O trabalho e o legado de Kluivert na seleção de Curaçao
13 de abril de 2018

Foto: Robert Meerding

Patrick Kluivert dispensa apresentações. Artilheiro no Ajax, no Barcelona e na Seleção Holandesa entre as décadas de 90 e 2000, certamente marcou época por nos seus tempos de jogador, colecionando passagens também por Milan, Valencia, Newcastle, PSV e Lille.

Já a seleção de Curaçao tem bem menos história. Nascida em outubro de 2010, após a dissolução das Antilhas Neerlandesas, só se juntou ao quadro da FIFA em março do ano seguinte, e acabou sendo reconhecida como a sucessora da seleção das Antilhas, herdando o histórico de partidas e posição no ranking da FIFA – processo similar ao que aconteceu com a Sérvia, que foi a sucessora da Iugoslávia, e a Rússia, com a União Soviética. Só pra deixar claro, o novo país se localiza no sul do mar do Caribe, ao norte da costa da Venezuela, e tal qual as Antilhas Neerlandesas, ainda faz parte do Reino dos países baixos.

No dia 5 de março de 2015, a Federação de Futebol de Curaçao anunciou ninguém menos que o próprio Kluivert, cuja a mãe, por curiosidade, é de Curaçao, como o novo treinador da seleção nacional do país. Apesar da pouca experiência do holandês no cargo, tendo tido apenas uma experiência como treinador de fato (de sucesso, quando venceu a Beloften Eredivise com o Jong Twente em 2011-12), o ex-atacante, que já havia trabalhado como assistente no AZ Alkmaar e N.E.C., da Holanda, Brisbane Roar, da Austrália, e sob a tutela de Louis Van Gaal na seleção holandesa, foi considerado um nome um tanto que grande para uma seleção tão pequena.

A estreia de Kluivert no comando da seleção: Curaçao x Montserrat

2015 e as eliminatórias para Copa do Mundo

Em um país com uma liga semiprofissional apenas, o novo treinador não podia contar muito com os talentos locais. Em sua primeira convocatória, então, utilizou de sua fama internacional para convidar uma série de jogadores nascidos na Holanda que possuíam raízes de Curaçao – que poderiam atuar pelos caribenhos, e assim, a estreia de Kluivert no comando ocorreu no dia 27 de março de 2015, em jogo válido pela primeira ronda da primeira fase qualificatória da CONCACAF para a Copa do Mundo de 2018, contra Montserrat, em Willemstad, capital de Curaçao. A partida acabou com vitória dos curaçaenses por 2-1, e marcou a estreia de seis jogadores com a camisa da seleção – todos nascidos em solo europeu. No jogo de volta, o empate por 2-2 garantiu que Curaçao avançasse para a próxima fase, para enfrentar Cuba.

Com a primeira partida marcada para 10 de junho, foram marcados dois amistosos preparatórios para os dias 20 de maio e 5 de junho, contra Suriname e Trinidad e Tobago. Além de servirem para a convocação de mais jogadores “novos”, os confrontos serviram também para bons resultados. Kluivert fez história ao conseguir a primeira e única vitória da seleção contra Suriname, por 3-2, e também a primeira vitória da mesma contra Trinidad e Tobago, por 1-0, sendo essa apenas a segunda vitória da história da seleção contra esse adversário desde os tempos de Antilhas Holandesas, em jogo que marcou também a estreia do goleiro Eloy Room, eleito “Man of the match” e que é hoje o jogador mais importante da seleção, atuando no PSV Eindhoven.

Chegado o dia da primeira partida contra Cuba, que tinha o “privilégio” de entrar nas eliminatórias apenas na segunda fase, a lista de convocados de Kluivert novamente contava com nomes inéditos. Após um empate por 0-0 em casa, um novo empate no jogo da volta, em Havana, num jogo marcado por um verdadeiro dilúvio no segundo tempo, que praticamente invalidou a prática de um bom futebol. Valeu a classificação inédita da seleção para a terceira fase das eliminatórias, mais um feito histórico pra conta de Kluivert e para Curaçao, que deixaram para trás uma seleção que na época estava mais de 60 posições a frente no ranking da FIFA. Na terceira fase, porém, as coisas não deram muito certo, e a seleção, a pior colocada no ranking dentre as oito equipes que disputaram aquela fase, acabou sorteada contra a decente seleção de El Salvador. Mesmo eliminados, não fizeram feio, caindo por duas magras derrotas por 1-0, e se despedindo de cabeça erguida das eliminatórias.

Cuba (vermelho )x Curaçao (branco): dilúvio ajudou a fazer história

2016: o início de um momento histórico e a despedida

Ao fim da campanha, Kluivert anunciou em setembro de 2015 que havia encerrado seu ciclo com a seleção, permanecendo como conselheiro próximo da federação e ainda envolvido com o projeto, mas revogou a decisão em 24 de fevereiro do ano seguinte, anunciando que comandaria a equipe nos primeiros jogos das eliminatórias para a Copa do Caribe de 2017, torneio qualificatório que dá vaga para a Copa Ouro da CONCACAF, principal campeonato continental da federação. Como em todas as suas partidas no comando da seleção, a convocação de Kluivert contou com mais debutantes, convencidos a atuar pela seleção caribenha que cada vez mais ganhava destaque no cenário internacional. Nas duas primeiras partidas, uma derrota de 1-0 para Barbados, fora de casa, e uma vitória apertada sobre a República Dominicana por 2-1, em Willemstad.

Já em maio, foi anunciado que Kluivert assumiria a equipe sub-19 do Ajax, onde inclusive treinaria seu filho Justin. Apesar do novo cargo, o ex-jogador manteve paralelamente sua função como comandante da seleção de Curaçao para os dois jogos seguintes da campanha, seus dois últimos no comando da mesma. Após uma vitória por 5-2 contra Guiana, seu último jogo ocorreu em Willemstad, na vitória de 7-0 contra as Ilhas Virgens Britânicas, em sua maior vitória como treinador.

Em uma despedida emocionante, o ex-jogador agradeceu o carinho do povo caribenho e se declarou muito feliz com sua contribuição para o futebol local, lamentando não poder continuar no cargo e ressaltando que os jogadores tinham de dar consequência ao que foi começado. Com o novo treinador, o também holandês e auxiliar de Kluivert, Remko Bicentini, Curaçao assegurou sua vaga na Copa do Caribe com mais duas vitórias, e no ano seguinte, escreveu a maior página de sua história ao vencer de forma inédita o torneio, batendo a Jamaica por 2-1 na final e assegurando sua participação na Copa Ouro, onde acabou eliminada na primeira fase com três derrotas – perdendo inclusive na revanche contra os jamaicanos, além de Canadá e El Salvador. Desde então, o prestígio da seleção curaçaense é cada vez maior, e a equipe obteve recentemente vitórias contra seleções como Catar e Bolívia, e se consolidando como uma das forças do futebol caribenho.

Kluivert durante treino da seleção de Curaçao.

O legado

Patrick Kluivert deixou a seleção de Curaçao com apenas 12 jogos, sendo seis vitórias, três empates e três derrotas, 24 gols marcados e 13 sofridos, mas a importância do holandês para a história do futebol do país vai muito além. Além de um estabelecer um novo recorde nas eliminatórias para a Copa do Mundo, foi sob o comando de Kluivert que jogadores como Eloy Room (PSV, goleiro e capitão da seleção), Leandro Bacuna (Aston Villa), Jarchinio Antônia (Omonia), Gino Van Kessel (Oxford United, segundo maior artilheiro da seleção), Felitciano Zschusschen (Sem clube, maior artilheiro da história da seleção), Jeremy de Nooijer (Sheriff Tiraspol), Rangelo Janga (Gent), Darryl Lachman (Willem ll) e Elson Hooi (ADO Den Haag, autor dos dois gols do título da Copa do Caribe 2017), dentre outros jogadores importantes, receberam sua primeira convocação e se tornaram internacionais por Curaçao. Isso permitiu ainda que outros jogadores mais notáveis fossem chamados recentemente, como Brandley Kuwas, do Herácles da Holanda, Charlison Benschop, do Hannover, e mesmo Patrick van Aanholt, do Crystal Palace, ainda que esse não tenha chegado a atuar com a camisa da seleção.

Uma coisa é certa: a curta “Era Kluivert”, com pouco mais de um ano de duração, vai ficar pra sempre marcado como o início de uma nova Era em todo o futebol de Curaçao. Os frutos certamente já estão sendo colhidos, mas o legado deixado pela lenda holandesa será ainda mais extenso, e com sorte, poderemos observar o surgimento de uma seleção cada vez mais competitiva no cenário local e internacional.

A comemoração do título da Copa do Caribe de 2017, que certamente tem bem mais que um dedo de Patrick Kluivert.

Postado por Bernardo Dornela 18 anos, nascido e criado em Belo Horizonte e atleticano desde o berço. Com o tempo tornou-se também um fã do Liverpool e do Portimonense, de Portugal. Apaixonado por tudo que há de alternativo no futebol, em especial o praticado nos países nórdicos.