O Rei do futebol e a Lua
1 de junho de 2018
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Nacional

 

O senhor Edson Arantes do Nascimento é considerado o mais belo e perfeito exemplo de jogador de futebol. Mesmo que se tenha atletas de qualidades superiores a muitos de sua época, uma comparação com o brasileiro Pelé é motivo de chacota ou sinônimo de ousadia desnecessária e até ridícula.

Os argentinos Diego Maradona e Lionel Messi são os mais competentes para, no mínimo, ser considerada uma comparação compreensível. Há outros excelentes jogadores na história do futebol, que destoavam de seus companheiros e adversários, mas quando o assunto é o garoto que conquistou sua primeira Copa do Mundo com 17 anos, restam-lhes apenas aplausos e admiração.

Certamente, muitas histórias sobre o maior personagem deste esporte no quesito de habilidade, competência e números já foram contadas. Os “1000 gols” devem ser um dos temas mais falados sobre os recordes e desempenhos do ex-atacante do Santos, da Seleção Brasileira e do Cosmos, time estadunidense.

Pelé estava prestes a marcar pela milésima vez, em um dos maiores palcos mundiais do esporte – pelo menos, no Brasil, é o maior. Aquela noite de quarta-feira no dia 19 de novembro de 1969 era o palco perfeito para a história. Os olhos do mundo inteiro estavam focados naquele lugar e horário. Todos sabiam que, com seus 28 anos, o ganhador de dois mundiais até ali estava com 999 gols e em busca do milésimo.

À beira do gramado, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e até os que conseguiram um lugar dentre eles para ver a história acontecer esperavam, ansiosamente, o momento que colocaria aquele dia no calendário dos maiores acontecimentos da história do esporte.

Com o Vasco vencendo a partida valida pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que seria basicamente o Campeonato Brasileiro daquela época, com gol de Benetti, meia-atacante, o Santos via um Pelé inspirado e determinado para dar àquela noite, o que todos queriam. Ele ainda viu o clube praiano empatar com gol contra do vascaíno Renê, aos 10 minutos do segundo tempo, antes de, depois de um belo lançamento de seu companheiro de clube e de seleção Clodoaldo, sofrer uma falta dentro da área.

O árbitro Manoel Amaro de Lima marcou a penalidade; jogadores e torcedores vascaínos reclamavam, pelo menos naquele momento, já que sabiam que estavam fazendo da parte da história do futebol; o resto do mundo, incluindo santistas e todos os seus maiores rivais, festejavam e, com os olhos brilhando, sabiam que aquele momento, depois de alguns segundos em que o atacante pegava a bola e se ajeitava, um feito histórico aconteceria. Pelé, animado, mas com muita calma, partiu para a cobrança, e… Antes de contar este momento, uma história que marcou aquele período deve ser contada.

Na madrugada daquele dia, ainda na segunda semana de novembro, mesma do jogo no estádio carioca, os noticiários se voltavam à mais nova missão estadunidense do programa Apollo. Muito longe do campo que seria palco de um grande feito horas depois, os americanos Charles ‘Pete’, Alan Bean e Richard Gordon, comandante e pilotos, respectivamente, pisavam na lua.

Allan Bean foi o quarto homem a pisar na lua e o primeiro do Apollo 12

Aquele momento marcante colocava o país norte-americano ainda na frente da corrida espacial, que tinha como adversário a União Soviética, em plena Guerra Fria. Sua importância era gigante para o Estados Unidos, assim como o lance entre Santos e Vasco para o Brasil.

O país canarinho também vivia um momento conturbado politicamente. Com a Ditadura aterrorizando grande parte do país, a derrota para Portugal na Copa de 1966, com Pelé saindo machucado de tanto apanhar dos adversários, e o Mundial a menos um ano de acontecer, este momento em 1969 encheu o país de esperança, assim como ficaram os estadunidenses na Corrida Espacial, em vencer o seu terceiro troféu Jules Rimet, o torneio com a mesma representação da Copa do Mundo.

Além disso, João Saldanha, jornalista, comunista e treinador da Seleção Brasileira, estava prestes a sair do comando da Seleção por considerar a substituição do Rei do Futebol, que, segundo o técnico, não desempenhava suas funções defensivas da maneira que se esperava. Apelidado de João “Sem-Medo” por Nelson Rodrigues, ele tinha muitos entreveros com a política nacional, que acabara de ter Médici como seu novo presidente, e não estava disposto a ceder sua liberdade de opinião para continuar no cargo. Com todos esses motivos, Saldanha foi substituído por Mario Zagallo a dias do Mundial.

Voltando àquele jogo, para o torcedor, os cinco passos dados por Pelé durante a cobrança foram na mesma lentidão dos vistos naquele dia na Lua. Só que os dos americanos contavam com a ajuda da gravidade, enquanto os olhos dos espectadores no Rio de Janeiro, que sequer piscavam, com medo de perder o instante exato em que a história acontece, faziam com que os segundos que antecederam a batida virassem minutos ou até horas de tão longínquos.

Se dizem que os brasileiros odeiam os argentinos, naquele momento, isto não foi desmentido. O goleiro do Vasco, Andrada, nasceu no nosso país-vizinho, e estava pronto para estragar a festa brasileira e adiar um pouco mais aquele feito, que já parecia ser impossível de não acontecer.

Enfim… gol de Pelé. Torcida vibra com a batida com pé direito do craque no canto esquerdo do argentino. Emoção, delírio e paixão ao esporte foram demonstrados, se vermos a invasão de campo da torcida presente no Maracanã. Como o jogo era no Rio de Janeiro, ver tanta gente dentro de campo, deixava claro que não eram somente santistas que adoraram ver o milésimo gol de Pelé.

Após a invasão, Pelé foi levantado pelos torcedores (Foto: Arquivo/Ag. O Globo)

Assim como muitos procuram motivos para duvidarem que o Estados Unidos e o projeto Apollo eram, na verdade, farsas, que foram gravados em estúdios Hollywoodianos, há quem queira de descartar a possibilidade dos 1000 gols de Pelé, ou pelo menos, minimizar sua importância, dizendo que foram feitos em times fracos e sem expressão. Além disso, há quem diga que o pai do futebol brasileiro, o inglês Charles Miller, tenha feito o milésimo gol décadas antes do atacante do time praiano.

O ano de 1969 foi marcante para o mundo. A segunda viagem ao único satélite natural da Terra – e o quinto maior do Sistema Solar – marcou os estadunidenses na Corrida Espacial e na Guerra Fria. Para o Brasil, a posse do terceiro presidente da Ditadura Militar, que estava à flor da pele, foi o momento marcante. Mas para o mundo do futebol, o gol de Pelé foi o apogeu histórico e emocional daquele ano.

Postado por Rafael Brayan Torcedor do Corinthians e adepto do jogo inglês, sou apaixonado pelo futebol bem jogado. A única coisa que pode ser comparado a assistir um bom jogo é uma conversa sobre este esporte com bola.