• O futebol e sua máquina de apelidos
    8 de outubro de 2017
    Categoria: 4-3-3

     

    Apelido é algo que quase todo mundo tem, gostando da alcunha ou não. Os que não se importam ou simplesmente já acostumaram se apresentam para os novos conhecidos com eles, seja o “Canhotinho”, o “Zé” ou o “Risada”. Essas formas de se referir ou personalizar alguém não são exclusividade de nossa sociedade contemporânea, já existem há muito tempo.

    Da maneira como conhecemos hoje em dia, os sobrenomes só passaram a ser usados alguns séculos atrás. Antes, inclusive para diferenciar membros da realeza, o comum mesmo era apelidar as pessoas. O filho do monarca inglês Henrique II (Séc. XII) era conhecido como “Coração de Leão”, devido a sua notória coragem. Seu irmão caçula, quarto filho do Rei Henrique, era chamado de “Sem Terra”, pois não tinha direito à herança do pai.

    No futebol a história se repete e muito. Que digam Júnior Baiano, Edilson Capetinha, Imperador (Didico, para os mais íntimos), Fenômeno, Caça Rato, Divino, Yago Pikachu, Galinho, Brocador e tantos outros jogadores, alguns craques, outros de futebol questionável. E isso não acontece apenas com os brasileiros, a febre é mundial. É só chamar “La Pulga”, “El Tanque”, “El Niño” ou o “Kaiser” para contarem a história de como os apelidos apareceram, se é que eles sabem.

    A mídia, claro, tem um papel muito importante nesse batismo, assim como os torcedores. Os jornais, para popularizar o atleta, pedem licença aos pais do jogador e botam um nome sugestivo que fique bom na capa, e a televisão opta por um que soe bem na hora do narrador gritar gol. A torcida já não pensa tanto na sonoridade, o que ela muitas vezes quer mesmo é levantar a moral de seu jogador, amedrontar o zagueiro adversário com um estrondoso apelido, desde que ele esteja bem, porque se esse não for o caso, o inverso também acontece, e não é raro vermos nomeações pejorativas pro lado de muito boleiro.

    Com passagens por gigantes do futebol brasileiro, Herrera carregava o apelido de “Quase gol”.

    Alguns nomes amedrontam o adversário, mesmo sem alcunhas mirabolantes, é só pôr no aumentativo. Clebão, Betão e Fabão são exemplos – e não são nada pequenos na estatura que não justifique o apelido. Já alguns outros não têm essa característica de passar medo. Os jogadores com nomeação no diminutivo geralmente são aqueles pontas agudos e velozes, como Pedrinho, Matheuzinho e Thiaguinho. Outros não são nem uma coisa nem outra, tem apenas apelidos exóticos mesmo, como no caso de Adriano Michael Jackson, Perdigão e Pinga.

    Washington Coração Valente, por exemplo, é heroico, remete a luta que o jogador travou contra problemas cardíacos durante a carreira, assim como a história de superação por trás da alcunha de Gilmar Fubá, que passou por dificuldades financeiras na infância e tomava mamadeiras da farinha de milho.

    Há também aqueles que não fazem valer o nome, ou pelo menos ficam abaixo do que se espera quando se ouve o apelido. São os famosos casos dos “novos Messi” e “novos Neymar”. Como muitos dizem, é a síndrome do cantor Belo, do quadro negro que nem sempre é preto ou do milho verde que na verdade é amarelo.

    Iturbe por muito tempo foi o “novo Messi”.

    Os confrontos entre as equipes também não se salvam do epíteto. Temos os “Derbys”, o “Fla-Flu”, “Majestoso”, “Choque-Rei”, “San-São”, o “das Multidões”, “Gre-Nal”, “Ba-Vi”, “Atletiba”, o “El Clasico” e tantos outros embates futebolísticos.

    Alguns enfrentamentos até ganham nomes históricos devido sua importância ou reviravoltas dentro e fora das quatro linhas, como o Milagre de Berna (Alemanha x Hungria – 1954), Batalha dos Aflitos (Náutico x Grêmio – 2005), Tragédia do Sarriá (Brasil x Itália – 1982) ou o Jogo da Vergonha (Alemanha x Áustria – 1982).

    O fato é que esses codinomes todos nos aproximam ainda mais do futebol, assim como daquele amigo de longa data, o Juninho, o Marcão, o Marcinho. Apelidar vai além de facilitar a lembrança ou a pronúncia de um nome qualquer, é a tentativa cotidiana de nos deixar íntimos, próximos daqueles que chamamos pelo apelido, ou até mesmo descarregar as frustrações no atacante que está há mais de três meses sem marcar um golzinho. A proximidade que isso nos traz talvez seja o que nos faça amar ainda mais esse esporte.

    Com esse atacante que está sem fazer gols eu me identifico. Quando imaginava estar no auge da forma física e técnica há uns anos atrás, almejando um dia ser jogador de futebol, sonhando em ouvir o narrador gritar meu nome após o tento e depois ganhando chuteiras de ouro pelas artilharias, o apelido que eu queria ouvir era “Rudigol”. Pitoresco e piegas, no mínimo, mas era a maneira de humanizar meu sonho e deixar ele mais próximo de quem eventualmente quisesse me aplaudir ou vaiar. Hoje em dia, jogando futebol de mês em mês, acertando um drible de vez em quando e comemorando um passe quando bem feito, os gols já não saem como antes e o próximo passo mesmo é abandonar o apelido e pensar em outro.    

    Postado por Rudiney Freitas Estudante de Jornalismo apaixonado por esportes, em especial pela mais imperfeita perfeição criada pelo homem, o futebol. Procura entendê-lo também como fenômeno social e nega até a morte que tudo “é só um jogo”. Twitter: @rud1ney