• O terceiro herdeiro e a mudança no script da fábula
    8 de agosto de 2017
    Categoria: Futebol e Nacional

     

    Quando se percebe, parece uma história contada mil vezes para o flamenguista, aquela história que o pai conta para o filho, ainda criança.

    “Certa vez, um técnico interino assumiu nosso time, filho. Nossa, todos questionavam ele, passávamos por uma grande crise interna, o momento era muito ruim. Mas, como um passe de mágica, ele deu certo! Nos trouxe de volta um bom futebol e grandes campanhas/atuações”, diizia o pai entusiasmado enquanto a criança, estupefata, realizava uma fantástica cena em sua cabeça.

    A definição deste conto pode encontrar três denominadores distintos só neste século, três diferentes gerações, mesmo que próximas, mas um único fim em comum. Andrade, Jayme de Almeida e agora Zé Ricardo, três dos últimos técnicos que trouxeram um alento ao rubro negro carioca possuem particularidades em comum.

    O primeiro, santificado pela década de 80, mais atemporal ainda pelo que fez em 2009. Inacreditável, incrível, inesperado, são palavras que se encaixam perfeitamente a Andrade e seus comandados daquele ano, não houve até hoje um campeonato de pontos corridos no Brasil como aquele. E aquele, é dele.

    O primeiro capítulo se cumpria.

    O segundo, visto com ressalvas, desconfiança e no fim, alívio. Depois de um ego totalmente machucado por Mano Menezes e sua declaração de que os jogadores “não conseguiram entende-lo”, o flamenguista se via perdido, magoado. Sem qualquer alarde ou aviso, Jayme chegou. O resultado foi apoteótico e categoricamente planejado por entidades não-naturais. Flamengo campeão da Copa do Brasil.

    Eis que chega o terceiro com um enredo similar ao segundo, tão similar que parecia arquitetado por algo ou alguém. Muricy Ramalho, tão esperado e aclamado por todos, apresentava um futebol questionado e por razões maiores (de forma triste) foi tirado de seu posto. Assumia o terceiro herdeiro da famosa fábula.

    Zé Ricardo é mais jovem e tem um aspecto mais firme e coeso que os outros dois. Sempre muito educado e de fala mansa, tinha um clube estruturado e pronto para atende-lo na medida do possível, diferente dos seus antecessores. Se houveram erros? Muitos. Apenas para efeito de informação, vale ressaltar a insistência em escalar/colocar os protegidos odiados pela imensa maioria da torcida, o esquecimento da base que tanto treinou e uma defesa muito mal armada em 2017, mas disso, até quem não é flamenguista já sabe. Afinal, se não fosse por isso, ele ainda estaria empregado e esse texto provavelmente não existiria.

    Ele se perdeu com o tempo.

    O terceiro herdeiro seguiu o script já manjado no começo. Tão manjado que o próprio flamenguista se via por vezes tranquilo com a situação, eles já sabiam o final do roteiro. Um time desacreditado fazendo resultados improváveis e arrancando na tabela, dejavu. O que viria dessa vez? Brasileiro? Não, o Palmeiras era muito dominante. Copa do Brasil? Bom, o Fortaleza já tinha ocupado a cota de um vexame por ano. Sul Americana? A Palestina reinou em terras tupiniquins em uma sombria quarta feira. Não veio nada.

    Os rubro negros se olhavam confusos, alguma coisa estava faltando, a peça final que mostraria novamente a maravilhosa vista do quebra cabeça montado, teriam eles pulado alguma página da fábula? Incrédulos, revisam todo o conto, em vão.

    Já convencidos de que talvez ali estaria se criando uma nova fábula, mais moderna e certamente mais feliz, o flamenguista se animava para a nova temporada. Era como se o livro agora fosse composto por um papel melhor, fosse vendido em uma livraria de ponta e tivesse uma capa em alto relevo. Daria gosto de ler desta vez, os pequenos torcedores não perdiam por esperar.

    O final desta nova fábula todos sabemos.

    O terceiro herdeiro trouxe outra história na manga, diferente do padrão e com um final desconhecido até o último domingo. Mesmo com 62% de aproveitamento, mesmo com o Cariocão invicto, mesmo com Diego, Guerrero e Everton Ribeiro no time. Mesmo assim.

    O final já se mostrava negro.

    Termina de forma triste a trilogia, com páginas borradas com lágrimas. Você não odeia o protagonista da última edição, não. Você não quer o mal dele. Agora, analisando todo o roteiro friamente e ponderando o desenrolar das coisas, você só deseja que ele se separe da história principal, seja feliz em outros contos, não é uma má pessoa. Mas que o terceiro herdeiro que iludiu a todos nós, seja esquecido.

    Você contaria o fim da trilogia para o seu filho?

    Postado por Renan Castro Jovem de 22 anos, formando em administração, torcedor do Flamengo, natural do Rio de Janeiro e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.