O futebol ainda brilha
14 de junho de 2018
Categoria: Futebol e Seleções

Foto: Ale Vianna/Brazil Photo Press/Folhapress

Um ponto irreversível da vida humana sempre será a necessidade de se relacionar, sendo um fator crucial na evolução da sociedade. Obviamente, os contornos com que isso ocorre se alteram com o passar dos anos. Nossos avós não se relacionavam como nós, nem como nossos pais, da mesma forma que as próximas gerações estarão inseridas em uma realidade bem diferente da nossa.

A Copa do Mundo chegou e, se tratando de Brasil e Seleção Brasileira, é impossível muito saudosismo não vir junto, pois não pestanejo em dizer que ali se concentra um dos tópicos mais bem sucedidos da história do país. A mentalidade de boa parte das pessoas caminha para a conclusão de que a seleção não é mais a “mesma coisa”, assim como a Copa. Para esse grupo, as duas coisas perderam seu brilho por uma série de fatores. E na hora de exemplificar sua tese, a mínima quantidade de ruas enfeitadas e a pouca mobilização de forma geral em torno da chegada da competição pintam como argumentos.

Mas será mesmo que a Seleção Brasileira e a Copa do Mundo escureceram a esse ponto? A população de fato não se importa mais?

Foto: Delfim Martins

De uma forma geral, a ordem que o mundo traz hoje caminha para o superficial. Segundo o falecido sociólogo Zygmunt Bauman, na sociedade contemporânea emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações. E isto não é um aspecto do hoje propriamente dito, e muito menos um aspecto inerte, é um processo que todas as gerações fronteiriças a atual inconscientemente reclamam e fatalmente enfrentam.

Muda a forma de se organizar, muda a forma de enxergar o outro, muda a forma de viver. No Brasil, as periferias já tiveram os muros mais baixos, os condomínios fechados não estavam em toda a parte, as raízes e identidades das famílias eram cravadas. Creches integrais não eram uma necessidade, vizinhanças eram mais íntimas e, no geral, vinte e quatro horas já ofereceram mais tempo pra espairecer. O cenário atual em boa parte dos lugares talvez não permita mais o mutirão responsável por erguer as bandeiras coloridas em verde e amarelo, e nem de uma expectativa acalorada diante de uma Copa do Mundo.

E não é romantizar o passado. O tempo passa e enquanto algumas coisas escurecem, outras se iluminam. Fazemos todos parte de uma geração interligada de outras maneiras, capaz de “rodar” o mundo em um toque, ainda que entre muitas coisas a empatia seja escassa. Nessa dança de luz e escuridão, tem algo que não piscou. Mesmo que adaptado aos constantes desgarros e agarros que a evolução traz à construção social, o futebol segue como uma das maiores paixões do brasileiro.

Quando a bola rolar nas partidas de nossa Seleção, a grande maioria das casas estarão ligadas no jogo, e algumas que não estarão ligadas, estarão in loco – o Brasil é o terceiro país que mais comprou ingressos para o Mundial, um dos participantes mais distantes da Rússia. E mais que isso, muitos vizinhos que não costumam se falar se falarão, as pessoas vão sorrir mais que o normal, pois raros são os momentos hoje em que nos sentimos próximos em “objetivo” (por mais bobo que possa ser este). Famílias poderão estar mais juntas e mesmo quem nada sabe de futebol e diz não gostar, será capaz de amar a Copa do Mundo e torcer por Tite e seus comandados.

O mundo muda, a sociedade muda, rápida e imprevisivelmente, em uma era onde tudo é líquido. Apesar de tudo isso, já fazem quase 100 anos que a cada quatro um país concorda como não concorda em mais nada. O futebol vive e traz um brilho diferente ao Brasil em época de Copa do Mundo.

Postado por Davi Borralho Acadêmico de Direito, maranhense e apaixonado por futebol!