Pão e circo, e as falácias de um discurso pronto
8 de junho de 2018
Categoria: Futebol e Seleções

Danilo Borges/Portal da Copa

Em época de Copa, se escuta ao montes uma frase que questiona o desporto rei: “Ah, mas o futebol nada mais é que a representação do pão e do circo”.

Realmente, o esporte serve de cortina de fumaça para muitas falcatruas serem esquecidas. Mas não é só ele. É praticamente uma tendência de tudo que desprenda das pessoas um sentimento que por algumas horas, possibilite que a realidade seja esquecida. A arte mesmo pode ser instrumento de alienação se bem (ou mal) utilizada.

A verdade e que o que se vê em tempos de comoção coletiva é uma necessidade das pessoas entenderem e questionarem tudo. Foi assim nas manifestações dos caminhoneiros, por exemplo. Tudo que gere um grande apelo midiático, tem que passar pelo crivo intelectual dos especialistas da internet. Ao mesmo tempo que isso gera um grande trâmite de informação, gera uma verdadeira rede de falacias.

Tudo bem, em tempos de Copa, as pessoas realmente adotam uma postura muito mais fanática tratando-se de futebol e sua seleção. Isso é natural e até estranho seria se fosse o contrário. Mas isso acontece a cada quatro anos, e basicamente durante um mês, ou até menos, dependendo do desempenho do time escolhido.

Além disso, o futebol não é algo que detém toda essa força por acaso. Ver o Brasil na Copa do Mundo é basicamente um costume extremamente característico do país. Completamente enraizado em sua cultura. Algo de no mínimo 60 anos. Além de movimentar um espírito de nacionalismo e ufanismo, ainda movimenta substancialmente a economia, e porque não a alegria do brasileiro?

Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A tendência das pessoas que adotam esse tipo de discurso é o reducionismo e o pragmatismo. A análise sociológica e antropológica de uma nação deve ser feita observando-se todos os aspectos de cultura e preferências de um povo. Reduzir as pessoas que acompanham a copa à alienadas é um erro primário. Uma falácia que acompanha um discurso fácil.

Ver o brasileiro médio e tentar desprendê-lo do prazer de desfrutar de um jogo do mundial, com sua cerveja, churrasco, vinagrete e pagode, beira o crime. E ainda mais cobrar uma postura política deste personagem, é lamentável.

A força do discurso cai ainda mais quando se pontua que até esta postura pode caminhar junto com uma manifestação política. Não deve ser visto como excludente. Pois, se considerar assim, além de reducionista, o discurso torna-se preconceituoso, atribuindo a aquele brasileiro a figura de um ser completamente à parte do espectro político, o que é bem errado.

O ser humano precisa sim de sua dose de pão e circo. Imagine um mundo onde só as mazelas fossem visíveis? Eu, pessoalmente, prefiro um jogo entre Irã e Marrocos a assistir um programa sensacionalista deflagrando e discutindo outro assassinato a sangue frio. São escolhas, não os julgo por escolher a segunda opção.

Somos animais políticos sim, mas somos também animais em outros aspectos. Precisamos sim externar isso numa paixão. Futebol está aí. E tem época melhor pra ver futebol do quem em época de Copa?

Amigos intelectualizados, não nos leve a mal. Espero que o sentimento que cultivamos por futebol desperte para os senhores em alguma outra coisa. É bom demais, garanto. Mas não vou me alongar muito, a churrasqueira já está acesa e a picanha vai queimar. Um abraço, e boa Copa!

Postado por Igor Varejano 18 anos. Do interior de São Paulo. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade. Bom, pelo menos a minha.