O predestinado
9 de maio de 2019
Categoria: Futebol e Internacional

 

Você acredita em predestinação?

A religião de Lucas Moura é rodeada por histórias de homens (e mulheres) predestinados. Pessoas escolhidas especialmente por Deus por sua coragem, bravura ou fé. E que recebem uma missão difícil a ser cumprida.

Na partida frente ao Ajax Amsterdam pelas semifinais da Liga dos Campeões da UEFA, Lucas Moura foi um predestinado. Mas não foi fácil.

Tal como José do Egito, Lucas passou por um longo período de provação, amargou por bons anos a reserva numa terra estranha a sua. Muitos davam sua carreira como acabada, que nada de bom poderia sair de novo dali, tal como Sansão após ser seduzido por Dalila e humilhado pelos filisteus. Era preciso sair do PSG para voltar a ter bons momentos. Lucas era como Ló e o PSG Sodoma e Gomorra.

Mas o Tottenham abriu suas portas à Lucas e lhe dava a chance de um recomeço. Vinha fazendo uma boa temporada, sendo um bom coadjuvante numa temporada já histórica dos Spurs. Mas como Eliseu ao perder Elias, Lucas (dentre outros jogadores) viu sua responsabilidade aumentar com a perda de Harry Kane, lesionado.

Ter chegado às semifinais, após um cardíaco jogo contra o City nas quartas, já era um feito tremendo. Parecia que o Tottenham chegar após décadas nesse estágio da competição já era o máximo resultado possível, ainda mais após perder o primeiro jogo por 0 a 1 para o Ajax. Mais ainda quando De Ligt e Zyech decretaram o 2 a 0 em 45 minutos de jogo na Johan Cruyff Arena.

Mas como no exemplo de Gideão e os 300 soldados, quanto mais próximo da impossibilidade, mais grandioso é o feito. E após um rápido contra-ataque depois da ida tresloucada de De Ligt ao ataque, Lucas foi mais veloz que Schone e De Jong e marcou o primeiro dos londrinos aos 55′.

Quatro minutos depois, Schone e Onana se desentenderam tal como os ousados moradores da Torre de Babel após Jeová embaralhar suas línguas. E a bola sobrou para quem conferir de novo para o gol? Lucas. O predestinado. No lance do gol, dúvidas sobre uma suposta mão de Llorente, em um lance que, ocorrido fosse dois meses depois, teria gerado a anulação do gol. Mas não escreve Deus certo por linhas tortas? O Tottenham parecia morto, mas reviveu como Lázaro ao ser chamado para fora de sua cova por Jesus.

Mas foram dadas chances ao Ajax. Afinal, o clube alvirrubro de Amsterdã partilha as mesmas origens do povo escolhido que o Totenham. Mas os holandeses não aproveitaram, assim como Saúl ao não dar ouvidos aos alertas do profeta Samuel. Tadic chegou a chutar uma bola que se dirigiu caprichosamente para a trave. Já era tarde, a benção divina já havia se apartado de Saúl e descido sobre o pequeno e subestimado Davi.

E tal qual o príncipe ruivo, Lucas Moura ousava disputar e ganhar de gigantes no alto. Em vários lances de ataque pedia desesperadamente a bola, às vezes mesmo marcado, mas seus companheiros não o ouviam, assim como os dez filhos mais velhos de Jacó ignoravam os sonhos de seu ingênuo irmão José.

Verthogen chegou a botar uma bola na trave, mas assim como Moisés, só lhe foi permitido vislumbrar a terra prometida. Caberia à Lucas, o Josué da ocasião, chutar no cantinho de Onana, decretar a mais improvável virada em uma partida da história da Champions League e manter o curso rumo à Canaã. No gol mais tardio da história da UCL a decidir uma classificatória sem prorrogação. Uma conquista tardia como foi Isaac para Sara.

Lucas foi escolhido. Predestinado. Ajudou o Totenham a atravessar o rio Jordão nas semifinais. Mas, e agora: Também lhe foi destinado dar o Santo Graal futebolístico ao clube do norte de Londres? Resposta que só teremos no dia primeiro de junho.

Postado por Matheus Wesley Estudante de jornalismo, fã do futebol onde se parlla e onde se habla. Ama táticas e a história desse incrível esporte chamado futebol. Considera Zinedine Zidane a síntese do "jogo bonito" e acha os desarmes de Cannavaro, Baresi e Maldini tão bonitos quanto qualquer gol por aí. Twitter: @Matheus11Wesley