O gladiador de General Severiano – Sandro
22 de junho de 2019
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Famoso por sua raça e sua entrega dentro de campo, Sandro foi referência no quesito “dar o sangue” quando jogador. Ídolo no Botafogo, o volante não esconde sua admiração pelo alvinegro carioca e revela que gostaria de ter nascido lá. Após sua aposentadoria, o agora ex-jogador teve sua fase de gestor de futebol no Santa Cruz, onde obteve relativo sucesso. Chamado de analfabeto por um integrante da administração da cobra coral, abreviou sua passagem no clube pernambucano. Sandro hoje preza por sua família e declara não se ver mais trabalhando com esporte.

Confira na íntegra:

1- Sendo um jogador que claramente criou um apego a camisa do Botafogo e uma identificação bem forte com a torcida alvinegra, como você enxerga a relação entre jogador, clube e torcida nos dias de hoje? O que tanto mudou?

Hoje eu acredito que essa relação está bem mais fria que antigamente. Os empresários atuais oferecem propostas aos jogadores o tempo todo, isso impede a criação de uma identidade com a camisa, hoje é difícil um jogador ficar seis anos em um clube como eu fiquei, por exemplo. As emissoras de TV também reproduzem jogos de segunda a sexta feira, isso fortalece ainda mais o torcedor de sofá e mina aquele que gosta de pegar a arquibancada, sentir a atmosfera. Há também um descompromisso do clube, que as vezes não reconhece seus ídolos e não valoriza quem dá e deu o sangue pela instituição. No Botafogo já houve um caso onde os campeões de 95 sequer tiveram acesso ao gramado de General Severiano para treinar, por exemplo.

Hoje há muita fama e muito dinheiro, acredito que a tendência é esfriar ainda mais essa relação aliás.

2 – Como auxiliar técnico no Santa Cruz você acumulava um bom retrospecto, numerologicamente falando, até sair ao final da série C de 2012 por problemas com a diretoria. O que de fato aconteceu na época?

Minha passagem pelo Santa Cruz durou praticamente 4 anos, ganhamos títulos e fizemos um grande trabalho. Eu tinha autonomia dentro do futebol, o presidente me deu. Levei pra lá ex-jogadores pra qualificar o corpo técnico como Bosco (preparador de goleiro), Sérgio Guedes, entre vários outros. O vice presidente do clube na época (Tininho) não achava correto, nas palavras dele, que um “analfabeto como eu” tivesse mais autonomia no futebol do Santa que ele.

E bom, eu realmente só estudei até a quinta série, mas não estava ali para lecionar matemática, ciências e português, eu estava ali para fazer futebol. No futebol eu era muito inteligente, minha carreira em si foi uma faculdade desse esporte, trabalhei com grandes treinadores. Acontece que ele não estava satisfeito, disse a ele que estava no lugar errado, já que era professor de economia em faculdade e que naquele ambiente o analfabeto é ele. Mas o confronto era diário, era dirigente querendo colocar jogador, sem acompanhar o clube, não concordava com isso e acabou desgastando, preferi me afastar.

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No Santa Cruz, um fim conturbado.

3 – A Copa do Nordeste foi inaugurada nos anos 90, teve uma extensa pausa já neste século e voltou em definitivo no ano de 2012. Você participou como jogador no primeiro ciclo, e agora como profissional do esporte observa o segundo. Quais as diferenças entre as épocas e a importancia da Copa do Nordeste para o povo nordestino em geral?

Eu fui campeão da primeira Copa do Nordeste em 94, a final foi em Macéio e eu levantei o troféu pelo Sport. Hoje virou algo muito comercial, não concordo com a realização dessa competição porque não há mais calendário pra isso. Dá mais dinheiro que os estaduais, isso é fato, os grandes das capitais marcam presença e a mídia cai em cima. No começo é meio morna, na reta final é que dá mais gente nos estádios . Não concordo com a Copa, é uma regionalização que não me agrada, somos o Brasil, não apenas nordestinos. Amo minha terra, amo esse lugar, tanto que moro em Recife até hoje e vou passar o resto da minha vida aqui, mas acho que só deveria existir espaço para os estaduais, a Copa do Brasil e o Brasileirão no nosso ano nacional, nada mais.

4 – Além da raça e da entrega em campo, você também era conhecido pelos gols de falta. Qual deles considera o mais bonito?

Fiz diversos gols bonitos na carreira. Um em especial rolou no jogo do Botafogo x Paysandu em 2004 pela série A no Caio Martins. Bati igual aquela clássica cobrança do Roberto Carlos, que a bola vai por fora da barreira e faz uma curva monstruosa. Até o Ruy Cabeção ficou surpreso me perguntando “como é que tu consegue fazer um negócio desses?”.  Foi um golaço realmente, o goleiro se jogou mas a bola já tava dentro da rede.

5 – O Santos ficou sem vencer um título internacional entre 1969 e 1998, esses 29 anos de jejum foram encerrados com a conquista da Conmebol de 98. A final contra o Rosário Central é lembrada até hoje como a “Batalha de Rosário”. Como foi aquele jogo? Qual era o panorama, o significado?

Esse foi um jogo muito difícil, o Leão tinha arrumado uma confusão ali um ano antes, em 97, quando ainda dirigia o Atlético Mineiro, os caras queriam pegar ele novamente. O jogo atrasou um hora, a gente chegou a entrar em campo mas voltou pro vestiário pra tirar o uniforme e ir embora. O presidente da Conmebol na época entrou no vestiário e disse que se deixassemos o estádio naquele momento a torcida do Rosário iria nos matar, era um clima de guerra. Entramos e empatamos por 0x0, fomos campeões. Tinha muito menino da base naquele time, eu tinha 24 anos se não me engano, eram muitos jovens. Emocionante e marcado pro resto da vida mesmo.

6 – Em entrevista para o Torcedores.com, você afirmou com jogar contra o Vasco era mais difícil na sua época de Botafogo por conta das ajudas externa e da influência do então presidente Caixa D´agua na federação e seu conchavo com Eurico Miranda. Depois de tantos anos e com o recente falecimento do ex mandatário vascaíno, como você avalia o legado e a imagem que ficou do Eurico?

Realmente, era o mais difícil, Eurico fazia times fortes e eles venciam vários títulos, não quis desmerecer a qualidade daquele elenco. Falei aquilo muito por conta do Americano de Campos, todo grupo do carioca que eles estavam na mesma chave, eram os dois que se classificavam, o Botafogo sempre era prejudicado. Mas não tenho nada contra o Eurico Miranda em si, ele fez muito pelo Vasco e defendia as cores do clube, não tinhamos isso no Botafogo. Ele foi um super campeão pelo cruzmaltino, defendeu o Vasco da Gama até o fim da vida.

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Eurico marcou época.

7 – Em 2015 você contou ao Lance que recebeu propostas de diversos clube do Brasil, como Grêmio, Flamengo e Vasco, se arrepende de não ter aceitado alguma delas? Há algum clube que você queria ter jogado mas não foi possível?

Eu gostaria de ter nascido dentro do Botafogo e ter parado de jogar dentro do Botafogo. Sem fazer média, esse é meu sentimento mesmo, gosto muito desse clube e queria ter um início, um meio e um fim dentro do Botafogo, saí de lá já meio velhinho, não conseguia mais correr atrás de atacante direito, tive que dar chance aos mais novos para não fazer mal ao clube. Mas comecei no Sport, joguei no Santos, são grande clubes, não tenho arrependimentos.

8 – Em 2002, ainda era um fato raríssimo qualquer clube grande cair para a segunda divisão (hoje, apenas 4 clubes possuem o rótulo de nunca terem caído no Brasil). Na época, foi tratado como uma catastrofe sem precedentes o rebaixamento do Botafogo (e do Palmeiras), você concorda que o sentimento de um descenso hoje já não é tanto de apocalipse como antes? Os clubes enxergam a serie B de outra forma?

Naquela época era realmente mais difícil que os clubes grandes caíssem, só caia dois e só subia dois. A série B é horrível, clube grande não deve cair pra segunda divisão. Essas coisas só ocorrem por problemas de gestão, é sempre assim, acho que vai continuar acontecendo.

9 – Quais são seus planos pro futuro? O que tem feito e o que pretende fazer dentro do esporte?

Meus planos estão na mão de Deus, não desejo mais trabalhar com futebol. Eu amo esse esporte, se eu pudesse jogar novamente eu jogaria, o problema é que eu detesto os bastidores do futebol, não suporto dirigente, são maldosos. Existem pessoas boas, mas 95% estão ali com interesses próprios, eu prefiro ficar fora disso. Hoje eu curto a família, jogo meu futevólei, fico com meus netos e meus filhos. Quero viajar, trabalhar com meus empreendimentos, dá pra se manter. Pra que tanto dinheiro? É muito desgaste, não pode dar as costas, covardia no futebol existe todos os dias.

Filhos já estão criados, graças a Deus, agora é seguir a vida.

10 – Foi um prazer concluir esta entrevista, faça suas considerações finais!

Agradeço a oportunidade da entrevista. Quero dizer que to triste com a seleção, Tite ta mais preocupado em se manter na seleção brasileira do que em projetar um time para a próxima Copa. Acho isso um absurdo, muitos jogadores ali não estarão na próxima Copa. Deus abençoes vocês, vamos continuar torcendo pelo nosso Botafogo, grande abraço!

Postado por Renan Castro 23 anos, administrador, torcedor do Flamengo, natural de Nova Iguaçu - RJ, fã de aviação e dono de três quadros: Vestindo o Futebol, Ícones Alternativos e Memória FC.