Ou se morre como herói, ou vive-se o bastante para se tornar o vilão – NTDR #01
6 de abril de 2018

 

A história de Arsène Wenger e do Arsenal são tão próximas que parece ser uma relação simbiótica, afinal de contas são vinte e um anos de parceria, passando por altos e baixos. É inegável que o treinador é um dos maiores da história do clube londrino, inclusive no comando do time mais marcante da história dos Gunners e da melhor campanha na Liga dos Campeões, entretanto o que este post irá tratar será sobre o que aconteceu antes e o que se sucedeu após esse ápice chegando até os dias atuais, justificando assim a frase do título.

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Antes mesmo de ser treinador, Wenger foi jogador de futebol, atuando apenas em seu país natal com destaque na sua passagem pelo ASPV Strasbourg e RC Strasbourg , times da cidade na qual nasceu. Contudo, o zagueiro teve maior destaque na carreira fora dos gramados, começando pelo Nacy-Lorraine, passando pelo AS Monaco, indo ao Japão trabalhar pelo Nagoya antes de chegar ao Arsenal em 1996. A seguir vemos como era o Brasil e o mundo no primeiro ano de trabalho de Wenger em Londres – isso basta para ter uma noção de quanto tempo já passou desde então.

 

Le Prof, como é conhecido o francês, veio com uma filosofia diferente da grande maioria dos técnicos: investimento em jovens talentos ao invés da contratação de grandes estrelas. Tal modo de gerenciamento é algo que se perpetua até hoje e virou uma identidade da equipe do Arsenal, que dessa maneira revelou grandes nomes do mundo da bola como Fábregas, Van Persie, Ashley Cole e até mesmo Henry, que chegou ao clube aos 22 anos de idade. Contudo, tal fórmula não vingou como veremos no final do post. Outra característica de mudança foi o estilo de jogo, buscando mais jogadas terrestre em lugar das bolas aéreas.

No início de trabalho sobre o comando do time londrino, Wenger começou muito bem. Logo na segunda temporada levou o título da Premier League e da FA Cup. A partir de então até 2006 a equipe sempre chegava forte tanto no torneio nacional como também na Liga dos Campeões, onde chegou a final em 2006, perdendo de virada para o Barcelona. Válido lembrar também a conquista invicta inédita da Premier League de 2004; algo que ocorreu no Campeonato Inglês há mais de 100 anos atrás. Segue aí os “Invencíveis”: Lehmann, Lauren, Kolo Touré, Campbell e Ashley Cole; Gilberto Silva, Vieira, Pires e Ljungberg; Henry e Bergkamp.

O histórico título dos Invencibles segue na memória do torcedor dos gunners.

Contudo, depois de 2006 começou o declínio do treinador. As jovens promessas começaram a dar errado, como Djourou, Sanogo, Diaby, e quando davam certas saíam do clube após um período de destaque. Nessa lista podemos incluir Van Persie, Fábregas e Nasri, este que inclusive fez um declaração polêmica sobre sua saída para o Manchester City: “Ouço pessoas dizerem que troquei de clube por dinheiro. Vou melhorar a minha vida, é certo, mas tenho 24 anos e cheguei a uma altura da minha carreira em que precisava de um clube com ambição de títulos”. Essa foi na verdade uma via de mão dupla, onde o time não conseguia levantar troféus e as grandes estrelas saíam, e por causa das perdas a equipe não vingava nem obtinha uma boa sequência.

Outro motivo importante é a despesa da construção do novo estádio, o Emirates Stadium, que consumiu muito dinheiro e impediu que o time pudesse investir em grandes jogadores. Entretanto, em meados de 2012, os Gunners já tinham condições de brigar junto com os melhores times da Inglaterra. Um exemplo disso é a chegada de Özil e Sanchéz e consequentemente a saída da seca.

Arsenal perde a final da Copa da Liga para o Birmingham em 2011 e deixa escapar a chance de sair da fila.

Foi apenas em 2014 que o período sem canecos terminou, com o título da FA Cup, que se repetiu duas vezes mais, em 2015 e 2017; cada uma das conquistas sendo acompanhadas por triunfos da Supercopa. Vale lembrar que boa parte do méritos desses título está na atuação de grandes nomes que chegaram ao clube já com bagagem, como Cazorla, Podolski, Ozil e Sanchéz, este último seguindo os passos de Van Persie, que após uma temporada fenomenal foi para o rival Manchester United.

Apesar da importância dos títulos, o torcedor dos Gunners ficam insatisfeito vendo o time que outrora era do primeiro escalão da Europa, sendo deixado para trás pelos rivais e brigando apenas por competições de “nível secundário”. Para se ter uma ideia, só nesse século Manchester United, Chelsea e Liverpool já ganharam a Liga dos Campeões, sendo que os dois primeiros ainda levaram a Liga Europa, título pelo qual os Gunners brigam nesta temporada. Além disso, times como Manchester City e até mesmo o arquirrival Tottenham vêm se destacando na Liga Inglesa acumulando boas campanhas na briga pelo título.

 

Aliado a isso temos atualmente a saúde financeira estável do clube, além da infraestrutura que é de primeira linha. Logo a culpa cai sobre o treinador, e não de forma injusta. A insistência demasiada em certos jogadores além da comodidade e falta de ambição por títulos de boa parte do staff do clube, que estão há muito tempo no time, recaem sobre Wenger. Junta-se a isso a infelicidade dos torcedores e a pressão midiática.

Mas o que permitiu a chegada de Wenger até aqui? A primeira resposta, como dito anteriormente, são os integrantes do time que possui uma relação muito próxima com o francês, a confiança da diretoria sobre o treinador que resulta na moral altíssima do Le Prof no clube. Dentro das quatro linhas, as últimas FA Cup foram fundamentais para a manutenção do cargo, contudo, a situação já é insustentável para os torcedores, ainda mais depois da última temporada, onde o time ficou de fora da Liga dos Campeões pela primeira vez em 20 anos – a primeira com Wenger no comando.

No milésimo jogo de Wenger no comando do Arsenal, o Chelsea estragou a festa goleando os Gunners por 6×0.

Na temporada passada, muitos acreditavam que seria o fim do treinador, mas o contrato foi renovado por mais dois anos. A campanha atual na Premier League é fraca e resta apenas a Liga Europa para salvar o ano e também retornar para a Liga dos Campeões, sendo que ainda nesta temporada o Arsenal perdeu de 3×0 para o Manchester City a final da Copa da Liga (único troféu inglês que o francês não conquistou). A saída de Wenger, apesar de ser pedida por muitos, até mesmo por jogadores, não parece clara, mesmo com os sucessivos fracassos.

Assim, a imagem belíssima do treinador, corajoso em assumir um Arsenal que se encontrava em crise em meados da década de 90, revolucionário no futebol inglês, com tato para revelar grandes nomes e montar um dos maiores times da história do futebol inglês, além da personalidade para segurar a barra em tempos de crise, vem sendo manchada temporada por temporada. O herói ficou tempo o suficiente para já ter se tornado o vilão.

Links úteis:

Podcast PL Brasil #8 – A crise profunda de Wenger no Arsenal

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Postado por Patryck Leal Estudante de Jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal, é apaixonado por esportes desde novo, desde o Futebol (principalmente o inglês), até o Curling, sendo este o motivo de sua escolha acadêmica e profissional.