Passa a bola, fominha
29 de julho de 2019
Resultado de imagem para denilson turquia

 

Desde a iniciação futebolística de qualquer indivíduo, quando a tampinha de uma garrafa pet — adotada costumeiramente como bola nos recreios — corre descontroladamente pelo chão entre pés alvoroçados de crianças, o figurão tema desta crônica já demonstra sua índole dentro das quatro linhas. De cabeça erguida e peito estufado, o camisa dez (na cabeça dele, claro) carrega debaixo do pé o objeto minúsculo e impede que qualquer outra pessoa o retire de sua posse. Tocar a tampinha para outro colega? Não, nem pensar. 

Então acaba o tempo do intervalo e quase ninguém se divertiu como queria. Mas o Pelé do recreio, claro, se esbaldou no próprio egoísmo antes da aula de matemática. Pronto, basta isso para a construção do “fominha” ter início. Há quem conheça essa figura vil por outros nomes ao redor do país, mas pouco importam os adjetivos para descrevê-la, afinal, uma coisa é certa: o infeliz insiste em não tocar a bola para ninguém e quer resolver o jogo sozinho, mesmo que haja companheiros em melhor condição e exista um grande risco de entregar a pelota de graça para o adversário.

Se engana, entretanto, quem pensa que a evolução do fominha é constante e sem percalços. Pelo contrário, ele é confrontado ao longo dos anos; alguns deles, graças aos deuses do esporte bretão, abandonam tal comportamento com a bola no pé — muitas vezes porque receberam boas lições e foram preteridos em algumas partidas. Ainda assim, há os que escapam do coletivismo do futebol e seguem fominhas em essência, inclusive na categoria profissional. Quem nunca encheu a boca para xingar o jogador do clube do coração que driblou três adversários em sequência, se empolgou (agora eu “se” consagro, diria Milton Leite), e botou tudo a perder com uma pedalada que não levou a nada? Para deixar os torcedores ainda mais malucos, costuma levantar a mão espalmada pedindo desculpas aos companheiros, como se tivesse assumindo realmente o erro e fosse evitar novas trapalhadas. Ledo engano, é só tocar a bola novamente para ele que o espírito maradoniano de 1986 irá encarnar no fominha.

Já que Freud explica tudo, pelo menos é o que diz o jargão popular, talvez ele pudesse ter dedicado um pouco de seu tempo para teorizar sobre a psique do indivíduo que, imbuído de egoísmo e ânsia pelo estrelato, dá um drible quando facilmente poderia passar a bola para o companheiro melhor posicionado. Quem sabe não poderíamos entender mais racionalmente o que passa na cabeça de Ibrahimović quando ele tenta se mostrar como o maior jogador de todos os tempos e ignora o lateral passando a sua direita em velocidade e melhor condição de gol. Em vez do livro freudiano “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, que tal “Três Ensaios Sobre a Beleza do Passe”? Guardiola, entusiasmado, talvez fosse o primeiro a comprá-lo ainda em pré-venda.

Resultado de imagem para dando passe futebol

Toca a bola!

Apesar do grande destaque que os fominhas dos gramados oficiais têm, o que talvez mais me irrita é o peladeiro de domingo que tenho como companheiro, e que, a todo momento, quer decidir o jogo sozinho. Esses figurões frequentemente aparecem na quadra atrasados e sorridentes, com o par de chuteiras pendurado na mão e chiclete na boca. Cumprimentam um por um e, inquietos, perguntam contra quem será que demonstrarão todo seu talento. Basta o melão rolar para começar a odisseia — penteadas na pelota para cá, gingada acolá, esticada para o lado direito e, obviamente, bola perdida. Não bastasse o infortúnio, nem sequer se dão ao trabalho de voltar correndo para a defesa e marcar o contra-ataque rival, o que é regra universal nas peladas do Oiapoque ao Chuí. Se sai o gol, ainda têm a audácia de reclamar do revés.

Certa vez, entumecido de raiva com uma dessas figuras durante um jogo, resolvi dar o troco. Roubei a bola na defesa e consegui me livrar rapidamente de três adversários (saudosos tempos em que eu ainda conseguia fazer isso com facilidade). Éramos apenas ele e eu rumo à trave rival, em velocidade e contra apenas um adversário que corria de costas. Avançando pelo lado direito da quadra, eu facilmente poderia puxar a bola para a perna esquerda, passá-la, e deixar o infeliz na cara do gol; decidi que seria diferente. Enchi o pé e mandei a pelota direto pra fora, sem dar trabalho algum ao goleiro. Com um leve sabor de vingança na boca, me virei para voltar à defesa e fingi que não havia mais ninguém ao meu lado na hora do contra-ataque; foi quando ouvi o desaforo: “toca a bola, fominha!”.

Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney