O maior ídolo da história do São Caetano – Adhemar
28 de junho de 2019
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De quase campeão da América à um convite pra ser draftado na NFL, a vida de Adhemar seguiu um roteiro um tanto quanto alternativo. O ex-jogador teve de superar seu vício em drogas para brilhar frente ao Brasil inteiro. Na Europa, detém um recorde que perdura até hoje e lamenta não ter atuado mais tempo no velho continente. Atualmente sustenta um belo apreco pelo futebol e afirma que assiste até mesmo a segunda divisão italiana. Adhemar também revela uma mágoa sobre a Copa de 2002.

Confira na íntegra:

1.Em entrevista para o IG você relatou que teve problemas com drogas quando mais jovem, isso te atrapalhou no desenvolvimento dentro do esporte? Onde acha que poderia ter chegado caso não tivesse esses problemas?

Eu poderia não ter usado e não ter “dado certo” também, né. Mas eu realmente comecei a enxergar a vida de uma maneira diferente depois que parei com as drogas. Percebi que deveria me dedicar 100% ao esporte, não daria pra conciliar a prática com as drogas. Acho que não me atrapalhou, meu sonho era bem menor do que o que Deus havia preparado. Mas é um alerta para outros jovens, é uma fase de curiosidade e pode ser um caminho sem volta. Essa experiência (com drogas) me fez perceber que dentro do esporte você precisa estar focado totalmente, se não, não chega.

2. A final do Brasileiro de 2000 envolveu toda a polêmica daquela tragédia em São Januário e o presidente do Vasco, Eurico Miranda, botando mais lenha na fogueira. No ano seguinte, muitos jogadores do Azulão já negociados, Vasco com Romário em campo (coisa que no jogo interrompido já não havia). Fica um sentimento de injustiça? Qual seria o melhor modo de conduzir aquela situação?

Quando o alambrado caiu nós estávamos melhores na partida, claro que não dá pra dizer que venceríamos, o Vasco tinha um grande time. O Eurico fez o papel dele de dirigente e defendeu o Vasco, ele amava o Vasco, a CBF que foi a grande culpada de ter permitido o retorno do Romário no terceiro jogo.

O segundo jogo foi interrompido. Se o Romário havia sido substituido nesta partida, quando ela fosse reiniciada, em outra data, deveria recomeçar de onde havia parado e com os mesmos jogadores presentes naquele momento, ou seja, sem o Romário. Ele era um cara diferenciado e meteu gol na final remarcada.

3. No Stuttgart, da Alemanha, você detem um recorde que perdura até hoje, fez três gols na estreia do alemão, fato inédito para um estrangeiro até então. Por que sua passagem pela Europa durou tão pouco? Se arrepende de ter ficado tão pouco tempo no velho continente?

Sim, tenho esse recorde até hoje, pouca gente sabe. É uma coisa que ficou marcada na história, assim como aquele gol no Maracanã contra o Fluminense. É muito gostoso fazer parte da história do futebol, muitos jogadores passam, jogam, ganham, mas não possuem uma marca que perdure assim. Eu gostaria de ter ficado mais tempo na Europa, vou ser sincero, mas pesou a adaptação da família. Naquela época não tinha tanta interação com internet como há hoje, então a gente ficava meio que isolado, isso dificultou. Mas eu queria ter ficado mais tempo, até pelo campeonato, pela organização, pela parte financeira. Faz parte, foi um ótimo aprendizado e conhecer outra cultura foi muito bom.

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Adhemar fez sucesso na Alemanha.

4. Você acha que o fator idade pesou pra que não fosse sequer testado pelo Felipão pra Copa de 2002?

Vou fazer um comparativo bem rápido: eu no campeonato alemão tinha 11 gols, o Luizão jogava o mesmo campeonato no Herta Berlim e tinha apenas um gol. A diferença é que ele já tinha trabalhado com o Felipão, eu não. O Luizão era um pouquinho só mais jovem que eu, então teve aquela cumplicidade de ter trabalhado junto, aquela coisa da família Felipão. Mas deixa uma tristeza, eu poderia estar naquele grupo campeão do mundo.

Apesar do Luizão ter sido importante, é uma pessoa excelente e gosto muito dele, mas poderia ser eu,

5. Talvez o fato mais curioso da sua vida tenha sido o quase ingresso na NFL. Após um teste de 10 chutes de 50 jardas, você acertou 9 e quase fechou com o Tamba Bay Buccanners, foi por detalhes. Acha que poderia ter mais sucesso como kicker que como jogador? Já era fã da liga? Como foi que te descobriram?

Me descobriram por conta de um vídeo com chutes de média e longa distancia e o empresário achou que eu deveria fazer um teste, nesse teste eu tive esse aproveitamento. O empresário ficou maravilhado com aquilo, não sei se poderia ser tão famoso, pros EUA com certeza. O problema é que eu teria que ficar na universidade pra ser draftado, isso pesou um pouco. Tinha parado no futebol fazia pouco tempo e estava em tratamento da tireóide, achei melhor ficar no Brasil e curtir a minha aposentadoria.

6. O São Caetano emergiu como uma força muito repentina no futebol brasileiro, porém a promessa de um suposto desafiante ao g-12 acabou decaindo com o passar do anos. O que você acha que faltou pro azulão ter a regularidade que um grande clube precisa ter? O que você faria caso fosse o presidente hoje?

Muitos clubes não estão preparados pra chegar no auge, né. Alcançar o topo é uma coisa, permanecer ali é diferente. O São Caetano surgiu como um meteoro mas se mudou a filosofia de contratação do clube isso fez com que se perdesse alguns detalhes. Se eu fosse presidente teria mantido a filosofia de pegar jogadores de clubes menores, colocar na vitrine, levar pra seleção e vender pro exterior. Eles começaram a se situar entre o g-12 e a trazer jogadores do exterior, que já jogaram em vários grandes, aí a diferença da pegada é bem grande. Isso começou a refletir no clube, e quando começa a cair é complicado.

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Faltou pouco pra América.

7. Além de ser o maior artilheiro da história do São Caetano, você também é o primeiro a marcar pontos pelo SC Blue Birds, time de futebol americano do São Caetano. Como é a sua relação com o time do ABC? Os torcedores ainda te reverenciam?

Eu fui o primeiro jogador a marcar os primeiros 3 pontos do Blue Birds. Minha história lá (no ABC) é fantástica, quando volto pra lá sinto o carinho do torcedor, é muito gostoso. É o reconhecimento de um trabalho que começou lá em 96, quando eu cheguei no São Caetano, saí de lá deixando o clube na primeira divisão. Nós no caso, porque sem os companheiros de time, nunca conseguiria.

Ali é a minha segunda casa, fiquei muito feliz de ter feito e ainda fazer parte da história desse clube.

8. Você já revelou que assiste até o futebol holandês, é um verdadeiro entusiasta do esporte. Quais são seus times e jogadores preferidos da europa? Qual é a liga mais aleatória que já assistiu?

Eu assisto futebol desde o desafio ao galo, que eu gostava, até a Liga Inglesa. Adoro o campeonato inglês, acho que hoje é o torneio mais competitivo que há. Assisto a segunda divisão da Itália também, o Holandês, a Copa Concacaf, MLS não gosto muito porque é grama sintética. Futebol é minha vida.

9. Conte-nos uma história curiosa de quando você jogou na Coréia ou no Japão.

No Japão eu não tive muitos jogos, mas tem uma história interessante. Quando cheguei, na primeira semana, tinha uns mil, mil e quinhentos torcedores  pra dar autógrafo e tirar fotos. No segundo dia a mesma coisa, achei que era porque eu tava chegando e tal mas não, o japonês é fã mesmo de futebol. Aí todo dia tinha essa quantidade de gente no CT e todo santo dia tinha um mesmo cara pra tirar foto. Teve um dia que não aguentei e disse pra ele imprimir a foto antiga e colocar no lugar dessa. Pô, todo dia a mesma foto com a mesma camisa, só mudava o lado. Depois até ri com ele lá, ele tinha um álbum com as fotos e eram todas iguais.

Já na Coreia tem muita coisa, comi carne de cachorro, uma vez levei uma pancada em um jogo e saí correndo atrás do jogador, dei um carrinho nele. Achei que seria expulso logo de cara, o juiz veio falando inglês pra mim e disse: “Next, yellow”. Já estava até saindo aceitando o vermelho, ali eu percebi que o coro comia naquela liga.

10. Segundo você, Dida foi o goleiro mais difícil a ser batido. Mas e aquele zagueiro que era uma missão de conseguir sair da marcação, quem era?

O Dida não expressa nenhum ação, você ia bater uma falta ele não se movimentava, você ia finalizar e ele ficava esperando. Ele era fantástico, um goleiro fantástico. De zagueiro, o Junior Baiano era um cara bem leal dentro do campo, pessoal falava muito dele mas comigo sempre foi limpo. Um que era muito difícil era o Claudiomiro, que jogou no Grêmio e no Santos. Ele era magrinho mas tinha uma canela dura danada. Então acho que em termos de pegada, o mais duro era o Claudiomiro.

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Dida era o pesadelo dos atacantes.

11. Uma Libertadores pelo modesto São Caetano, o que passou pela cabeça de vocês aquele dia? Qual era o tamanho daquele jogo?

Aquele jogo poderia ter mudado a história do São Caetano, a torcida do Corinthians tava torcendo muito contra nós porque ele ainda não tinham sido campeões da Libertadores, nós seríamos antes deles, caso ganhassemos o jogo, e o Olímpia era preto e branco né…

Viramos o primeiro tempo vencendo por 1×0, tomamos a virada no segundo tempo e perdemos nos pênaltis. Por isso que esse esporte é o mais emocionante, ele não trabalha com a lógica.

12. Obrigado pela disponibilidade, faça suas considerações finais!

Quando eu cheguei na Europa, diversas ligas tinham um brasileiro como artilheiro: Amoroso, Ronaldo, Jardel, Derlei, por aí vai. Hoje a gente já não vê isso, tem muito zagueiro, volante, goleiro, tá ficando escasso. Nossa matéria prima já não chega tão boa como produto final. Esse linguajar moderno do futebol também é uma coisa que vou te falar, viu. “Verticalização”, “temporização”, ao invés de falar “vai pra cima”, “segura”. Vamos pedir a Deus pra que mude a cabeça dos nossos dirigentes e que nós possamos voltar a ser o país número 1 do mundo nesse esporte. Hoje, entre os 10 já tá bom demais.

 

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.