a chuva torrencial caiu no gramado do Luzhniki após o apito final, foi impossível não pensar que eram as lágrimas dos deuses do futebol. Porque, exceto os franceses (e algumas pessoas de coração gelado), o fim do jogo foi provavelmente a coisa mais triste da Copa.

Primeiro, porque a valente seleção da Croácia enfim cedeu às suas limitações – técnicas, físicas e principalmente emocionais – e teve seu belo conto de fadas destruído pelos competentes franceses. Difícil não se comover com a luta de Rakitić, Mandžukić, Perišić, Vršaljko, Rebić, Lovren, Vida… e o pequeno grande Modrić. Que sai com o troféu de melhor jogador da Copa – num torneio sem grandes atuações individuais, nada mais justo que premiar o desfile de talento do homem que mais quilômetros percorreu durante o Mundial. Que jogava fácil e liderava seus companheiros pelo exemplo. Que foi Kanté e Pogba em um só. Que perdeu pênalti e se redimiu no mesmo jogo. Que brutalizou a Argentina com direito ao gol mais bonito da Copa (pra mim). Que fez parecer fácil tarefa tão difícil de conduzir um país de quatro milhões de pessoas à uma final de Mundial, mesmo depois de três prorrogações. Que deu ao mundo do futebol mais um amor de verão.

Como se não bastasse, o apito final também marca o início de uma longa contagem regressiva: agora faltam quarenta longos meses para a próxima Copa. E, sério, não tem nada melhor que Copa do Mundo. É a única época do ano que se pode falar livremente de futebol e qualquer humano pára pra ouvir. É um evento que conecta as pessoas, pois todo mundo se interessa – pelo jogo em si, pela festa que ele traz ou ao menos pelo resultado no bolão. É uma ocasião que esfrega na cara das pessoas que existe um mundo muito diferente, e abre um pouco (ou muito, no meu caso) seus horizontes. É uma prova viva e cabal de que o futebol é um reflexo da sociedade, tem para todos os gostos: os aspectos técnicos e táticos do jogo em si, a relação entre o torcedor brasileiro e seus ídolos; pessoas bonitas em campo e fora dele.

Tem assuntos mais sérios: o racismo endêmico que condena o único técnico negro do torneio, o estiloso Aliou Cissé, a receber muito menos do que seus pares; a homofobia pulsante no país-sede, a brincadeira machista de torcedores brasileiros com uma russa; as tensões étnicas latentes em regiões como os Bálcãs ou mesmo a Europa Ocidental e seu debate ferrenho sobre imigração. Quem diz que futebol e política não se misturam sofre de uma terrível cegueira voluntária, que essa Copa em particular tornou muito difícil manter.

 

E acima de tudo, tem emoção. Tem os dois melhores do mundo sendo eliminados no mesmo dia, tem cinco gols em 45 minutos, tem Mbappé aposentando Messi e um youtuber racista em uma só arrancada; tem campeão eliminado na primeira fase, que já virou moda; tem VAR pra evitar que algum trambiqueiro faça gol de mão, mas que não vê um pisão desleal fora do lance. Tem Neymar rolando, Neymar gritando, e Neymar fazendo gol. Tem tombo do técnico, tem gol nos acréscimos, tem uma das eliminações mais tristes dos últimos anos – não por termos estado sete degraus abaixo dos rivais, mas por perdermos em detalhes – e na noite feliz de Courtois.

Faltam só 1587 dias agora. É pouco. Passa rapidinho.

(Eu espero…)

Postado por Victor Martins Santista, farmacêutico, trintão. Gosta de futebol bem jogado e de debates filosóficos. Tem aversão a clichês e boçalidade.