O maior jogo da história da humanidade
10 de novembro de 2018
Categoria: 4-3-3 e Futebol e Internacional

 

Rael mal acordara e suas mãos já suavam. Dormir. Quem dera. Rael era o fogo do sol da manhã queimando a cara dos bebuns nas ruas da cidade. Queria ele poder amenizar seu fogo com goles longos e desesperados de café, o máximo que conseguiu foi queimar a língua. Nino aos poucos levantava as pálpebras. Demorou alguns segundos para entender onde e quando estava, quando percebeu, seu coração quase parou. Olhou por um longo momento para o chão, já sentia o gosto da ansiedade na garganta. Para amenizar o coração que escorregava do peito, tentou um suco de laranja, ou de uva. Ele não sabe. Não sentiu gosto algum.

É sina de Rael enfrentar longos momentos no transporte público. Todo dia milhares de pessoas diferentes falando, reclamando, bocejando, gritando e puxando conversa desnecessária. Sabe-se que naquele sábado Rael não identificara um rosto sequer, todos iguais, todos atônitos, pareciam de alguma forma dividir a ansiedade com Rael. Para Nino o mundo era branco. O teto de um quarto. No centro um ventilador capenga, quatro paredes brancas, a cama e alguns livros. Sabe-se que naquele sábado, o quarto de Nino era o lugar mais agitado de toda a Argentina.

Mas porque tamanha agitação, escritor medíocre?  É que é dia de Boca x River na final da libertadores. Apenas isso.

É dia de Boca x River. É dia de Rael derrubar todos os copos de vidro no chão ao imaginar Lucas Pratto de cabeça na Bombonera. Dia de Nino quase se engasgar com o remédio ao vislumbrar Ábila livre aos 17. É dia de Rael sujar um cliente na ânsia de ver as passadas longas e objetivas de Pavon. Ah…hoje é dia de Nino nem tocar na comida- sem sal- vendo em suas retinas Borré acertar aquele chute na entrada da área. E o tempo passa mais lento que trem de carga lotado.

É dia de guerra na Argentina.

O que se sabe é que naquele sábado, o restaurante teve o menor número de clientes dos últimos anos. Ninguém queria comer. O hospital com quase nenhuma entrada. Ninguém queria morrer. Pelo menos até o inicio da peleja. Nino varria o chão e olhando fixamente para o piso de madeira, tem uma leve digressão.

Boa noite dona Marina, aqui é do restaurante em que nino trabalha

Boa noite, o que houve?

Não sabemos como lhe dizer isso mas o Nino…

O que foi, meu deus?

Ele escorregou no próprio pranto, caiu de cabeça no chão e bom…

O QUE? O QUE ACONTECEU COM MEU MENINO?

Bom…ele…só um segundo…VAI ZARATE, VAI Porra. BENEDETTOAAAAAAAAA GOOOOOOOLLL DO BOCAAAAAAA, CARAJOOO

AAAAAAAAAAAAAAA

Nino na cadeira de rodas passeava pelo hospital, olhando pro chão tal qual o chão olhava pra ele. O corpo por algum motivo estava lá e cabeça em outra realidade.  Quando ouviu de algum lugar:

Senhor Nino Lopez, temos uma má noticia…

Pode falar doutor, sou forte como as chuvas de janeiro!

Então… seu caso é pior do que imaginávamos, sua doença progrediu muito e acreditamos que o senhor tem pouquíssimos dias de vida

Poucos dias quanto?

Três.

VE O VAR FILHO DA PUTAAAAAAAAAA, VE O VARR

O queeee?

VE O VAR, ESSE DESGRAÇADO DO ÁBILA ESTÁ SEMPRE IMPEDIDO. NÃO É POSSÍVEL, ESSA MERDA SÓ VEIO PRA ATRAPALHAR MESMO, NINGUÉM USA.

E a hora do jogo ia se aproximando. Rael bateu o ponto rapidamente e foi o primeiro a sair. Correu. Precisava chegar ao ponto. Na corrida, de mais de 10 metros, não derramou uma gota de suor. Nino chegou ao refeitório primeiro que todo mundo. Tomou o controle pra si e lá permaneceu. O ônibus parou e Rael foi o primeiro a entrar, empurrando idosos, mulheres e até crianças. Nino tremia a perna, uma de cada vez, cerca de 1:30 minutos cada perna, para não desregular a articulação. Parou o ônibus, mas antes de parar completamente, Rael já havia saltado para fora. Nino zapeava os canais esperando o tempo passar. Estralava os dedos, um de cada vez, para não gerar lesão em suas articulações. Rael mal chegara em casa e pusera-se frente ao televisor. Nino dá uma respirada bem funda, alterando o ritmo cardíaco. A mãe de Rael e a enfermeira:

O que houve:

-os dois respondem em coro-

É o maior jogo da história da humanidade!

Rael, 18 anos. Nino. 87. Rael, auxiliar geral num restaurante mixuruca no centro de Buenos Aires. Nino, ex-senador da República, internado em um hospital aguardando a morte. Rael, torcedor do Racing. Nino, torcedor do Rosário Central. Ambos como eu e você! Esperando pelo maior jogo da história da humanidade.

Postado por Igor Varejano 18 anos. Do interior de São Paulo. Vivo em ódio por amar o Palmeiras e o Liverpool. Futebol é o que move a humanidade. Bom, pelo menos a minha.